78- A demora

16 4 0
                                        



 

— Alis, eu não posso simplesmente aparecer de uma hora para outra na catedral e começar a mexer na fiação — disse o homem, a voz abafada pelo ruído distante de um bar mal iluminado. — Mas não precisa se preocupar. Já consegui o uniforme da empresa responsável pela manutenção elétrica. Na semana que vem eles estarão lá, e eu também.

Do outro lado da linha, houve um breve silêncio. Não o silêncio da dúvida, mas o da avaliação fria.

— Acho bom — respondeu Alis, sem elevar o tom. — Essa demora já se prolongou tempo demais. Espero que você não esteja tentando me passar a perna. Conheço pessoas que conhecem pessoas, e o seu fim pode não ser nada agradável.

A ligação foi encerrada sem despedidas.

Alis permaneceu alguns segundos com o telefone ainda junto ao ouvido, os olhos fixos na chama trêmula da vela à sua frente. Em sua mente estavam as balas que entregara a Jean. Ela não tinha certeza se o neto sabia o quão importante eram aquelas balas. À primeira vista, pareciam comuns, cartuchos rústicos, quase primitivos. Mas não eram.

Aquelas balas não tinham sido feitas apenas para ferir.

O carvalho de que eram feitas não era qualquer madeira. Vinha de árvores antigas, colhidas segundo ritos específicos, árvores que haviam crescido em solo consagrado, testemunhas de orações, confissões e mortes. Alis as havia mergulhado em água benta, sim, mas também em algo mais antigo, mais perigoso. Um preparo que não constava em livros, transmitido apenas entre aqueles que sabiam que certas criaturas não podiam ser derrotadas enquanto permanecessem presas à sua forma encantada.

O gárgula não podia ser morto enquanto fosse pedra viva.

Primeiro, precisava ser quebrado o feitiço.

Aquelas balas não o destruiriam de imediato. Elas fariam algo pior, ou melhor, dependendo do ponto de vista. Ao atravessarem a carne encantada, forçariam a magia a ceder, arrancando dele aquilo que o protegia havia séculos. O devolveriam à sua condição original.

Humano outra vez.

Vulnerável.

Mortal.

Só então Jean poderia matá-lo.

Alis fechou os olhos por um instante, como se rezasse, embora já não soubesse exatamente para quem. Notre Dame surgia em sua mente, imponente, carregada de carvalho antigo, fé acumulada e segredos demais para contar. Quando o fogo viesse, nada seria apenas destruição.

Seria revelação.

— A demora termina na semana que vem — murmurou para si mesma. — Seja como for.

E, pela primeira vez em muito tempo, Alis sorriu.

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora