83- Ecos de pedra e Carne

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O lugar não tinha janelas.
A única luz vinha de velas altas, dispostas em candelabros antigos que pareciam mais ter sido herdados do que comprados. A chama tremulava lentamente, projetando sombras alongadas nas paredes de pedra escura.
O ar era pesado.
Cheirava a cera derretida, poeira antiga... e algo mais.
Algo que lembrava ferro.
No centro do cômodo, uma mesa longa de madeira maciça estava coberta por livros abertos, anotações espalhadas e páginas amareladas que pareciam prestes a se desfazer ao menor toque.
Símbolos.
Desenhos.
Línguas mortas.
E, entre tudo isso, um silêncio denso - quebrado apenas pelo som de passos impacientes.
Alis caminhava de um lado ao outro.
Os saltos ecoavam no chão de pedra, secos, ritmados, carregados de irritação contida.
Ela parou abruptamente.
Virando-se.
Os olhos frios pousaram sobre o homem à sua frente.
- Já passaram meses... - disse, a voz baixa, mas carregada de veneno. - Meses desde que Pierre Duran foi atingido pelas balas... e ele ainda está vivo.
O homem não a encarou de imediato.
Estava inclinado sobre a mesa, analisando um dos livros.
Com calma demais.
- Eu paguei milhões de euros... - ela continuou, dando um passo à frente - para que você conseguisse algo na biblioteca do Vaticano que matasse essa... abominação.
O silêncio que se seguiu não foi de medo.
Foi de cálculo.
Ele finalmente ergueu o olhar.
Sereno.
- Calma, senhora Alis.
A forma como ele falou não era submissa.
Era... controlada.
- Mesmo que as balas tenham sido retiradas, elas não saíram completamente.
Ele pegou uma pequena pinça metálica sobre a mesa, girando-a entre os dedos como se ilustrasse o próprio raciocínio.
- Fragmentos de madeira permanecem.
Fez uma pausa.
- Quase imperceptíveis.
Alis cruzou os braços.
Impaciente.
- E?
- E esses fragmentos... - ele continuou - não são comuns.
Se aproximou um pouco mais da luz.
Os olhos agora atentos, quase fascinados pela própria explicação.
- Eles continuam ali... criando desordem. Interferindo.
- Isso não está matando ele rápido o suficiente.
- Não precisa.
A resposta veio simples.
Direta.
Ele apoiou as mãos sobre a mesa.
- Mesmo que não houvesse fragmentos... a magia aplicada na munição já cumpriu o que precisava.
Alis estreitou os olhos.
- Explique.
Ele inclinou levemente a cabeça.
- O que foi feito não foi apenas para ferir.
Os dedos dele tocaram uma página aberta, onde símbolos antigos pareciam desenhar um padrão incompreensível.
- Foi para... desfazer.
O silêncio caiu novamente.
- Os mais de quinhentos anos dele... - continuou - não desapareceram.
Ele ergueu o olhar.
- Eles estão voltando.
Alis permaneceu imóvel.
- Talvez não esteja visível na superfície... - ele disse, com calma - mas o corpo dele está sendo cobrado.
Cada palavra parecia cair no ambiente como uma sentença.
- Para continuar existindo... ele precisaria de uma energia que já não possui.
Uma pausa.
Breve.
Precisa.
- A morte dele... é inevitável.
O som dos passos voltou.
Mas dessa vez mais lento.
Mais controlado.
Alis se aproximou da mesa.
Os dedos tocaram levemente uma das páginas... mas não por interesse.
Era inquietação.
- Eu não tenho tanto tempo de vida.
A frase saiu diferente.
Menos fria.
Mais... urgente.
- Eu quero ver a morte de Pierre Duran.
Ela ergueu o olhar.
E, pela primeira vez, havia algo ali além de controle.
Obsessão.
- Eu não posso morrer... sem antes ver a morte dele.
O homem a observou por alguns segundos.
Sem julgamento.
Sem emoção aparente.
- Então... - disse, por fim - aproveite o processo.
Ela não respondeu.
Mas o silêncio que ficou...
Era de alguém que não aceitava esperar.
O contraste era quase cruel.
Porque, a quilômetros dali, a luz era suave.
E o mundo... parecia quase normal.
O apartamento de Charlotte estava silencioso naquela manhã.
O cheiro de café recém-passado preenchia o ambiente, misturado ao aroma leve de pão quente.
Pierre estava sentado à mesa.
Postura relaxada.
Quase.
Havia pequenos sinais.
Sempre havia.
Mas, à primeira vista, ele parecia... bem.
Charlotte colocou a xícara diante dele.
- Aqui.
Ele assentiu, com um leve sorriso.
- Obrigado.
A televisão ligada quebrava o silêncio com o tom animado de um programa matinal.
- E para quem é fã de livros...
A voz da apresentadora era clara, envolvente.
Charlotte se sentou, pegando sua própria xícara.
- Hoje, às três horas da tarde, acontecerá uma tarde de autógrafos com a polêmica escritora Louise Martin, na livraria Lumière des Pages...
Charlotte soltou um pequeno suspiro pelo nariz.
- Para comemorar a pré-venda de seu novo livro: O Último Voo da Serpente de Fogo.
Pierre lançou um olhar breve para a televisão.
Depois para Charlotte.
- Para quem não lembra - continuou a apresentadora - essa é a autora que acusou Charlotte Muller de plágio, e depois recebeu todos os direitos como coautora do best-seller Crônicas de Machado e Espada.
Charlotte tomou um gole do café.
Calma.
- Essa aí... - murmurou - acabou arrumando um jeito de se dar bem.
Pierre observava.
Silencioso.
- Eu espero que tudo corra bem pra ela... - Charlotte continuou, dando de ombros. - Eu não plagiei a ideia de Crônicas de Machado e Espada. Foi a Karen que me passou o conceito... eu só desenvolvi.
Ela apoiou a xícara na mesa.
- Minha consciência tá tranquila.
Um pequeno silêncio.
- No final das contas... - ela completou - espero que ela ganhe muito dinheiro com esse livro... e me deixe em paz.
Pierre esboçou um sorriso leve.
- Justo.
A televisão continuou.
- Agora vamos até a frente da Catedral de Notre-Dame com o repórter Girard Blanc...
A imagem mudou.
A catedral ainda marcada pelas obras de restauração.
Andaimes.
Movimento.
- Bom dia, Marie - dizia o repórter. - Estou aqui em frente à catedral, que segue em restauração após o incêndio... e com um mistério que intriga moradores e turistas...
Charlotte olhou para a tela.
Sem perceber, seus dedos apertaram levemente a xícara.
- Onde foi parar a famosa gárgula Pierre Duran?
Pierre ficou imóvel.
Apenas por um segundo.
Mas Charlotte percebeu.
- Muitos acreditam que a estátua foi roubada durante o incêndio, mas autoridades afirmam que isso seria impossível...
Charlotte esticou a mão.
E desligou a televisão.
O silêncio voltou.
Denso.
Diferente.
Ela ficou alguns segundos olhando para a tela apagada.
Pensativa.
Pierre quebrou o silêncio.
- Sabe... ontem eu tive um sonho.
Charlotte ergueu os olhos lentamente.
- Eu ainda acho estranho - ele continuou, com um leve sorriso melancólico - porque passei séculos sem sonhar.
O olhar dele se perdeu por um instante.
- Eu sonhei que estava voando sobre Paris... sobre a Catedral de Notre-Dame... sobre o Sena...
A voz dele suavizou ainda mais.
- Era... maravilhoso.
Charlotte não disse nada.
Apenas o observava.
- Acho que, de tudo que vivi enquanto era gárgula... essa era a única parte boa.
Um pequeno silêncio.
- Poder voar.
O ar entre eles ficou mais leve.
- Você sente saudade? - Charlotte perguntou, com cuidado.
Pierre demorou a responder.
- Só dessa parte... - disse, por fim. - Só de voar.
Ele desviou o olhar.
- Mais nada.
A expressão dele mudou.
- Aquilo me tirou muita coisa que eu podia ter vivido.
Charlotte sentiu o coração apertar.
- Um dia desses eu fiquei pensando... eu não vi meu filho crescer.
A voz falhou quase imperceptivelmente.
- Meu filho foi criado por um estranho... um psicopata.
O silêncio se tornou mais pesado.
- Minha família não me reconhece...
Ele respirou fundo.
- Alis... Jean... minha própria descendência...
Um sorriso triste tocou seus lábios.
- Eles têm raiva de mim.
Charlotte apertou levemente os dedos ao redor da xícara.
Mas não disse nada.
- Sabe... - ele murmurou - eu queria ter tido uma família.
A frase ficou no ar.
Simples.
Mas carregada de tudo o que ele perdeu.
Charlotte o olhou com ternura.
- Ainda está em tempo.
A voz dela era suave.
Mas havia certeza nela.
Ela sorriu.
Um sorriso pequeno.
Verdadeiro.
Enquanto seus olhos encontravam os dele.
E, por um instante, Pierre pareceu esquecer tudo.
Tudo que havia sido.
Tudo que havia perdido.
Tudo que ainda o ameaçava.
Porque naquele momento...
Só existia ela.
E os olhos dele - que um dia foram dourados, intensos como pedra viva - agora eram azuis.
Humanos.
Vulneráveis.
E cheios de algo que ele nunca teve permissão de sentir completamente.
Pierre sorriu de volta.
Um sorriso leve.
Quase tímido.
- Sabe... eu estou bem melhor.
Ele apoiou as mãos na mesa, levantando-se devagar.
- Tirando a tosse... e essa dor no ombro.
Charlotte acompanhou o movimento dele com o olhar.
Atenta.
Mas ele apenas estendeu a mão.
Para ela.
Um gesto simples.
Mas carregado de intenção.
Ela hesitou apenas um segundo.
Antes de aceitar.
Os dedos dela tocaram os dele.
E algo silencioso passou entre os dois.
Pierre entrelaçou suas mãos.
E, com suavidade, a puxou.
Não com urgência.
Mas com decisão.
Eles caminharam pelo apartamento em silêncio.
O som dos passos era leve.
Quase inexistente.
Como se o mundo estivesse respeitando aquele momento.
Quando chegaram ao quarto, Pierre parou.
Virou-se para ela.
Os dois ficaram frente a frente.
Muito próximos agora.
O ar parecia mais quente.
Mais denso.
Charlotte sentiu o coração acelerar.
Mas não de medo.
Nunca de medo.
Pierre ergueu a mão lentamente.
Tocou o rosto dela com cuidado.
Como se ainda estivesse aprendendo o quanto podia sentir.
O quanto podia tocar.
O polegar deslizou suavemente pela pele dela.
E ele sorriu.
- Você é real... - murmurou, quase para si mesmo.
Charlotte fechou os olhos por um instante.
Inclinando o rosto contra a mão dele.
- E você também - ela respondeu, em um sussurro.
Quando abriu os olhos, ele estava mais perto.
Muito mais perto.
O primeiro beijo não foi apressado.
Nem desesperado.
Foi... descoberto.
Como se cada segundo fosse importante demais para ser perdido.
Os lábios se tocaram com hesitação.
Com cuidado.
Mas rapidamente se aprofundaram.
Não pela pressa.
Mas pela necessidade.
Pierre a puxou suavemente para mais perto.
As mãos dele, ainda cautelosas, encontraram a cintura dela.
Como se ele estivesse memorizando cada detalhe.
Cada sensação.
Charlotte passou os braços ao redor dele.
Sentindo.
Sentindo de verdade.
O calor.
O coração batendo.
A vida ali.
Quando o beijo se intensificou, havia mais do que desejo.
Havia tempo perdido.
Havia ausência.
Havia tudo aquilo que nunca puderam viver.
Eles se afastaram por um segundo.
Apenas para se olharem.
Respirações entrelaçadas.
Olhares carregados de significado.
- Tem certeza? - Pierre perguntou, a voz baixa, quase rouca.
Charlotte sorriu.
Um sorriso que não deixava dúvidas.
- Eu esperei muito por você.
A resposta foi tudo que ele precisava.
Ele a beijou novamente.
Dessa vez com mais profundidade.
Mais entrega.
As mãos dele deslizaram pelas costas dela, enquanto Charlotte o puxava para mais perto, eliminando qualquer espaço entre eles.
O mundo lá fora deixou de existir.
Não havia passado.
Não havia futuro.
Apenas aquele instante.
Apenas eles.
Pierre a guiou até a cama com suavidade.
Sem pressa.
Como se aquele momento fosse algo sagrado.
E talvez fosse.
Eles riram baixo em meio aos beijos.
Pequenos momentos de leveza quebrando a intensidade.
Como duas pessoas que, apesar de tudo, ainda estavam aprendendo a ser... felizes.
Os toques eram cuidadosos.
Descobertos.
Como se cada gesto fosse uma nova linguagem sendo aprendida.
Pierre parecia absorver cada detalhe.
Cada reação.
Cada suspiro.
Como se quisesse guardar aquilo dentro de si.
Para sempre.
Charlotte passou a mão pelo rosto dele.
Observando.
Memorizando.
- Você está aqui... - ela sussurrou.
- Estou - ele respondeu, encostando a testa na dela.
E havia algo na forma como ele disse aquilo...
Que soava como uma promessa.
Mesmo que o mundo dissesse o contrário.
O tempo desacelerou.
Se tornou quase inexistente.
Os movimentos, os toques, os olhares...
Tudo era carregado de significado.
Não era apenas desejo.
Era reencontro.
Era pertencimento.
Era amor crescendo no espaço onde antes só havia ausência.
Quando finalmente se entregaram por completo, não houve pressa.
Não houve urgência bruta.
Houve cuidado.
Houve conexão.
Houve algo que ia muito além do físico.
E, naquele momento...
Pierre não era uma gárgula.
Não era um ser de séculos.
Não era alguém marcado pelo passado.
Ele era apenas um homem.
Amando.
E sendo amado.
Depois...
O silêncio voltou.
Mas dessa vez, diferente.
Suave.
Acolhedor.
Charlotte estava deitada ao lado dele.
A cabeça apoiada em seu peito.
Ouvindo o coração dele bater.
Algo tão simples.
Mas tão precioso.
Pierre passava os dedos lentamente pelos cabelos dela.
Pensativo.
Calmo.
- Eu nunca tive isso... - ele disse, quase em um sussurro.
Charlotte ergueu levemente o rosto.
- Agora tem.
Ele olhou para ela.
E, pela primeira vez...
Sem peso.
Sem dor.
Sem passado o esmagando.
Ele acreditou.
Inclinou-se e beijou a testa dela.
- Obrigado.
Charlotte sorriu.
Fechando os olhos.
Se aconchegando mais perto.
Lá fora, o mundo continuava.
Com seus mistérios.
Seus perigos.
Seus finais inevitáveis.
Mas ali...
Naquele quarto...
Naquele instante...
Eles tinham criado algo que nem o tempo...
Nem a morte...
Poderiam apagar.

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