51-Incêndio

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Horas depois, no palacete da família Leroy.

Assim que Alis fechou a porta após a saída do último bombeiro, virou-se para a filha e falou:

— Diná, por muito tempo tentei esconder toda a verdade de Jean. Cometi o erro de poupar vocês e agora estamos velhas demais para lutar contra aquele monstro. Poucas são as pessoas da nossa família que escaparam da praga lançada pela bruxa, o que fez com que a linhagem definhasse, seja pela loucura ou pela infertilidade. Precisamos da ajuda de Jean, que é o último homem que carrega o nosso nome.

...

Padre Carlos estava passando pelo local onde a gárgula estava exposta e, assim que bateu o olho na escultura, saiu correndo em direção ao Santíssimo.

— Arcebispo! Arcebispo! Eu juro que não fiz nada! Nem cheguei perto daquela coisa, aliás, morro de medo dela!

O Arcebispo levantou-se sem nem fazer o sinal da cruz e caminhou o mais rápido que sua idade permitia até o local. Ao chegar, parou imóvel ao ver a escultura com uma asa trincada e também sem um pequeno fragmento de aproximadamente dois centímetros no peito.

— Ligue agora para Eugène, o médico! — Ordenou.

...

Após poucas horas...

— Desculpa chegar a essa hora.

— Imagina, meu filho. Nós não conseguiríamos dormir mesmo. — Disse a mãe, abraçando-o carinhosamente.

— Grand-mère. — Falou Jean, deixando a mala perto da porta e caminhando até o sofá onde a avó estava. — A senhora está bem? Como aconteceu o incêndio? Os bombeiros disseram alguma coisa?

— Meu neto, bendito seja. — Ela acariciou o rosto dele com ambas as mãos. — Tenho tanto para te contar, mas ainda não é a hora. Descanse da viagem. Prometo que te explicarei tudo depois do meu aniversário.

...

No dia seguinte...

Jean, ansioso para entender o que realmente acontecera, foi até o quartel dos bombeiros. Como conhecia muita gente na cidade, usou de sua influência para tentar obter informações que a avó omitira.

— Bonjour, Capitão Saymon.

— Jean Carlos de Leroy. Eu poderia perguntar a que devo a honra da sua visita, mas seria retórica.

— Capitão, sei que é cedo para ter certezas, mas vocês já desconfiam do que provocou o incêndio no quarto da Alis?

— Jean, tudo é muito estranho. Achamos que o fogo foi proposital, mas esse não é o maior problema. A polícia está com o caso. A porta de vidro que dava acesso à varanda foi quebrada de forma muito peculiar; dá para ver que foi de dentro para fora. Além disso, existem marcas na parede que não fazem sentido nenhum.

— Alis está escondendo algo. Disse que acordou com barulhos, mas não acredito que seja toda a verdade.

Jean não ficou satisfeito com a resposta e foi atrás de mais dados com um amigo na polícia.

— Jean, meu querido amigo! Como vão as coisas na cidade luz?

— Gostaria de dizer que estão calmas, mas não é verdade.

— O Capitão Saymon me avisou que você viria, então pedi para que a perícia adiantasse o relatório do que encontramos ontem no palacete.

O Capitão Jules cumprimentou-o com um aperto de mão e o levou até sua sala.

— Jean, queria muito te ajudar, mas estamos tão perdidos quanto os bombeiros. O portão do jardim estava trancado, assim como a porta principal e a dos fundos. Não encontramos sequer um fio de cabelo que não fosse de Alis ou Diná, o mesmo vale para impressões digitais.

Jean olhou fixamente para o amigo, que continuou:

— Não me olhe assim, não desconfio da sua mãe ou da Alis. Até porque o palacete já não pertence à família há tempo, elas não teriam motivo para danificar um patrimônio histórico. Mas, Jean... não encontramos nada. Nenhuma digital, nenhum rastro. Você já viu o tamanho do buraco que foi feito na porta da varanda? Alis não usa óculos, e mesmo que usasse, duvido que não teria visto algo daquele tamanho se estivesse acordada. E o que mais me intriga é saber por que ela está protegendo quem fez aquilo. Pela dimensão do estrago, a pessoa estava carregando algo enorme. E o mais curioso: elas não registraram furto, apesar de que algo certamente foi levado.

— O que o senhor acha que aconteceu então? — perguntou Jean.

— A minha tese é que houve uma briga. Ele entrou escalando ou voando pela varanda. Alis usou o atiçador para se defender e talvez tenha jogado querosene nele — embora o recipiente estivesse no closet quando chegamos. Ela não quer falar porque foi ameaçada. Mas, como eu disse, é só uma teoria. Os muros são altíssimos, teria que ser alguém com habilidade incrível para subir ali, ou... que sabe voar.

— E quanto a objetos roubados?

— A única coisa que encontramos, tanto no quarto quanto no jardim, foram pequenos fragmentos de mármore branco.

— Muito obrigado, Capitão Jules.

— Jean, aqui não é como Paris. As pessoas falam muito e esse incidente está fazendo reviver a lenda da gárgula. Há quem diga que o próximo livro da Emma está amaldiçoado.

— A escultura está em Notre Dame. É apenas pedra, não pode fazer mal a ninguém. Quem entrou naquele quarto estava vivo e bem acordado.

— Lamento não poder ajudar mais. Ah, a Marta ficou radiante em saber que o livro da Emma vai virar série. Ela disse que é excelente e que a adaptação será um sucesso.

— Obrigado, Capitão. Dê um abraço na sua esposa e agradeça o carinho.

...

Algum tempo depois, Jean olhava pensativo para o grande buraco na porta da varanda do quarto da avó. Alis entrou no aposento e comentou:

— Você acredita que os policiais ficaram insistindo para que saíssemos daqui e fôssemos para a casa da sua mãe no centro? Justo agora, perto do meu aniversário? Nossa família inteira nem cabe lá!

— Grand-mère, cada minuto que a senhora passa sem nos dizer quem fez isso, mais difícil fica para encontrarmos esse bandido.

— Meu neto querido, não se preocupe. Eu sei exatamente onde ele está.

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora