Vi o rosto de Eugène despencar de cem a zero em questão de segundos. O sorriso radiante que iluminava o altar evaporou como fumaça, substituído por um brilho úmido nos olhos, lágrimas que denunciavam a dor crua por trás da fachada impecável. A mão de Karen se soltou da dele com um puxão brusco, como se, de repente, o toque do noivo lhe queimasse a pele.
Flashes explodiram ao redor, cegantes e impiedosos. As primeiras fileiras estavam tomadas por revistas de fofoca, fotógrafos famintos caçando o escândalo perfeito. Celulares surgiam de todos os lados, registrando cada segundo do colapso dentro da catedral sagrada. Aquilo já não era apenas o assunto do dia, seria o da semana inteira. Os sussurros cresceram até se tornarem um burburinho nervoso, enquanto o ar pesado de incenso se misturava ao gosto metálico da tensão.
O policial aproximou-se de Karen com passos firmes, as algemas tilintando em sua mão.
— Senhora, preciso levá-la — disse, em tom baixo, porém irredutível.
Karen reagiu com fúria, empurrando-o, os olhos em chamas.
— Não me toque!
O advogado levantou-se num salto, balançando a cabeça em negação, murmurando palavras apressadas sobre direitos, ilegalidades e habeas corpus. Foi então que Karen cessou a resistência. Os ombros caíram, vencidos, como se toda a força que a sustentava tivesse se esgotado naquele instante.
O capitão avançou. Era um homem de expressão dura, marcado por cicatrizes que denunciavam anos em ruas mais sombrias do que aquela nave sagrada. Sem hesitar, algemou Karen. O clique frio do metal ecoou como uma sentença definitiva.
Enquanto a conduziam para fora da catedral, os saltos de Karen ressoavam no mármore como um réquiem. Cada passo era o som do fim.
Eugène desabou.
Caiu de joelhos diante do altar, devastado, cobrindo o rosto com as mãos enquanto soluços abafados escapavam, incapazes de permanecer contidos. Um casamento destruído sob os olhos de Deus, e do mundo inteiro.
Eu chorei em silêncio, o coração em pedaços. Ali, diante de mim, não ruía apenas uma cerimônia, mas um amor exposto, julgado e despedaçado em plena luz.
Nada cai mais rápido do que aquilo que parecia perfeito.
Três dias depois
A delegacia cheirava a café velho, papel úmido e cansaço. O som distante de telefones tocando e passos apressados ecoava pelos corredores estreitos. Eugène aguardava sentado diante da sala de visitas, segurando uma sacola de papel amassada com cuidado excessivo, como se fosse algo frágil demais para aquele ambiente.
Quando Karen entrou, escoltada por um policial, ele sentiu o peito se contrair.
Ela estava diferente.
O cabelo preso às pressas, o rosto sem maquiagem, as olheiras profundas denunciando noites sem sono. Ainda assim, ao vê-lo, seus olhos se iluminaram por um breve instante, um reflexo automático, quase infantil.
— Meu amor... — Eugène se levantou imediatamente.
Eles se sentaram frente a frente, separados por uma mesa fria de metal. O advogado de Karen ocupou a cadeira ao lado, rígido demais, evitando qualquer contato visual.
— Estou com tanta saudade — disse Eugène, a voz baixa, carregada de esforço. — Tenho pensado muito em você. Pensei em colocar um advogado melhor no caso, alguém mais agressivo. Tenho certeza de que, junto com o seu, eles podem pensar em alguma estratégia.
Ele lançou um olhar rápido ao advogado. O homem desviou os olhos, fingindo folhear uma pasta vazia.
Eugène franziu o cenho, mas não insistiu.
Abriu a sacola com cuidado.
— Eu trouxe biscoitos, e bolos. Trouxe croissant também — disse, empurrando o pacote em direção a ela. — Sem recheio, como você gosta.
Karen segurou o croissant com as duas mãos, mas não o mordeu. Apenas o apertou, como se fosse a última coisa familiar que lhe restava. Os lábios começaram a tremer.
— Eugène... — sussurrou.
Ela inclinou-se sobre a mesa, ignorando a presença do advogado e do policial próximo à porta.
— Você precisa me ajudar. — Sua voz falhou. — Você não faz ideia do que é ficar aqui dentro, as paredes falam, o tempo não passa, eu não durmo. Eles me olham como se eu já estivesse condenada.
Os olhos de Karen se encheram de lágrimas.
— Eu não vou aguentar — continuou, agora em tom de súplica. — Se eu ficar aqui mais tempo, eu vou enlouquecer. Eu juro. Sinto que minha cabeça está se partindo em dois.
Ela estendeu a mão por cima da mesa, segurando o pulso de Eugène com força desesperada.
— Faça o que for preciso. Qualquer coisa. — A voz caiu para um sussurro perigoso. — Me tira daqui, nem que seja só por um tempo. A gente pode ir para longe, ninguém precisa saber. Você sempre soube resolver as coisas, sempre soube me proteger.
Eugène puxou a mão de volta lentamente, o rosto pálido.
— Karen... — murmurou. — Isso não é tão simples.
— É simples, sim! — ela interrompeu, quase sem controle. — É isso ou eu vou morrer aqui dentro. Ou pior, vou perder a cabeça. Você não quer isso, quer?
O advogado pigarreou, desconfortável.
— Karen, precisamos ter cuidado com o que dizemos — alertou, sem convicção.
Ela o ignorou completamente.
— Você me ama, não ama? — perguntou, encarando Eugène com intensidade quase febril. — Então prova. Me tira daqui.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Eugène desviou o olhar, apertando os lábios, dividido entre o amor que ainda sentia e o abismo que se abria diante dele.
Do lado de fora da sala, o relógio continuava marcando o tempo, indiferente à queda lenta e irreversível de tudo o que ainda restava entre eles.
Assim que Karen foi conduzida para fora da sala, Eugène permaneceu sentado por alguns segundos, imóvel, como se o corpo ainda não tivesse recebido a notícia de que o mundo havia mudado. O advogado levantou-se primeiro, ajeitando o paletó com um gesto automático.
— Doutor — chamou Eugène, levantando-se também. — Podemos conversar um instante?
O homem hesitou, lançou um olhar rápido ao corredor e assentiu.
Caminharam alguns metros até um canto mais afastado, onde uma janela alta deixava entrar uma luz pálida e sem vida. O som da delegacia parecia distante ali.
— Eu preciso que o senhor se esforce mais — disse Eugène, direto, a voz firme apesar do cansaço evidente. — Contrate o que for preciso. Peritos, consultores, especialistas... Eu posso ajudar financeiramente. Assim que Karen for libertada, o senhor será recompensado. Muito bem recompensado.
O advogado respirou fundo, passou a mão pelo rosto e, por um momento, pareceu envelhecer dez anos.
— Eugène... — começou, em tom baixo. — Isso não vai acontecer.
— Como assim? — Ele franziu o cenho. — O senhor mesmo disse que ainda não há condenação.
— Não há condenação formal — corrigiu o advogado —, mas há verdade. E provas suficientes para sustentá-la.
Eugène ficou em silêncio, esperando.
O advogado aproximou-se um pouco mais, baixando ainda mais a voz.
— Karen matou Sebastian.
As palavras caíram como um bloco de pedra.
— Não... — Eugène murmurou, negando com a cabeça. — Isso não é possível.
— É — respondeu o advogado, sem rodeios. — Ela colocou sonífero na bebida dele. Uma quantidade absurda.
— Mas... — Eugène engoliu em seco. — Ela disse que nunca faria algo assim.
— E eu vou alegar que o intuito era apenas fazê-lo dormir — continuou o advogado, implacável. — Que ela queria impedir Sebastian de sair de casa, de ir ao encontro da amante. Direi que foi um erro de cálculo. Que ele insistiu em dirigir e acabou pegando no sono ao volante.
Ele fez uma pausa curta, suficiente para que o silêncio pesasse.
— Mas essa não é a verdade.
Eugène sentiu o estômago revirar.
— A verdade — prosseguiu o advogado — é que Karen administrou uma dose cavalar. Não foi descuido. Não foi impulso. Foi intenção. Ela queria que ele não acordasse.
— Você está dizendo que ela planejou... — Eugène não conseguiu terminar a frase.
— Estou dizendo que ela sabia exatamente o que estava fazendo, sem falar que uma pessoa viu tudo, a arrumadeira. Ela voltou para buscar o documento que havia esquecido, entrou pela porta dos fundos, não foi notada por ninguém, e ela deu depoimento — respondeu o advogado, com frieza profissional. — E que agora não há dinheiro, influência ou estratégia jurídica capaz de apagar isso.
Eugène passou a mão pelos cabelos, andando alguns passos para trás como se precisasse de espaço para não sufocar.
— Então... tudo o que ela me pediu... — murmurou. — A fuga, a ajuda...
— É desespero — disse o advogado. — E manipulação. Ela sabe que o cerco fechou.
Ele encarou Eugène pela primeira vez, de forma direta.
— O melhor que posso fazer por você é ser honesto: afaste-se. Quanto mais tentar salvá-la, mais afundará junto. Karen não precisa de um noivo agora. Precisa de um milagre. E milagres não existem no tribunal.
O advogado se afastou, deixando Eugène sozinho no corredor estreito, com a sensação de que o amor que acreditava conhecer havia se transformado em algo irreconhecível, escuro, pesado e irreversível.
E, pela primeira vez, Eugène percebeu que talvez não estivesse tentando salvar Karen...
mas a si mesmo.
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Gárgula ( +18)
Fantasia* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ... Eu já falei que o livro tem muito sexo? É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
