Parte 31

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Andei pensando muito no que estava acontecendo.
E cheguei à brilhante conclusão de que a coisa não estava na vila.
Ela disse que me guiaria, então imaginei que as mensagens tivessem esse propósito.
Recebi uma quando voltei da vila e uma na noite anterior, depois do jantar. Ficaria atenta quando recebesse a próxima, descobriria o que elas teriam em comum para finalmente identificar meu Santo Graal.
- Então, parece que teremos mais alguns dias. Seu braço se estreitou em minha cintura. Eu estremeci com o calor que emanava dele.
- Ainda posso quebrar seu nariz em dois tempos, lembra? Ameacei fraquinho, mas a ameaça quase se tornou um apelo.
Ele riu.
- Posso apostar que pode! Acelerou o cavalo. Fui obrigada a deixar que seu corpo colasse ao meu ainda mais, enquanto cavalgávamos de volta pra
casa.
Malena e Ana ainda não havia retornado. E, depois do almoço, imaginei que ainda demorariam bastante, pois Madalena me contou que sempre Malena ia até a casa da amiga, não voltava antes do anoitecer. Então, percebi que eu e Ruggero ficaríamos sozinhos o resto do dia naquela casa.
- Será que estaria disposta a caminhar um pouco, senhorita Karol? Perguntou.
- Para onde vamos?
- Na verdade, a lugar algum, quero que conheça minha propriedade.
Não se assuste, não é tão grande assim, não vai se cansar, e estou certo de que
gostara do passeio.
- Tudo bem. Eu já estou de tênis mesmo, ri. Ruggero riu, mas tive a impressão que não foi da minha piada horrível.
A propriedade como ele chama, pra mim, parecia uma fazenda era muito bonita. Ruggero me levou por caminhos que eu não conhecia ainda, se bem que o único que eu conhecia até então era o caminho para o estábulo, fiquei encantada que pudesse existir um mundo como aquele. Tudo parecia intocado, a natureza era exatamente como deveria ser: colorida e cheia de vida, repleta de pequenos animais, que no começo me assustaram. Até o vento parecia diferente, cantava uma suave canção em meus ouvidos, e o ar puro chegava a ser inebriante para meus pulmões acostumado com tanta
poluição.
Talvez meu corpo estivesse reagindo de forma estranha nos últimos dias por causa disso: tanto ar puro devia fazer mal! Caminhamos por uma trilha de terra cercada por árvores de copas altas, vi muitos pássaros e até um esquilo. Passeamos por um campo aberto com
uma árvore apenas.
Esse eu reconheci. Foi ali que apareci pela primeira vez. Aproximei-me mais do local, examinando minuciosamente pra ver se eu havia deixado escapar alguma coisa, não encontrei nada além da pedra em que tropecei.
A mesma pedra em formato de meia bola que me desequilibrou em 2010 e me fez
cair em 1830. Parecia ser muito antiga, metade coberta de grama, metade exposta. Perguntei-me por que ninguém nunca se incomodou em tirá-la do
caminho.
Tive certeza, naquele instante, que realmente estava no mesmo lugar de
antes. Que aquele pasto em muitos anos se transformaria numa pracinha, o
mesmo lugar onde se ergueria a imensa metrópole. A minha metrópole.
Era uma coisa boba, mas me senti melhor por ao menos saber disso.
Ruggero me explicava e apontava até onde iam os limites de suas terras e com
quais famílias faziam fronteira.
Uma delas era a família de Ana.
Descemos um pouco no terreno levemente inclinado e paramos perto da
margem de um rio.
Um rio de águas claras e límpidas, sem pneu, garrafas, papel, ou qualquer outro tipo de porcaria boiando.
O mesmo rio que transbordava a cada chuva, inundando as ruas da cidade, poluído e fétido, há oito quadras do meu prédio, fiquei surpresa que aquele mesmo riacho já tenha sido um dia assim tão limpo.
- Nossa! É lindo aqui! Não pude me conter.
- Eu sabia que gostaria do riacho.
De alguma forma, ele me faz lembrar
você. Ele pegou uma pedrinha e atirou na água, que fez um glup ao cair.
- A mim? Não consegui entender a comparação.
- Sim. Assim como este rio, você segue seu curso, se uma pedra aparecer na sua frente, você simplesmente contorna e tenta encontrar um novo caminho.
E, assim como as águas deste rio correm em direção ao mar eu sei que você corre em direção à sua casa.
Ele estava de costas, mas, no final, sua voz parecia aborrecida.
- Mas imagine se, de repente, este rio resolvesse mudar seu curso e passasse bem no meio da sua sala.
Não seria o lugar certo, ele teria que voltar para cá.
Pra ser honesta, eu também fiquei um pouco aborrecida.
Sentei-me na grama na beira do rio, a margem era um pouco inclinada, mas
de uma forma leve e regular, fazia um banco perfeito.
Ruggero se sentou ao meu lado depois de alguns instantes.
- Eu sei disso. Ele ainda fitava as águas. -Mas ainda posso desejar que fique em minha casa por mais um tempo.
Não tive certeza se ainda falávamos sobre o rio.
- Ah! Ruggero. Sacudi a cabeça exaurida. - Acho que, se não fosse por você, eu já teria enlouquecido. Você tem sido um amigo e tanto. Se eu pudesse te contar tudo... Mas eu não podia. Não sem ir para um hospício logo em seguida.
- Mas não pode ainda. Ele disse delicadamente.
- Eu entendo. Não estou exigindo nenhuma explicação, mas realmente gostaria que pudesse ficar um pouco mais. Acredita que o Senhor Santiago realmente partirá em breve?
- Eu espero que sim. Mas estranhamente, minha voz não tinha a convicção que deveria ter.
- É tão ruim aqui? Perguntou triste.
- Não é ruim. Apenas diferente. Eu nem posso usar minhas próprias roupas sem ofender ninguém! Sua sobrancelha arqueou minimamente.
- Tem tanta coisa que eu queria que você conhecesse, coisas de que eu gosto e sinto falta, coisas que só existem lá.
- Como o que? A curiosidade estampada naqueles olhos castanhos e brilhantes.
- Como a Nina, minha melhor amiga, por exemplo. Nós nos conhecemos na faculdade e desde então nunca mais nos separamos. Ou o Rafa, o namorado dela, quase marido agora.
No começo, ele é meio difícil de engolir, mas depois que você se acostuma acaba gostando dele.
E por incrível que pareça, eu sentia falta dele também.
- Ou o banheiro. É incrível, Ruggero, tem tudo nele, você apenas gira uma alavanca e a água sai quentinha.
E tem a privada, é claro, muito útil e indispensável. E sinto falta do cinema, da música. Sinto muita falta da música...
Depois da Nina e do banheiro, era a coisa que mais sentia falta.
- Como pode sair água quente de uma alavanca? Indagou espantado.
- A água não sai da alavanca! ri.
- Ela apenas controla o fluxo de água que saiu do... há... Descobriram um jeito de aquecer a água do banho, ela sai fria do cano e entra num aparelho chamado chuveiro. Se parece com... Com... um balde, só que, no fundo deste balde, tem centenas de furinhos.
Não é bem isso, mas é quase isso!
A alavanca serve para controlar o fluxo de água ou interrompê-lo e também para regular a temperatura.
Então, quando se gira a alavanca, a água passa dentro do chuveiro que a aquece e sai na temperatura certa por estes furinhos.
Difícil explicar o uso de um chuveiro elétrico para alguém que nem ao menos sabia o que era energia elétrica.
- Parece que existem muitos cientistas nesse lugar. Acaba deixando isso aqui um século atrasado. Ele riu.
- Dois! Corrigi, rindo junto com ele.
- O que disse?
- Nada.
Precisava tomar cuidado com o que falava. Mas era tão fácil conversar com
Ruggero.

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