Parte 9

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Eu vi a mulher de cabelos cinza logo que entrei na casa imensa.
Ela vestia um daqueles vestidos volumosos e longos de filmes antigos. Será que foi por isso que ela arfou quando me viu? Pela minha falta de roupas? Pensei que fosse por ter uma estranha sangrando no meio da sala. Humm...
- Então, se fizer a gentileza de vestir as roupas que ela trará, poderá sair do quarto sem impressionar ninguém.
Malena está ansiosa para conhecê-la e
eu poderia mostrar-lhe minha casa. Já que se hospedará aqui, precisará conhecer as dependências, caso precise de alguma coisa.
Seu rosto era tão gentil, tão sincero!
- Está bem. Concordei, impotente. Eu não poderia encontrar a tal jornada trancada naquele quarto. E seria melhor não chamar muita atenção, de toda forma.  -Valeu, Ruggero. Por... se preocupar.
- Valeu? Um pequeno v se formou entre suas sobrancelhas.
- É o mesmo que obrigada, de uma forma mais casual. E ri sem graça.
Ele sorriu, depois fez uma reverência exatamente como nos filmes!
E deixou o quarto dizendo apenas:
- Com sua licença, senhorita.
Nossa! Ele se inclinou pra mim! Como se eu fosse uma mocinha indefesa.
Como se eu realmente fosse uma donzela do século retrasado e ele fosse...
Foco! Comandei a mim mesma.
Eu tinha um grande problema.
Precisava encontrar muitas respostas.
Precisava pensar no que ela havia me dito, palavra por palavra, e tentar encontrar qualquer coisa útil.
Mas, fosse o que fosse, eu tinha certeza que não estaria naquele quarto, eu tinha que encontrar uma pista pra poder voltar pra casa, por mais gentil e estranhamente familiar que o rapaz
fosse, eu não tinha intenção de me demorar ali.

Toc-toc!
- Senhorita? Chamou uma voz feminina.
Dessa vez, talvez por causa do calor do vinho, consegui me mover até a porta.
A mulher baixinha e rechonchuda, com o mais vivo tom de escarlate no rosto, me olhou de soslaio.
Soslaio?
Eu já estava entrando na brincadeira! Daqui a pouco estaria chamando as
pessoas por seus sobrenomes e corando, o que todo mundo ali parecia fazer.
- Senhorita, o patrão pediu para que eu trouxesse estas roupas.
Fiquei olhando a pilha que ela tinha nas mãos. Quantas roupas ela pretendia
vestir com tudo aquilo? Tinha tecido ali para armar uma barraca de acampamento.
- Valeu, dona. Mas eu só vou precisar de uma roupa. No vou ficar aqui muito tempo.
- Sim, senhorita, por isso trouxe este aqui. Ela apontou com a cabeça para um tecido azul.
- Ah! Obrigada. Peguei o vestido, sorri e comecei a fechar a porta, mas a mulher não se moveu.
- Algum problema? Perguntei, não queria ser rude e bater a porta na cara dela.
- Bem... Senhorita... E quanto ao resto? Ela parecia estranhamente nervosa, seu rosto assumiu um vermelho ainda mais intenso.
- Resto? Perguntei sem compreender.
- Do seu traje! Ela esticou os braços, me oferecendo pilha.
- Hein? Que traje? Eu já peguei o vestido!
Ela remexeu na pilha em suas mãos ruborizando violentamente e, sem me
olhar nos olhos, disse:
- Os trajes íntimos, a anágua, o espartilho, as meias, a crinoline e o
sapato, Senhorita.
A mulher não esperou por uma resposta minha, colocou tudo em meus braços entorpecidos.
Eu peguei automaticamente, depois, praticamente correu pelo longo corredor, fiquei olhando até ela desaparecer, minhas reações ainda estavam um pouco afetadas pelo choque de estar, de fato, no século dezenove. Fechei a porta.
Joguei a pilha pesada de roupas sobre a cama. Tentei reconhecer algumas peças.
Vestido: 0K.
Meias: 0K.
Um treco de metal que parecia uma gaiola: Nada 0K.
Espartilhos: já tinha ouvido falar deles.
Uma saia branca de tecido duro e pesado: talvez fosse a tal anágua.
Uma peça branca parecida com aqueles shortinhos que se usa embaixo do
vestido de quadrilha: humm... Supus que fosse um tipo de lingerie, já que tinha uma abertura entre as pernas e um laço de fita de cetim unindo as
duas partes. Olhei para ela e ri.
As calçolas da vovó pareceriam escandalosas perto disso!
Tirei minha blusa e minha saia e peguei o vestido. Se o problema fosse
pernas de fora, ele daria conta do recado. Eu não usaria aqueles, outros instrumentos de tortura.
Pra dizer a verdade, fiquei um pouco intrigada com aquela gaiola, era pra ser usado embaixo do vestido?
De verdade?
O vestido azul claro, de mangas curtas e decote reto, ficou um pouco largo na cintura e curto no comprimento, mas minhas pernas não apareciam mais,
apenas parte dos tornozelos e meus pés. Mantive os tênis.
Os sapatos eram pequenos demais para meus pés, mas, principalmente, pareciam ser desconfortáveis.
Meu Deus, como aquele vestido era quente! O tecido pesado me fazia suar
em todos os lugares, o dia estava exatamente como pela manhã.
Agradável e quente.
Agradável se você estivesse usando roupas leves, é claro. Com amargura, me lembrei de que gostava daquele tipo de vestido em meus livros.
Eu gostava por que nunca tinha usado um!
Coloquei minhas roupas na bolsa e amontoei a pilha que sobrara sobre a
cômoda. Alguém iria levá-los dali.
Vestida, e me sentindo muito ridícula, saí do quarto procurando refazer o caminho por onde entrei.
Passei por um longo corredor cheio de
quadros bonitos, paisagens em sua maioria, tentando encontrar a sala.
Notei que haviam muitas portas no corredor. Comecei a ouvir vozes, não
de fantasmas, era só o que me faltava!
Segui o som e acabei encontrando a sala gigantesca. Ruggero estava ali, além de mais as duas garotas.
Parei assim que os vi, sem saber exatamente o que deveria fazer, para minha sorte, Ruggero veio ao meu encontro, sorriu um pouco enquanto examinava o vestido e sacudiu levemente a cabeça.
- Parece estar muito melhor agora, senhorita Karol. Seu sorriso descontraído me deixou ainda mais envergonhada.
Eu estava realmente muito ridícula!
- É. Eu tô melhor. Obrigada, Ruggero. Respondi, com as bochechas queimando levemente.
Ele tossiu, ao mesmo tempo em que as duas garotas se entreolharam e depois se voltaram para Ruggero com cara de assombro.
O que foi que eu disse? Ruggero apenas se limitou a sorrir para as duas.
- Senhorita Karol, permita-me apresentá-la a minha irmã, Malena.
A garota de cabelo preto inclinou levemente a cabeça.
- E nossa amiga Ana Jara.
A a mais baixa e ruiva também inclinou a cabeça, fazendo uma reverência.

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