O relógio marcava pouco depois das quatro da tarde.
A livraria Lumière des Pages estava cheia.
Luzes quentes iluminavam as estantes organizadas com precisão, enquanto uma fila longa se estendia até quase a porta. Havia murmúrios animados, celulares erguidos, flashes ocasionais e o som constante de páginas sendo folheadas.
No centro de tudo, estava Louise Martin.
Sorridente.
Impecável.
Ela assinava mais um exemplar com caligrafia elegante, inclinando levemente a cabeça para uma leitora que claramente tentava conter a emoção.
— Para você, com carinho — disse Louise, entregando o livro.
— Eu amo sua escrita! — respondeu a jovem, quase sem fôlego.
Louise sorriu.
Um sorriso treinado.
Perfeito.
— Fico muito feliz em saber disso.
Outro leitor se aproximou.
Depois outro.
E mais outro.
Fotos.
Elogios.
Admiração.
Era exatamente o que ela sempre quis.
O reconhecimento.
O prestígio.
O lugar que, em sua mente, sempre foi dela por direito.
— Louise, aqui! — alguém chamou para mais uma foto.
Ela virou o rosto no ângulo exato.
Natural.
Ensaiado.
Brilhante.
Mas então—
— Louise.
A voz veio mais baixa.
Mais firme.
Diferente.
Rubi estava ao lado da mesa, inclinando-se discretamente.
— Você pode vir um instante?
Louise manteve o sorriso.
Mas os olhos mudaram.
Algo nela se retraiu.
— Claro.
Ela se levantou com elegância, pedindo licença aos leitores.
— Já volto, pessoal.
Ainda sorrindo.
Ainda perfeita.
Mas, assim que se afastou alguns passos, o sorriso desapareceu.
— O que foi? — perguntou, em voz baixa.
Rubi não respondeu imediatamente.
Apenas fez um leve gesto com a cabeça.
Mais ao fundo.
Mais reservado.
Longe das câmeras.
Longe dos ouvidos curiosos.
Louise franziu o cenho.
Mas seguiu.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
E, quando chegaram ao pequeno corredor lateral da livraria, ela viu.
Um homem.
Postura rígida.
Traje formal.
Um envelope nas mãos.
O coração dela falhou por um segundo.
— Senhora Louise Martin? — ele perguntou.
A voz neutra.
Profissional.
Ela demorou meio segundo para responder.
— Sim.
O homem estendeu o envelope.
— Oficial de justiça.
O mundo pareceu desacelerar.
— A senhora está sendo intimada a comparecer à delegacia para prestar esclarecimentos.
Louise pegou o envelope.
Os dedos firmes.
Mas frios.
— Sobre o quê? — perguntou, tentando manter o controle.
— Investigação relacionada ao desaparecimento da gárgula Pierre Duran... — ele disse — e de outras relíquias.
O nome ecoou.
Pierre Duran.
Como um golpe seco.
Louise não respondeu.
Apenas abriu o envelope.
Os olhos correram pelas linhas.
Rápidos.
Precisos.
E, a cada palavra...
Algo dentro dela começava a rachar.
Roubo.
Investigação.
Comparecimento obrigatório.
Possível envolvimento.
— Não... — ela murmurou, quase sem voz.
Rubi observava.
Tensa.
Sem saber o que dizer.
Louise apertou o papel com mais força.
— Não, agora não.
A respiração dela ficou mais curta.
Mais irregular.
— Agora que eu estou começando a receber tudo o que mereço...
Os olhos dela brilharam.
Mas não de emoção.
De desespero contido.
— Isso não pode acontecer.
O silêncio no corredor era pesado.
O som distante da livraria — risos, vozes, aplausos — parecia vir de outro mundo.
Louise fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
Quando abriu novamente...
O brilho havia mudado.
Não era mais apenas medo.
Era cálculo.
Rápido.
Frio.
— Ninguém pode saber disso agora — ela disse, firme, olhando para Rubi.
— A livraria está cheia — Rubi respondeu, nervosa. — Tem gente esperando...
Louise dobrou a intimação com cuidado.
Como se aquilo fosse apenas um detalhe.
Um contratempo.
— Então eles vão continuar esperando.
Guardou o papel dentro da bolsa.
Endireitou a postura.
Passou a mão pelos cabelos.
E, como um passe de mágica...
O sorriso voltou.
Perfeito.
Impecável.
Como se nada tivesse acontecido.
Ela olhou para Rubi.
— Isso não vai me derrubar.
A voz saiu baixa.
Mas carregada de algo perigoso.
— Eu não cheguei até aqui para cair agora.
E então...
Sem mais uma palavra...
Louise voltou para o salão principal.
As luzes.
As pessoas.
As câmeras.
— Desculpem a demora! — disse, animada, retomando seu lugar.
Os leitores sorriram.
A fila avançou.
Os autógrafos continuaram.
Mas, dessa vez...
Por trás de cada assinatura...
Havia uma contagem regressiva silenciosa começando.
...
Duas semanas depois...
O tribunal estava lotado.
Não havia um único assento vazio.
O ar parecia pesado, carregado de expectativa, curiosidade e um certo prazer cruel que o público sempre encontra na queda de alguém que, até pouco tempo atrás, era admirado.
No centro daquele cenário, sob a luz fria que atravessava os vitrais altos, estava Louise Martin.
Sentada.
Imóvel.
As mãos entrelaçadas com força sobre a mesa.
Os olhos fixos à frente, mas sem realmente enxergar nada.
Sua postura ainda era elegante.
Mas havia algo quebrado ali.
Algo que nenhuma maquiagem, nenhum sorriso ensaiado, conseguiria esconder.
O murmúrio cessou quando o juiz entrou.
— Todos de pé.
O som das cadeiras arrastando ecoou pelo salão.
O juiz se acomodou.
— Podem se sentar.
Silêncio.
Denso.
Cortante.
— Daremos continuidade ao julgamento do caso envolvendo o roubo e comercialização ilegal de relíquias históricas e religiosas — declarou o juiz, com voz firme. — Chamem a testemunha.
A porta lateral se abriu.
E então ele entrou.
Kaleb Sernalsan.
Alguns cochichos surgiram.
Era impossível ignorar a figura dele — não apenas pela presença, mas pelas histórias absurdas que o cercavam.
Alegações de magia.
De criaturas.
De coisas que a razão recusava aceitar.
Ele se posicionou.
Prestou juramento.
E então o interrogatório começou.
— Senhor Kaleb Sernalsan — disse o advogado de acusação, caminhando lentamente diante do júri — o senhor reconhece a ré como a pessoa que fornecia informações sobre as relíquias?
Kaleb não hesitou.
Seus olhos encontraram Louise.
Firmes.
Diretos.
— Sim, senhor juiz — respondeu. — Era ela.
Um murmúrio percorreu o tribunal.
Louise fechou os olhos por um instante.
Respirou fundo.
Mas permaneceu em silêncio.
— Pode explicar ao tribunal como funcionava esse esquema? — continuou o advogado.
— Louise Martin me passava horários, rotas de transporte, detalhes de segurança... — disse Kaleb. — Informações precisas. Sempre precisas demais para serem coincidência.
O advogado assentiu.
— E o que acontecia depois?
— Eu organizava o roubo. E... — ele hesitou por um breve segundo — ela também indicava possíveis compradores.
Outro burburinho.
Mais intenso.
Mais pesado.
Louise abriu os olhos.
E, dessa vez, não conseguiu conter.
— Isso é absurdo! — disse, levantando-se. — Ele está mentindo!
— Eu protesto, meritíssimo! — continuou, a voz tremendo entre raiva e desespero. — Como podem acreditar em alguém que alegou ter sido amarrado em um poste por uma gárgula?!
Algumas pessoas riram.
Outras se entreolharam.
O juiz bateu o martelo com força.
— Ordem no tribunal! — sua voz ecoou. — Senhora Louise Martin, a senhora só falará quando for solicitada.
Louise congelou.
Respirando rápido.
Os olhos brilhando.
Mas, lentamente...
Sentou-se novamente.
O advogado de acusação retomou, com calma calculada.
— Senhor Kaleb, o senhor possui alguma prova concreta que ligue a ré aos crimes?
— Sim.
O silêncio voltou.
Pesado.
Expectante.
O advogado pegou uma pasta.
Abriu com cuidado.
— Excelência, gostaríamos de apresentar ao tribunal algumas evidências coletadas durante a investigação.
O juiz fez um gesto afirmativo.
— Prossiga.
O advogado começou:
— Primeiramente, registros de chamadas e mensagens criptografadas entre a ré e o senhor Kaleb Sernalsan... — ele ergueu um documento — recuperadas de um aplicativo oculto no celular da ré.
Louise engoliu seco.
— Nessas mensagens, encontramos coordenadas, horários e descrições detalhadas de transporte de relíquias vindas de igrejas, museus e coleções privadas.
O advogado virou outra página.
— Em segundo lugar: agendas apreendidas na residência da ré.
Ele levantou um caderno.
— Nessas agendas, constam nomes, valores e códigos que, após análise, foram identificados como compradores internacionais de artefatos ilegais.
Mais murmúrios.
Mais tensão.
— Terceiro: transferências bancárias — continuou. — Valores elevados, provenientes de contas no exterior, sem justificativa legal compatível com a renda declarada da ré.
Louise apertou os dedos com força.
As unhas quase perfurando a pele.
— E, por fim...
Ele fez uma pausa.
Olhou diretamente para o júri.
— Um contrato digital não assinado, encontrado em seu computador.
Silêncio absoluto.
— Um acordo de exclusividade para fornecimento de relíquias raras... com cláusulas que mencionam explicitamente itens retirados da catedral de Notre Dame.
O nome caiu como uma lâmina no ambiente.
Louise perdeu o fôlego por um segundo.
— Isso... isso não prova nada — ela murmurou, quase inaudível.
Mas todos ouviram.
O advogado deu um pequeno sorriso.
— Pelo contrário, senhora Louise.
Ele fechou a pasta.
— Prova muito.
O julgamento seguiu.
Testemunhas.
Argumentos.
Defesas.
Horas que pareceram dias.
E então...
Veio o momento final.
O tribunal inteiro parecia prender a respiração.
O juiz olhou para os documentos.
Depois para Louise.
E então falou.
— Após analisar as provas apresentadas, os depoimentos das testemunhas e os argumentos de ambas as partes...
Uma pausa.
Longa.
Dolorosa.
— Este tribunal considera a ré, Louise Martin...
Louise balançou a cabeça, quase imperceptivelmente.
Como se pudesse negar a realidade antes mesmo de ouvi-la.
— Culpada.
O mundo desabou em silêncio.
Por um segundo...
Não houve som.
Não houve movimento.
Apenas o vazio.
— Pelos crimes de associação criminosa, facilitação de roubo de patrimônio histórico e intermediação ilegal de bens culturais...
Cada palavra era um golpe.
— Condeno a ré à pena de dois anos de prisão.
E então—
— Não.
A voz saiu fraca.
Quebrada.
Louise se levantou lentamente.
— Não... não, não, não...
Os olhos se encheram de lágrimas.
— Isso não pode estar acontecendo...
A respiração ficou irregular.
Descontrolada.
— Não!
Agora mais alto.
Mais desesperado.
— EU NÃO FIZ NADA!
As lágrimas escorriam sem controle.
— NÃO! EU NÃO POSSO SER PRESA!
O tribunal entrou em alvoroço.
O juiz bateu o martelo.
— ORDEM NO TRIBUNAL!
Mas Louise já não ouvia.
— EU MEREÇO ISSO! EU LUTEI POR ISSO! — ela gritava, completamente descomposta. — EU MEREÇO TUDO QUE EU CONQUISTEI!
Dois oficiais se aproximaram.
— Senhora, por favor—
— NÃO ENCOSTA EM MIM!
Ela tentou recuar.
Mas não havia para onde ir.
— NÃO! POR FAVOR! NÃO!
A voz falhou.
Quebrou.
Virou um choro cru.
— Eu não posso... eu não posso...
As pernas cederam.
Os oficiais a seguraram.
Firmes.
— Senhora Louise Martin, a senhora está sob custódia.
— NÃO... — ela sussurrou, agora sem forças. — Não...
Enquanto era conduzida para fora...
O salão inteiro assistia.
Alguns em silêncio.
Outros cochichando.
Alguns... satisfeitos.
A porta se abriu.
A luz do corredor invadiu o tribunal.
E, pela última vez...
Louise olhou para trás.
Mas já não havia mais aplausos.
Nem admiração.
Nem leitores.
Apenas olhares frios.
E o peso irreversível de sua queda.
A porta se fechou.
E o som ecoou como o ponto final de tudo que ela acreditou ser eterno.
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Gárgula ( +18)
Fantezie* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ... Eu já falei que o livro tem muito sexo? É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
