Fora do casarão, a bagunça era tão grande quanto na cozinha.
Muitas pessoas passando de um lado para outro com caixas nas mãos, carroças e mais carroças cheias de aparatos e alimentos.
Ruggero estava no centro do estábulo com Storm, sua aparência era bem
diferente da que eu estava habituada. Vestia apenas camisa e calças, como
na noite anterior, mas agora a camisa estava suja de terra e grandes manchas de suor no peito largo faziam o tecido grudar em sua pele, seu cabelo despenteado e úmido pelo esforço, os joelhos da calça repletos de terra.
Até seu rosto parecia estar sujo.
Estava irresistível e lindo!
Fiquei observando a cena por um tempo, não queria perder nem um detalhe.
Com as mãos espalmadas, como se dissesse ao cavalo à sua frente que estava desarmado, ele tentava se aproximar do animal.
Contudo, Storm não se deixou enganar. Recuou vários passos todas as vezes que Ruggero tentou se aproximar.
Ruggero fez mais algumas tentativas e, por fim, conseguiu se aproximar o
suficiente para montá-lo, no entanto, o sorriso triunfante em seu belo rosto durou apenas alguns segundos, já que Storm, num ataque de rebeldia, empinou para trás relinchando feito louco, e Ruggero não conseguiu mais se segurar e acabou caindo.
- Ruggero? Gritei, abrindo a cerca e corri com o vestido erguido até ele.
- Você está bem?
Atirei-me de joelhos ao lado dele, minhas mãos percorrendo seu peito, seu ombro, seu pescoço. Tudo estava no lugar.
Ele tentou se levantar e gemeu baixinho.
- Ai, minhas costas! Disse, se apoiando nos cotovelos, encarou-me meio sorrindo, meio gemendo.
Bom dia, senhorita. Como está hoje?
- Eu? Como você está? Acha que quebrou alguma coisa? Quer que eu mande chamar o médico ou te leve em algum hospital ou um pronto-socorro ou seja lá o nome que tem aqui? Você quebrou alguma coisa? Bateu a cabeça? Quantas Karols você está vendo?
Ele riu, me acalmando um pouco.
- Acalme-se. Estou perfeitamente bem. Sua mão tocou a minha ainda, sobre seu peito.
- Não é a primeira vez que ele me derruba, lembra-se?
Ele tentou se sentar, coloquei minhas mãos em seu ombro tentando dar
apoio.
- Tem certeza que tá tudo bem mesmo?
O cavalo era tão alto! Talvez ainda não sentisse a dor porque o corpo ainda estava quente.
- Tenho. Agora, pare de se preocupar comigo. Ele sacudiu a camisa cheia de terra. Uma chuva de areia caiu dela.
- Acho que Madalena me passará outro sermão hoje, ontem já falou pelos
cotovelos por conta de uma ou duas manchas de tinta. Depois sorriu com cara de quem tinha aprontado e tinha sido pego. E que não se arrependia nem um pouco.
Não achei graça.
- Você poderia ter se matado, idiota.
O soltei, rapidamente me levantando.
- Pensei que tivesse desistido deste cavalo. Está tentando deixar Malena sozinha? Sem pai, mãe e sem irmão também?
Como se atrevia a fazer aquele tipo de idiotice? Qualquer um podia ver que Storm não seria domado por ninguém. Era claro como cristal. Apenas aquele
teimoso não via isso! Por que ele ainda insistia?
- É claro que não. Só estou tentando uma nova técnica. Ele ainda sorria.
Minha raiva aumentou.
- E qual é a nova técnica? Ser atirado a dois metros de altura por um animal selvagem? Parabéns! Funciona perfeitamente bem!
A ironia e a raiva se misturaram em minha voz.
Ele se levantou e sacudiu as calças, fazendo cair outra chuva de areia.
- Pensei que não fosse possível, mas vejo que me enganei. Ele disse, endireitando as costas.
Fiquei confusa.
- Que não fosse possível o que?
- Pensei que não fosse possível que, você pudesse ser mais adorável do que já é. Mas me enganei. Ele explicou, sorrindo carinhosamente.
- Fica ainda mais adorável quando está preocupada comigo!
Eu bufei e lhe dei as costas, marchando de volta para casa. Obviamente, ele
estava bem, já que era capaz de ficar me gozando!
Entretanto, na pressa de sair dali, e com a raiva turvando minha visão, acabei enroscando a barra do vestido na cerca de madeira ao sair, abrindo um buraco grande o suficiente para passar uma laranja.
- Droga de vestido estúpido! Resmunguei puxando a saia e aumentando ainda mais o rasgo.
Ruggero estava bem atrás de mim quando voltei a andar.
- Por que está tão furiosa? Falou mais sério.
- Por que ficou tão imbecil? Retruquei.
Ele alcançou meu cotovelo, me fazendo parar.
- Por que está tão irritada comigo?
A confusão estampada em seu rosto.
- Não pode ser apenas por causa do cavalo!
E na verdade não era apenas por isso.
Eu teria que partir e teria que esquecê-lo. Teria que esquecer a coisa mais bacana e intensa que já senti, sem que nem mesmo tivesse começado direito.
Respirei fundo várias vezes, tentando me acalmar. Ele esperou pacientemente, sem dizer nada.
- Eu preciso falar com você. Agora! Te esperei ontem à noite, mas você não chegava nunca... Onde esteve afinal?
- Precisei ir até a cidade. Faltavam alguns detalhes para o baile e eu precisava lhe comprar uma coisa...
- Me comprar o que? Perguntei cautelosa. Não gostei muito da cara dele quando disse isso. O jeito como falou e o seu sorriso me diziam que eu podia me meter em outra enrascada.
Uma enrascada deliciosa, mas ainda
assim uma enrascada!
- Ficará pronto dentro de alguns dias.
Em breve, você saberá, prometo.
Por que queria falar comigo ontem?
O tom carinhoso em sua voz derreteu minha raiva de uma vez. Suspirei.
- Você sabe o porquê.
- Ah! Ele assentiu.
- Podemos conversar agora. Também tenho algo importante para lhe dizer.
Ruggero parecia ansioso para termos nossa conversa.
Talvez pensasse que poderíamos encontrar uma forma de resolver tudo. Que tudo acabaria bem.
Mas ele não conhecia a história toda, e nem toda a conversa do mundo consertaria minha vida naquele momento.
- Ótimo! Mas eu preferia que fosse num lugar mais reservado.
Se eu ia contar que nasci duzentos anos à frente, seria melhor não ter toda aquela
plateia.
- E onde gostaria de fazer isso?
- Tanto faz. Desde que ninguém nos ouça, não me importa onde seja.
Dei de ombros, minha coragem começava a fraquejar, seria tão bom se eu pudesse simplesmente não pensar em nada, não contar nada e agir apenas
como eu queria. Suspirei outra vez.
Não adiantava mais adiar o inevitável. Ele tinha que saber tudo antes que eu desaparecesse de sua vida para sempre sem deixar nem uma explicação.
Ruggero deu uma arrumada na gola da camisa e passou as mãos pelos cabelos
suados.
- Se não se importar que eu não esteja vestido adequadamente para acompanhá-la...
- Não seja ridículo, Ruggero! Você está ótimo assim. Vamos logo, antes que eu
perca a coragem.
E comecei a andar, esperando que ele me seguisse, eassim ele fez.
Porém, andamos uns três ou quatro passos apenas, antes que Madalena
aparecesse correndo e gritando desesperada.
Aparentemente, alguém deixou alguns animais escaparem e agora sua cozinha estava repleta de galinhas vivas empoleiradas para todo lado, porcos gigantes rolando os sacos de milho que estavam no chão e ela tinha que começar a preparar os assados para o dia seguinte.
Ruggero se virou e me lançou um olhar de súplica.
- Vá logo! Eu espero. Falei desanimada.
Tentei me aproximar da cozinha, mas foi impossível.
Havia muita gente tentando agarrar os bichos, achei melhor esperar do lado de fora. Levou mais tempo do que eu esperava para capturarem todos os animais.
Ouvi muito cacarejo, grito e oinc-oinc.
- Porra! Exclamou Ruggero, e eu arregalei os olhos, completamente
maravilhada.
Gostei de vê-lo despido de sua fachada educada e se comportar mais como o tipo de gente que eu estava acostumada.
A palavra foi repetida mais algumas
vezes por alguns empregados.
Depois de quase meia hora, Ruggero saiu da cozinha, uma galinha em cada mão,
algumas penas no cabelo.
Tentei muito não rir.
Bem que eu tentei!
Ele entregou as galinhas ao moleque que passava.
- Cuide disso, por favor.
Pediu, parecendo cansado.
Depois foi até a “torneira” ao lado do cocho e meteu a cabeça na água.
Seus cabelos ensopados brilhavam um tom muito escuro, um pouco da água escorreu pela camisa, o tecido grudou em seu peito, cada músculo bem definido ficou exposto através do tecido transparente.
Foi impossível desgrudar meus olhos, mas ele não pareceu notar meu olhar de
cobiça.
Ruggero se aproximou e sorriu afetuosamente.
- Onde aprendeu aquela palavra? Perguntei, queimando de curiosidade.
- Qual? Ele disse confuso.
- Porra! Onde aprendeu isso?
- Ah! Perdoe-me, Karol! Eu não imaginei que você pudesse ter ouvido.
- Não se desculpe. Eu adorei! Só fiquei curiosa pra saber onde aprendeu um palavrão desses, pensei que não existissem essas palavras aqui.
- Eu leio muito. Explicou envergonhado.
- E aprendeu isso num livro? Instiguei ainda mais interessada.
- Um livro que tem porra escrito nele? De verdade? Ele corou.
- Sim. E não repita o que eu disse, por favor.
- Que livro é esse? Deve ser um autor revolucionário! Ele relutou, parecia muito embaraçado. Mas acabou me dizendo.
- Bocage. Sua voz tão baixa que mal pude ouvir.
- Acho que já ouvi falar, não é aquele carinha português que escrevia poemas eróticos? Eu me lembrava de parte da poesia, o pessoal de Letras adorava citá-lo... “Aqui dorme Bocage, o putanheiro; Passou vida folgada, e milagrosa; Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”
- E como é que você sabe disso? Ruggero inquiriu, exasperado.
- Faz parte do que eu tenho pra te contar. Apontei. Ele suspirou.
- Que tal conversarmos na margem do rio? Creio que não correremos o
risco de...
- Senhor Pasquarelli, que bom que o encontrei! Gomes desceu os degraus
da cozinha com o rosto em pânico. -Aconteceu um acidente com as carroças de entregas, patrão. Uma delas acabou batendo na outra por acidente e os dois cavalheiros não estão se entendendo. Estão muito exaltados. Temo que acabem perdendo a cabeça.
Os olhos aflitos do mordomo não deixavam dúvida quanto ao que seria
esse “perdendo a cabeça.”
- Não em minha casa! Ruggero vociferou e depois saiu quase correndo, com
o mordomo em seu encalço.
Estava começando a pensar que o destino não queria que eu contasse minha história a ele! Tudo acabava dando errado de alguma forma toda vez que eu tentava.
Tentei falar com ele outras vezes naquela tarde, mas toda vez alguma emergência aparecia e lá ia ele salvar o mundo. Pensei que poderíamos conversar depois do jantar. Eu ainda não entendia por que tanto carnaval só por causa de um baile.
- É como as pessoas se lembrarão da família. Ruggero me explicou, enquanto seguíamos para a sala de música.
Malena queria tocar um pouco antes de dormir.
- Lembra-se do que disse a Senhora Albuquerque sobre o baile que o marquês ofereceu?
- Claro. Homens que se comportaram mal a fizeram sair mais cedo da
festa.
- Então, por mais que o marquês ofereça outros bailes, bailes melhores que qualquer um já tenha ouvido falar, ele sempre será lembrado por este, em que os convidados foram obrigados a se retirar porque alguns cavalheiros não souberam se comportar perante as damas.
Sentei-me ao lado dele, Ana ao lado de Malena no piano. Imaginei que
estivesse nos dando um pouco mais de privacidade. Começava a gostar de Ana.
- E por que você se importa com isso? Ele não parecia ser tão vaidoso a ponto de querer dar o baile mais perfeito que já existiu.
- Na verdade, não me importo, mas Malena se importa.
Ele olhou para a irmã com ternura.
- Quero que tudo ocorra como ela planejou.
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Meu lugar
FanfictionA garota da cidade grande, independente que gosta de praticidade, tudo para ela tem que ser moderno e que não dê trabalho. Mas vê sua vida virar de ponta a cabeça e embarcar em uma grande batalha para alcançar sua liberdade o que ela não sabia é que...