Parte 12

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Voltamos para a casa e tentei memorizar o caminho pelos corredores da mansão, para o caso de precisar da casinha com certa urgência. A casa era bonita, antiga e imponente. De fora, ocupava todo o campo de visão.
Do lado de dentro, cada parede com um quadro ou cada móvel tão bem trabalhado prendia minha atenção.
Ruggero foi se limpar para o jantar e imaginei que isso significasse tomar banho.
Então, não fui com ele. Fiquei na sala, observando sua rica decoração estilo
vitoriano, quem imaginava que eu fosse conhecê-la em seus primórdios? tentando memorizar cada padrão da madeira escura da mesa no canto da
sala, cada linha do tecido estampado e grosso do sofá com braços de madeira, cada detalhe das cortinas pesadas e encorpadas das janelas.
Queria me lembrar de tudo quando eu voltasse pra casa. O que aconteceria em
breve eu esperava.
Eu queria tomar um banho também e me livrar daquele vestido quente que começava a pinicar minha pele.
O problema é que eu não queria meter Ruggero em confusão e eu só tinha uma saia curta e uma regata para vestir. Talvez, depois do jantar, eu pudesse me trancar no quarto e, finalmente, meditar
sobre aquele dia confuso.
Foi nesse momento que Ana entrou na sala, usando um vestido verde claro, justo no tronco e bufante na saia. Eu tive certeza que ela usava todas aquelas coisas quê a governanta me mandou vestir quando me entregou as roupas.
E, pelo espaço que sua saia ocupava, ela vestia a gaiola maluca.
- Senhorita Karol. Disse ela, com muito entusiasmo, um pouco exagerado até.
- Como está se sentindo esta noite?
Eu tinha falado com a garota há apenas uma hora atrás, por que ela agia como se não me visse há uma semana?
- Eu tô legal. E você, como vai? Também entrei na brincadeira.
- Muito feliz em revê-la. Ela sorriu afetada.
Oh-oh!
Sabe quando você está na cadeira do dentista com a boca toda inchada e não aguenta mais de dor por culpa de um dente inflamado e, depois de examinar, seu dentista diz com uma careta:
“É canal. Mas não se preocupe.
Não vai doer nadinha!” e você instantaneamente sabe que o nadinha vai ser terrível, cruel e insuportavelmente doloroso?
Foi exatamente assim que me senti quando Ana sorriu pra mim.
- Você parece estar bem melhor, creio que o passeio pela casa na companhia do Senhor Pasquarelli lhe fez muito bem.
Oh! Então era sobre o Senhor Pasquarelli!
- Ele mostrou toda a propriedade? Ela continuou. - Deve tê-la impressionado, é uma das mais belas da vizinhança.
A família Pasquarelli tem muito prestigio senhorita Karol. Até o duque de Bragança os visita com frequência.
Tentei responder a ela que sim, eu tinha gostado da casa. E duque de que?
Mas ela não me deu chance. Apenas continuou com seu monólogo.
- Apesar de não ter título de nobreza, o Senhor Pasquarelli é um dos homens mais respeitados de nossa sociedade. Quando seu falecido pai os deixou, há
três invernos, o Senhor Ruggero Pasquarelli assumiu todos os deveres que lhe foram deixados. Inclusive como tutor de Malena, que ainda era muito jovem. Ah! Minha querida Malena! Ela é mesmo uma jovem encantadora, não acha senhorita Karol?
- Eu...
- E ela tem tantos admiradores, mas o Senhor Pasquarelli os mantém à distância. Quer esperar até que ela atinja a maioridade para poder receber seus pretendentes. Ele é um irmão muito cuidadoso! Existem muitos espertalhões farristas que pretendem fazer fortuna através de bons casamentos.
Uma de suas sobrancelhas arqueo sugestivamente.
Eu entendi mal ou ela sugeriu que eu estava atrás de um marido rico?
E que esse marido seria Ruggero?
-  Mas o Senhor Pasquarelli é muito prudente. Claro que é capaz de notar as
más intenções em pessoas de má índole. Continuou. A garota estava começando a me dar nos nervos!
- Sabia que ele está procurando uma esposa? Oh! Sim, ele deve se casar muito em breve. É bom para um rapaz como ele, que tem uma irmã caçula e solteira sob sua responsabilidade, ter uma esposa. Há muitas jovens que têm esperanças de terem a honra de se tornarem a nova Senhora Pasquarelli.
Mas me parece que ele não demonstra ter o mesmo cuidado para consigo  mesmo que têm para com a irmã.
Agora já deu!
- Escuta aqui, ô coisinha...
- Senhorita Karol, estava à sua procura. Malena entrou na sala, me impedindo de dizer uma ou duas coisas para aquela garota venenosa.
- Como está se sentindo?
Bem as pessoas do século dezenove só sabiam perguntar isso?
Respirei fundo para me acalmar, aquela ruiva sardenta e sem graça realmente me tirou do sério. E eu já estava no limite!
- Espero que esteja com fome, o jantar já será servido. Vamos apenas esperar por
Ruggero.
- Claro. Respondi.
Então ela podia chamá-lo pelo primeiro nome.
Claro, estúpida, eles são irmãos!
- Gostaria de tomar um licor de ameixa, senhorita Karol? Perguntou a menina de uns quinze ou dezesseis anos de cabelos negros, assim como os de seu irmão, os olhos, porém, eram de um tom intenso. Eram lindos! Não sem graça como os meus olhos verde cor de capim, se a Nina me escuta.
- Não, obrigada, Malena. Notei com certo espanto que ainda não havia comido nada desde que acordara.
Tudo que ingeri foi o vinho que Ruggero me serviu, percebi que estava faminta. -Talvez depois do jantar. Apesar dos cabelos negros, havia algo de angelical no rosto de Malena.
Talvez porque ainda fosse tão menina, mas dela eu gostei. Assim como seu
irmão, Malena parecia sorrir sempre. Exatamente como fazia agora.
- Depois, então.
- Boa noite, senhoritas. Saudou Ruggero ao entrar na sala, vestido com um casaco preto e calças cinza, camisa, colete, gravata, as mesmas botas que usou durante o dia e os cabelos negros ainda úmidos, ele parecia um daqueles príncipes de contos de fadas, seria muito fácil para ele arrumar uma esposa, pensei. Lindo, bem humorado, atencioso, gentil, um sorriso detirar o fôlego... Que garota não se interessaria? Quer dizer, que garota daquele século não se interessaria? Ele não fazia meu tipo.
- Boa noite. Disseram juntas Malena e Ana, ao mesmo tempo em que eu disse:
- Oi!
Malena e Ruggero sorriram Ana não. Mas que cabrinha intragável! Falava pelos cotovelos, tirava conclusões precipitadas, fazia fofoca da vida dos amigos, apesar de, aparentemente, ter a intenção de ser mais que isso, e ainda ficava de cara amarrada. Definitivamente, meu santo não deu com o dela!
- Vamos jantar? Estou faminto, o dia de hoje foi um pouco longo. Disse Ruggero, apressadamente.
Fiquei incomodada por ele ter dito aquilo, não que eu quisesse que minha
presença o deixasse saltitante,  eu não queria! mas também não queria causar transtornos. Causar mais transtornos.
- Ele acabou de chegar de viagem, senhorita Karol. Me explicou Malena.
Talvez tenha notado meu desconforto. -Uma viagem de muitos quilômetros. Você saiu da fazenda Esperança ontem à noite, Ruggero? Ela perguntou ao irmão.
- Durante a madrugada, cavalguei sem parar até chegar aqui. Ruggero me
encarou.
- Sem contar, é claro, o resgate da senhorita Karol, foi a única vez que desci do cavalo. Estou muito cansado. Um sorriso torto surgiu em seu rosto.
Eu desviei os olhos, envergonhada. Quando Ruggero me encontrou naquela
manhã, eu estava bastante incoerente.
E pensei que talvez ainda pudesse estar, pra dizer a verdade.
- Então, vamos, o cheiro que vem da cozinha está me deixando louco! Ele disse, esticando o braço para que fossemos na frente.
Gostei da sua última sentença, desde que cheguei ali, foi a primeira que ouvi que facilmente poderia ser ouvida em meu mundo.
- Vamos. Concordei e segui as garotas com Ruggero na minha cola.

Ao chegarmos à sala de jantar, dei de cara com uma mesa gigante, contei
doze cadeiras, eles deviam receber muitos convidados.
Sentei-me na cadeira ao lado de Malena, Ruggero na ponta e Ana, claro, do outro lado. Fiquei surpresa ao ver que os pratos eram mesmo pratos de porcelana. Não sei bem o que esperava, eu não tinha ideia do que já havia sido inventado em 1830. De repente, os pratos poderiam ser feitos de pedra e os copos de osso... Mas, aparentemente, o aparelho de jantar e os talheres já faziam parte da civilização naquele ano. Um grande castiçal sobre amesa iluminava o ambiente com a ajuda de mais dois menores sobre o
aparador.

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