89 Último Suspiro

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A casa já não era mais um refúgio.
Era um limite.
Um lugar entre o que ainda resistia...
E o que estava prestes a desaparecer.
O quarto havia mudado.
Outra vez.
O que antes era apenas um esconderijo... agora parecia um espaço improvisado entre vida e morte.
Equipamentos ocupavam cada canto.
Tubos.
Cabos.
Ruídos baixos e constantes.
A mãe de Eugène — Claire Delacroix — caminhava de um lado para o outro, com a expressão fechada, concentrada.
Ela observava os dados.
O ritmo.
A respiração.
E então...
Parou.
— Precisamos reativar a UTI aqui dentro — disse, firme.
Emma, que estava ao lado da cama, ergueu o olhar imediatamente.
— UTI?
Claire assentiu.
— Ele não está estabilizando.
Eugène se aproximou.
— O que está acontecendo?
Claire respirou fundo antes de responder.
Mas, quando falou...
Foi direta.
— Eu suspeito que um dos pulmões dele parou de funcionar.
O silêncio caiu como um golpe.
Emma levou a mão à boca.
— Não...
Claire continuou, técnica — mas havia humanidade em sua voz.
— A respiração está assimétrica. Muito esforço para pouca troca de ar. Isso não é só fraqueza.
Pierre, na cama...
Respirava com dificuldade.
A máscara de oxigênio cobria parte do rosto.
O som da respiração dele era irregular.
Pesado.
Cada inspiração parecia uma batalha.
Cada expiração... uma rendição parcial.
— Precisamos confirmar — continuou Claire. — Eu preciso de imagem.
Eugène assentiu imediatamente.
— O que você precisa?
— Um equipamento de radiografia portátil — ela disse. — Um aparelho de raio-X móvel.
Uma pausa.
— E, se possível... um intensificador de imagem ou um sistema de radiografia digital portátil.
Ela olhou diretamente para ele.
— Eu preciso ver se o pulmão esquerdo colapsou completamente.
Eugène não hesitou.
— Eu vou conseguir.
Claire segurou o braço dele.
— Eugène.
Ele parou.
— Rápido.
Ele assentiu.
E saiu.
Sem dizer mais nada.
Charlotte se aproximou da cama.
Seus olhos já estavam cheios.
Mas ela ainda tentava se manter firme.
— Pierre...
Ele virou o rosto com esforço.
Os olhos... ainda vivos.
Mas cansados.
Muito cansados.
— Ei... — a voz dele saiu fraca.
Mas ainda era ele.
Ela segurou a mão dele.
Com cuidado.
Como se tivesse medo de quebrá-lo.
Claire observou por alguns segundos.
E então disse:
— Eu preciso falar com vocês dois.
Emma olhou para ela.
— Agora?
Claire assentiu.
— Agora.
Na sala ao lado, o silêncio era denso.
Pesado.
Claire fechou a porta.
E demorou um segundo antes de falar.
— Ele não vai resistir muito tempo.
As palavras foram simples.
Mas devastadoras.
Emma sentiu o mundo girar.
— Não...
— Eu preciso que você escute — Claire continuou. — Não como alguém que espera um milagre.
Uma pausa.
— Mas como alguém que precisa estar preparada.
Eugène fechou os olhos.
— Quanto tempo?
Claire não respondeu de imediato.
— Pouco.
Muito pouco.
O silêncio engoliu tudo.
Quando voltaram para o quarto...
Pierre parecia ainda mais fraco.
Mas, quando viu os dois...
Ele tentou sorrir.
— Vocês demoraram...
Charlotte se aproximou imediatamente.
— Estamos aqui.
Ele assentiu, com dificuldade.
Respirou.
Com esforço.
E então disse:
— Eu preciso pedir uma coisa.
A voz dele mudou.
Ficou mais firme.
Mais urgente.
Eugène se aproximou.
— O que for.
Pierre olhou para Charlotte.
Depois para Eugène.
— Protejam ela.
Não precisou dizer quem.
— Com tudo que vocês tiverem.
Emma já chorava.
— Sempre.
Pierre engoliu seco.
— Mas não é só isso.
Uma pausa.
— Ninguém pode saber quem ela é.
O olhar dele ficou mais intenso.
— Nem o que ela é.
Eugène assentiu.
— A gente já—
— Não — Pierre interrompeu. — Não é suficiente.
Silêncio.
— Vocês precisam... apagar tudo.
Emma sentiu o coração disparar.
— Como assim?
— Façam parecer... que vocês adotaram ela.
— Um orfanato.
— Documentos.
— Uma história.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— E mudem a idade.
Emma franziu o cenho.
— O quê?
— Um ano a menos.
Uma pausa.
— Para que ninguém conecte datas.
— Ninguém conecte o nascimento...
— Com o desaparecimento dele.
— Com o Vaticano.
— Com nada.
Eugène passou a mão no rosto.
— Isso é arriscado.
Pierre o encarou.
— Mais arriscado é não fazer.
Silêncio.
Pesado.
Definitivo.
Pierre estendeu a mão com dificuldade.
— Prometam.
Emma segurou imediatamente.
— Eu prometo.
Eugène hesitou um segundo.
Mas então...
— Eu também.
Pierre fechou os olhos.
E, pela primeira vez...
Pareceu em paz.
Dias depois...
Houve um dia diferente.
Um raro momento de trégua.
Pierre acordou melhor.
Respirando com menos esforço.
Os olhos mais claros.
— Hoje eu quero sair.
Emma hesitou.
Mas viu.
Ele precisava disso.
Então ajudou.
Devagar.
Com cuidado.
Até o quintal.
O sol estava suave.
O vento leve.
E ali...
Havia um salgueiro.
Antigo.
Silencioso.
Quase como um guardião.
Ange correu até ele.
Rindo.
— Papai!
Pierre abriu os braços.
E a pegou.
Com cuidado.
Mas com amor.
Muito amor.
— Minha pequena...
Eles brincaram.
Por pouco tempo.
Mas o suficiente.
O suficiente para parecer... normal.
Até que o cansaço veio.
Pesado.
Inevitável.
Pierre se sentou.
Depois deitou sob o salgueiro.
Os galhos dançavam acima dele.
Como se sussurrassem despedidas.
Ange se aproximou.
E deitou no peito dele.
Pequena.
Leve.
— Papai...
— Sim...
A voz dele era baixa.
Mas cheia de carinho.
— O céu é bonito?
Pierre sorriu.
Com lágrimas nos olhos.
— É.
— Muito?
— Muito.
Ele olhou para ela.
— É infinito.
A menina abriu um pequeno sorriso.
— Eu quero voar.
O coração dele apertou.
— E você vai.
— Sério?
— Sério.
Uma lágrima escorreu.
— Voar é a coisa mais linda que existe.
Ela riu.
— Igual passarinho?
— Melhor.
Uma pausa.
— Muito melhor.
Ela pensou.
Com a lógica simples de uma criança.
— Você já voou?
Pierre fechou os olhos por um segundo.
Respirou.
— Já.
— Eu quero ir com você.
Ele abriu os olhos.
E a olhou como se quisesse gravar aquele momento para sempre.
— Um dia...
Ele beijou a testa dela.
— Mas não agora.
Silêncio.
Ela brincou com a camisa dele.
— Papai...
— Hm?
— Eu te amo.
A voz pequena.
Doce.
Pura.
Pierre chorou.
Sem esconder.
— Eu também te amo.
— Muito.
Ela sorriu.
E ficou ali.
Deitada.
Confortável.
Segura.
Alguns segundos se passaram.
Ou minutos.
O tempo... não importava mais.
Então ela levantou a cabeça.
— Papai?
Silêncio.
— Papai?
Nada.
Ela fez uma careta leve.
— Papai...
Mais firme agora.
Sem resposta.
Ela se sentou.
Confusa.
— Papai?
Nada.
Ela levantou.
Pequenos passos.
E então correu.
— Mamãe!
Emma estava na cozinha.
Conversando com Eugène e Claire.
— O papai não quer me responder...
O mundo parou.
Emma congelou.
— O quê?
— Ele não responde...
A xícara caiu da mão dela.
E se quebrou no chão.
Mas ela já estava correndo.
Desesperada.
O coração gritando no peito.
— PIERRE!
Ela chegou ao quintal.
E viu.
Ele.
Imóvel.
Sob o salgueiro.
Ange ao lado.
Confusa.
— Ele não fala comigo...
Emma caiu de joelhos ao lado dele.
— Pierre...
Ela tocou o rosto dele.
Frio.
Silencioso.
Sem respiração.
— Não...
As mãos tremiam.
— NÃO!
Ela o sacudiu.
— PIERRE, ACORDA!
Nada.
O mundo... acabou ali.
Eugène e Claire chegaram logo depois.
Mas já sabiam.
O silêncio dizia tudo.
Emma se deitou sobre ele.
Chorando.
Desesperada.
— Você prometeu...
A voz quebrada.
— Você prometeu...
Mas promessas...
Não seguram a morte.
E, naquele dia...
Sob um salgueiro silencioso...
Pierre Durand partiu.
E levou com ele...
Uma parte do mundo que nunca mais voltaria.

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