48 Crônicas de Machado e Espada

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Os dias estavam passando rapidamente. Eu já havia entregue todo o contrato ao meu advogado, que não encontrou nenhuma cláusula que pudesse me prejudicar, então decidi aceitar e assinar. Porém, a empresa queria transformar tudo aquilo em um grande evento. Tive que viajar para a Espanha, onde iria assinar os papéis, participar de entrevistas e comparecer a algumas festas para ajudar a promover o projeto.

Como Jean não poderia me acompanhar, acabei levando Karen, minha editora, amiga e que acabava fazendo também o papel de empresária, já que eu não tinha uma oficialmente.

Saí de casa por volta das oito horas da manhã, depois de tomar o café da manhã que meu marido havia preparado. Não consegui comer muito, pois estava ansiosa e com o estômago revirado por causa da viagem; não sou muito fã de aviões.

Fui de táxi até o aeroporto de Orly, onde encontrei Karen. Fizemos o check-in e tomamos pelo menos três cafés cada uma, esperando impacientes que abrissem a sala de embarque. Lá dentro, Karen fez várias publicações para as redes sociais e me obrigou a fazer o mesmo.

Quando chegamos ao hotel, fomos para o quarto que eu havia trocado: ao invés de um de casal, pedi um com duas camas de solteiro. Enquanto eu resolvi dormir até a hora do almoço para descansar, Karen foi até a piscina. Mais tarde, almoçamos no próprio restaurante do hotel, pois eu precisava estar tranquila para o evento de assinatura e as entrevistas que aconteceriam na tarde do dia seguinte. Depois, voltei para o quarto e tentei escrever algo, caso precisasse fazer um discurso.

— Karen, acho que nada do que eu faça será suficiente para agradecer você pela ideia principal de Crônicas de Machado e Espada. O príncipe se apaixonar por uma guerreira realmente foi uma ideia brilhante. Não sei por que não aceitou quando sugeri colocar seu nome como coautora.

— Imagina! Eu só dei a ideia, foi você quem desenvolveu todo o resto. O mérito é todo seu, e não se atreva a me mencionar no seu discurso. Você já era conhecida quando escreveu esse livro.

— Sim, mas Crônicas de Machado e Espada foi o verdadeiro boom na minha carreira. Nossa, eu lembro quando Sebastian, o pai de Esteban — seu esposo na época, que Deus o tenha — morreu. Eu fiquei muito preocupada com o meu futuro na editora. Fiquei imensamente feliz quando Esteban escolheu você para ser a minha editora; fiquei até mais feliz do que se ele próprio continuasse no cargo. — Falei, sorrindo para ela.

— Coitada de mim, tão inocente... Casei com Esteban com apenas dezoito anos, sem nada na cabeça, mas com os bolsos cheios de dinheiro. Ele queria reformar totalmente a editora e transformá-la em algo icônico, onde os melhores escritores estariam. Eu coloquei boa parte do dinheiro que herdei da minha avó lá, mesmo meus advogados sendo contra a ideia. Meus pais, quando vivos, não gostavam nem um pouco do Esteban... Que Deus o tenha em um lugar não tão bom assim. — Karen falou, olhando da janela para a piscina do hotel.

— Achei meio estranha a morte do Esteban... — Comentei, olhando para a tela do computador.

— Eu também. Mas ele tinha muitas amantes, qualquer uma poderia ter feito algo. Teremos uma semana inteira aqui na Espanha e não quero ficar falando de coisas ruins. — Ela disse, me olhando com um sorriso no rosto.

— E... Sobre ficar todo esse tempo aqui, temos mesmo que cumprir toda essa agenda? — Perguntei, num tom suplicante, pois a lua cheia estava se aproximando e eu queria voltar logo.

— Meu amor, não fui eu que montei essa programação, foi tudo organizado pela empresa de streaming. Você está em alta e eles querem aproveitar ao máximo para impulsionar o filme. Aproveite! — Karen falou, vindo se sentar ao meu lado na cama.

No dia seguinte, participei do evento oficial onde assinei o contrato para transformar meu livro em uma série, com uma grande empresa de streaming. No mesmo dia, tive que estar presente em uma coletiva de imprensa. No dia seguinte, fui a uma festa organizada por um dos donos da Roble, a maior empresa do ramo atualmente, que iria transformar meu sonho em realidade. No dia seguinte, houve uma reunião com o diretor, onde precisei descrever exatamente o que eu não queria que mudassem na história, pontos esses que estavam assegurados em contrato. Naquela noite, ainda teve outra festa organizada por pessoas que eu nem conhecia, e justamente aquela seria a primeira noite de lua cheia.

Eu estava terminando de me arrumar para a festa quando meu celular tocou. Estranhei ao ver que era o número do Arcebispo. Aproveitei que Karen estava no banho e fui atender na varanda.

— Vossa Reverendíssima, que surpresa!

— Senhora Emma de Leroy, colocarei o telefone no viva-voz, pois Pierre Durand quer falar com você.

Respirei fundo, pois não esperava por aquilo.

— Emma, você por acaso pegou o diário de Maya que estava escondido no porão?

Um arrepio percorreu todo o meu corpo, não sabia dizer se era pela voz dele ou pela notícia de que o diário havia sumido.

— Pierre, eu não peguei o diário. E se tivesse pegado, com certeza iria te avisar. Pierre, quando eu comecei a desconfiar sobre a verdade, notei que a Louise, a guia que trabalha lá, também andava procurando algo no porão. Ela parecia saber muita coisa sobre mim e sobre os Leroy. Aposto que foi ela. — Falei, nervosa, pois o livro estava sob minha responsabilidade. — Seja lá o que for fazer, tome muito cuidado.

Aquela noite, fui para a festa preocupada, pois sabia que Pierre faria de tudo para recuperar aquele diário.

...

Pierre...

— Sei que existe um registro com os nomes e endereços de todos que trabalham aqui. Preciso do endereço da Louise, Nicolas, meu amigo. — Disse ele ao Arcebispo, tentando obter a informação sem ter que vasculhar sozinho, já que suas mãos grandes e rudes não eram muito hábeis para lidar com as tecnologias modernas.

— Durand, você não tem nenhuma prova de que foi ela quem pegou o diário. Pelo amor de Deus, esse diário nem deveria estar aqui dentro!

— Amigo, eu só queria saber a verdade. Por isso estava lendo ele... Até onde li, descobri que Maya realmente parecia gostar de mim. Mas ela nunca deixaria o Duque para ficar comigo. E eu ficava ali, pensando em coisas impossíveis: como seria fugir com ela, termos um lugar nosso, filhos e uma vida tranquila.

— Não se iluda, Durand. Ou se tem tranquilidade, ou se tem filhos; as duas coisas são difíceis de conciliar. E você está correndo um perigo enorme indo atrás disso na casa da senhorita Louise.

— Amigo sacerdote, ela nem vai perceber que eu entrei. Eu prometo.

 Eu prometo

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