53- Célibataire

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Assim que Louise fechou a porta do porão atrás de si, deu de cara com o Padre Carlos.

- Qual o seu problema? Você estava dando em cima do restaurador, sabendo muito bem que ele é comprometido.

- Olha quem fala! Um padre que não quer saber de celibato. Nunca te ensinaram que é falta de educação ouvir conversas atrás da porta? - respondeu a historiadora, seguindo em direção à nave principal.

- E dar em cima de homem comprometido não é falta de educação? - sussurrou o sacerdote.

- Não seria a primeira vez que ela iria levar um belo par de chifres por minha causa. O ex-marido dela era meu amante; na época eu tinha 18 anos. Foi ele quem me deu o apartamento onde moro, era nosso ninho de amor. Mas desde que ele morreu, tenho tido problemas para manter o lugar, os gastos são altos demais. Ele me dava tudo do bom e do melhor, dizia que só estava com ela por causa do dinheiro, que precisava da grana dela para fazer a editora crescer. Naquela época, ele até ia investir em mim como escritora, falava que eu seria um sucesso, que iria vender mais livros do que se vende água num dia de verão. Porém, semanas depois de pegar meus rascunhos, ele morreu de maneira estranha. - contou a morena com pesar, enquanto uma lágrima escorria pelo seu rosto.

- Carlos, você sabe muito bem que não quero nada sério com nenhum pé-rapado, então não fique esperando que um dia eu vá te assumir como namorado ou coisa parecida. Não me leve a mal, você é um ótimo amante e parceiro no crime, mas nada além disso. Agora, Eugène Doc... esse tem nome, fama e dinheiro. Você, por outro lado, só tem uma plantação de eucalipto em Orleans.

Ela limpou a lágrima do rosto, acelerou os passos e deixou o padre para trás, com o som dos seus scarpins ecoando pelo local.

O padre respirou fundo, com os olhos cheios de lágrimas. Foi até o escritório, escreveu uma carta de despedida para o Arcebispo e deixou sua batina dobrada sobre a mesa. Em seguida, saiu da catedral vestindo calça e camisa social preta.

Quando o Arcebispo entrou no escritório meia hora depois, leu o bilhete, respirou fundo e comentou em voz baixa:

- Sempre soube que isso não era para você.

...

Horas depois...

- Como havia dito, preciso que se retire do porão. - falou o Arcebispo, descendo a escada vagarosamente.

- Nossa, como o tempo passa rápido quando a gente está se divertindo. - disse Eugène, dando uma última olhada no peito da gárgula, agora sem o buraco.

- Não querendo me meter no seu serviço, mas passou o dia inteiro aqui para apenas tapar o buraco no peito? - questionou o sacerdote, terminando de descer e ajustando os óculos com o dedo indicador para enxergar melhor.

- Vossa Reverendíssima entende de Bíblia, agora quem entende de restauração sou eu. Eu não tapei o buraco; eu restaurei o peito da escultura. Estou seguindo todos os procedimentos para que ela fique perfeita. Não estou consertando uma parede, não é só misturar cimento, água e brita para tapar uma rachadura - é muito mais complexo do que isso. Se o senhor chegar bem perto, não verá marca nenhuma onde trabalhei. Sem falar no processo de limpeza, que demora muito em uma peça desse tamanho. Mas é claro, se acha que consegue fazer melhor, faça o senhor mesmo. - respondeu o restaurador, enquanto guardava seus materiais nas maletas etiquetadas.

O Arcebispo revirou os olhos, respirou fundo e falou de maneira calma:

- Preciso que saia agora e volte bem cedo amanhã. Não se preocupe, será muito bem pago.

- Ok, já estou de saída. Vou deixar meu material aqui mesmo, acho que a gárgula não vai se importar.

O sacerdote olhava impaciente para a janela, calculando quanto tempo ainda restava antes do anoitecer.

Eugène deu uma última olhada na escultura, sorriu para o Arcebispo e subiu as escadas.

Assim que a porta se fechou, o sacerdote puxou uma cadeira e se sentou, esperando que seu amigo de longa data acordasse.

Dez minutos depois, Pierre franziu o rosto, numa clara expressão de dor.

- Achei que ia chamar um restaurador de verdade. - disse ele, abaixando a asa e tocando-a, sentindo o estrago.

- Acho bom não inventar de voar hoje. Não sabemos ao certo quanto de humano ou quanto de gárgula você é nesse momento; pode rachar ainda mais, e eu não saberia como explicar isso para o Eugène. Falando nisso, você pode me explicar como tudo aconteceu? - perguntou o Arcebispo, curioso.

- Não sei direito, é tudo muito estranho. Ela já estava me esperando, parecia saber exatamente o que fazer para me machucar. A noite estava quente, mas mesmo assim a lareira estava acesa. Ela atirou um atiçador de ferro que bateu bem no meu peito e fez esse furo. - Pierre olhou para o próprio peito e viu que o buraco havia desaparecido. - Esse restaurador é realmente muito bom, não se vê diferença nenhuma.

- Muito bom, mas muito caro. O Vaticano vai perguntar o que você estava fazendo para se machucar desse jeito. É um milagre eles ainda não terem te levado para lá e te trancado em algum cofre, onde nunca mais veria o sol ou a lua. Nunca vi você com uma rachadura dessas. Às vezes aparecia com algumas lascas, mas nunca desse modo. Quem foi que fez isso com você?

- Alis. Alis de Leroy.

- Você matou Alis de Leroy?! - o sacerdote quase gritou.

- Não, eu não matei ninguém. Quer dizer, já matei estupradores, assassinos e ladrões, mas não matei Alis nem ninguém da família dela, mesmo sentindo muita vontade. Ela me culpa pela morte do irmão, quando ele tinha 16 anos, mas juro que não fui eu. Tenho levado a culpa de muita coisa desde que a lenda da gárgula começou: roubo de cavalos, vacas, sequestros, morte de pessoas... Nunca fiz nada disso, muito menos em Nancy.

- Alis sabia exatamente o que estava fazendo. Tenho informações de que alguém da família Leroy esteve no Vaticano há muito tempo atrás, com certeza não foi ela, disseram que era uma senhora bem idosa. Quem quer que tenha ido, voltou com informações que permitiram tudo isso. Tem lendas antigas - não sei se são verdadeiras - que falam sobre o "fogo de carvalho". Dizem que, enquanto uma gárgula estiver em chamas com esse tipo de fogo, ela pode ser destruída.

- Parece que a lenda não é tão lenda assim. Enquanto eu estava pegando fogo, Alis atirou e quebrou a ponta da garra da minha asa. Outro tiro perfurou a asa de lado a lado, fazendo um buraco que logo começou a trincar tudo. Tentei apagar o fogo com a água da fonte, mas estava mais preocupado em salvar o diário. Ela também acertou meu peito com aquele atiçador, que provavelmente estava mergulhado no bendito fogo de carvalho, criando o furo que o restaurador conseguiu fechar de maneira magnífica. Tem alguma outra lenda sobre gárgulas que acha que eu deva conhecer?

- Meu amigo Pierre, durante todos esses anos fiz algumas pesquisas, mas a maioria das histórias eram apenas contos de fada. Porém, li anotações de outros Arcebispos que eram responsáveis por manter sua história em segredo. Algumas falavam sobre balas mergulhadas em água benta. Outra dizia que, se te amarrassem com uma corda feita de fios de batina, você não conseguiria se soltar. E tem uma também que afirma: se colocar um pedaço da madeira da Cruz de Cristo em sua boca, você não acordará nunca mais.

- Ainda bem que essa cruz não existe mais... - disse Pierre, sorrindo. Mas seu sorriso morreu ao ver o amigo desviar o olhar. - O quê? Vai me dizer que o Vaticano guarda um pedaço da Cruz de Cristo?

- Não só o Vaticano. Não sei se é verdade, mas historiadores contam que existe um fragmento aqui mesmo na Catedral de Notre Dame. Alguns dizem que ela foi posta aqui justamente para proteger o templo.

- Não, não me conte onde está! É muito perigoso para mim. Se qualquer pessoa souber disso, e se eu souber, tenho certeza que não haverá nada que me impeça de destruí-la. Então, por favor, não me fale onde fica. Trocando de assunto... Emma tem perguntado por mim?

- Pelo que ouvi das estudantes de restauração, a escritora está na Espanha divulgando um livro que vai virar filme. Meu amigo Pierre, peço-lhe que não interfira na vida dessa jovem. Como pode ver, ela está muito bem sem você.

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora