O telefone tocou no meio da tarde.
O som cortou o silêncio do apartamento como uma lâmina fina.
Charlotte franziu levemente a testa, desviando o olhar das anotações espalhadas sobre a mesa. Pierre estava próximo à janela, observando a cidade com aquele ar distante que ela já aprendera a reconhecer.
— Você vai atender? — ele perguntou, sem se virar.
Charlotte assentiu, mesmo sabendo que ele não estava olhando.
— Alô?
Do outro lado, houve uma breve pausa.
E então, uma voz grave.
Controlada.
Carregada de autoridade.
— Estou falando com Charlotte Müller Leroy?
Ela se ajeitou na cadeira.
— Sim... quem fala?
— Aqui é o arcebispo da Catedral de Notre-Dame.
O coração dela falhou por um instante.
Pierre se virou imediatamente.
Como se tivesse sentido.
— Eu... — Charlotte hesitou — em que posso ajudar?
A voz continuou, firme.
— Precisamos conversar sobre Pierre Durand.
O nome ecoou no ambiente.
Pesado.
Inevitável.
Charlotte olhou para Pierre.
Ele já estava completamente atento agora.
— Sobre o quê exatamente? — ela perguntou, tentando manter a calma.
Outra breve pausa.
— Amanhã. Pela manhã.
— Onde?
— Em um local reservado.
A resposta veio sem detalhes.
Como se o lugar não fosse o mais importante.
— O senhor não pode simplesmente—
— Não é um pedido, senhorita Charlotte.
A interrupção foi educada.
Mas definitiva.
— Algumas pessoas do Vaticano estão em Paris.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Mais frio.
Mais perigoso.
— E desejam... verificar pessoalmente a condição do senhor Pierre Durand.
Charlotte sentiu o estômago revirar.
— Verificar?
— Se ele realmente se tornou humano.
A frase caiu como uma sentença.
Pierre deu um passo mais perto.
Os olhos fixos nela.
— Isso é necessário? — Charlotte insistiu.
— Extremamente.
A voz não deixou espaço para dúvidas.
— Casos como esse... não podem ser ignorados.
Charlotte fechou os olhos por um segundo.
Pensando.
Calculando.
Protegendo.
— E se nós recusarmos?
A resposta veio imediata.
— Não aconselho.
Um silêncio.
Pesado.
Cheio de implicações não ditas.
— Amanhã, às dez horas — continuou o arcebispo. — Enviarei o endereço por mensagem.
Charlotte respirou fundo.
— Estaremos lá.
— Ótimo.
A ligação foi encerrada.
Sem despedidas.
Sem formalidades.
Apenas... decisão.
Charlotte abaixou lentamente o telefone.
O silêncio no apartamento parecia mais denso agora.
Pierre foi até ela.
— O que foi?
Ela ergueu o olhar.
Ainda processando.
— O arcebispo de Notre-Dame.
Pierre ficou imóvel.
— Ele disse que... pessoas do Vaticano estão em Paris.
Uma pausa.
— Está tudo bem? — Charlotte perguntou, em voz baixa, aproximando-se.
Pierre forçou um sorriso.
— Nunca estive em um lugar onde me olhassem tanto... sem me ver de verdade.
Ela apertou sua mão.
— Hoje... eles vão ver.
Um homem de terno escuro aproximou-se. Sua postura era rígida, quase militar, mas seus olhos carregavam algo mais - uma vigilância silenciosa, treinada.
— Senhor Durand. Senhora Müller Leroy. Por favor, me acompanhem.
Sem esperar resposta, ele virou-se e começou a caminhar pelos corredores internos do palácio.
O som dos passos ecoava no mármore polido. As paredes altas, adornadas com molduras douradas e pinturas antigas, pareciam observar cada movimento, como testemunhas mudas de séculos de decisões, conspirações... e julgamentos.
Charlotte sentiu um arrepio.
Aquilo não era apenas um encontro.
Era um julgamento.
Foram conduzidos até uma sala ampla, mas curiosamente austera. Diferente da grandiosidade do restante do palácio, aquele espaço parecia ter sido escolhido justamente pela ausência de excessos.
Uma mesa longa ocupava o centro.
E, do outro lado dela, estavam três homens.
Vestes vermelhas.
Olhares firmes.
Presenças esmagadoras.
Cardeais.
Homens que não apenas representavam fé - mas autoridade. Julgamento. E, acima de tudo... decisão.
O homem ao centro, mais velho, ergueu os olhos lentamente quando Pierre e Charlotte entraram.
— Senhor Pierre Durand.
A voz dele era calma. Controlada. Mas havia algo ali - algo que não aceitava respostas vagas.
— Sente-se.
Pierre puxou a cadeira, sentindo novamente a dor latejar no ombro ao se mover. Charlotte sentou-se ao seu lado, mantendo a postura ereta, embora suas mãos estivessem frias.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Calculado.
Então, o cardeal à direita abriu um pequeno dossiê.
— Vamos ser diretos.
Ele ergueu os olhos.
— O senhor afirma que não é mais uma entidade mágica.
Pierre sustentou o olhar.
— Eu não afirmo. Eu... vivo isso.
Um leve estreitar de olhos.
— Veremos.
O cardeal central inclinou-se ligeiramente para frente.
— Queremos entender o momento exato da transição.
Uma pausa.
— Quando o senhor deixou de ser... o que era?
Pierre respirou fundo.
Por um instante, sua mente voltou àquela noite.
Fogo.
Caos.
Dor.
— No dia do incêndio — disse, por fim. — Foi naquele dia.
O cardeal à esquerda fez uma anotação.
— Data.
Pierre franziu levemente o cenho.
— Eu... não sei o dia exato.
— Mas sabe o momento — insistiu o cardeal central.
Pierre assentiu lentamente.
— Sim.
Silêncio.
— Descreva.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Gárgula ( +18)
Fantasia* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ... Eu já falei que o livro tem muito sexo? É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
