Parte 17

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- Senhorita Karol, podemos conversar um pouco? Ruggero perguntou, todo
educado, tirando minha atenção da janela da carruagem, quando já
estávamos a caminho da vila.
Era a primeira vez que eu entrava em uma carruagem.
Muito diferente do carro e muito diferente do que eu imaginava por “carruagem”.
Quando era criança, eu fantasiava que era uma princesa indo para o baile dentro de uma daquelas, mas as minhas sempre eram enfeitadas e cheias de cor-de-rosa e dourado por toda parte.
A carruagem de Ruggero, no entanto, era marrom, com quatro grandes rodas de madeira e duas lamparinas pendiam nas laterais,imaginei que fossem os faróis. A cabine era fechada como uma caixa de
fósforo, apenas duas pequenas janelas nas laterais, uma delas estava coberta por um tipo de cortina de tecido.
Dentro dela, caberiam quatro ou cinco pessoas, os assentos e as paredes eram forrados por um tecido grosso e estampado de fundo bege, uma minúscula lamparina em um dos cantos,
que provavelmente servia para iluminar a pequena cabine em viagens noturnas. A viagem dentro dela era cheia de solavancos e lenta, mas supus que, num acidente de trânsito entre duas carruagens, não haveria vítimas
fatais. Talvez os cavalos se ferissem.
- Claro. Sobre o que quer falar?
- Sobre hoje. Ele limpou a garganta.
- Sobre o café da manhã.
Claramente, Ruggero estava constrangido, suas mãos inquietas pareciam não saber onde queriam descansar.
- Tudo bem. Eu disse cautelosa, não queria voltar ao assunto, especialmente por que não queria ficar irritada com ele.
-  Fala aí.
- Você disse. Ele pigarreou outra vez e, então, começou a falar rapidamente. Para não perder a coragem, pensei, depois do que eu ouvi.
- A senhorita disse algumas coisas que me deixaram confuso, muitas palavras que não reconheci, mas algumas delas eu conheço. Fiquei espantado que uma jovem dama as conhecesse também.
Seus olhos se abriram um pouco mais.
- E as usasse! Mas você disse algo que me
deixou inquieto.
E ele estava inquieto, realmente. Imaginei que, se a carruagem fosse mais
alta e ele um bom tanto menor, começaria a andar de um lado para o outro, como fazem nos filmes.
- E que coisa foi essa? Perguntei.
- Sobre ir para a cama com homens casados. Ele baixou a cabeça.
Ficou mexendo nos joelhos da calça como se tivesse alguma coisa presa ali.
- Eu nunca fui, já disse! Não estou mentindo.
- Eu acredito, senhorita. Mas.
Ele continuava com a cabeça baixa, sua
voz ficou um pouco abafada.
- A questão é que me pareceu que a
senhorita conhece bem o assunto. Ir para cama com um homem quero dizer.
Sua voz diminuiu até um sussurro.
Oh! Esse assunto!
- E conheço.
Eu tinha vinte e quatro, já conhecia há rio tempo.
- Foi o que pensei. Murmurou, levantando a cabeça olhando pela
janela.
Eu não podia ver seu rosto, apenas seu pescoço e seus cabelos negros.
Esperei que ele continuasse, mas ele não continuou.
- E você pensa que eu não deveria conhecer, acertei?
Ele se virou e me olhou nos olhos.
Olhou profundamente. Senti a força deles me arrastando, exatamente como um ímã. A força era tanta que recuei um pouco, assustada.
- Certamente que não devia! Jovens solteiras não devem conhecer certos
assuntos até que estejam formalmente comprometidas.
Ele parecia muito irritado, mais que isso, parecia furioso.
- E quando digo formalmente comprometidas me refiro ao matrimônio.
- Ruggero... Minha voz estava um pouco rouca, com medo.
Do que? Daqueles olhos?
- Eu tenho vinte e quatro anos, sou solteira. O sexo faz parte da vida das pessoas com certa frequência, onde eu vivo pelo menos é assim.
E mesmo que eu não conhecesse na prática, minha mãe me explicou como tudo funcionava quando eu tinha onze anos.
- A senhorita conhece na prática? Temi que seus olhos fossem saltar das órbitas. Seu rosto se retorceu em desaprovação e... tristeza?
- Mas é claro, Ruggero.
Talvez não fosse tão óbvio para um rapaz do século dezenove, mas eu não pretendia mentir para ele.
Estava sendo muito gentil comigo, me ajudando desde que me encontrou. Ainda mais gentil por me ajudar, sem nem mesmo saber a história toda.
- As coisas são diferentes por lá.
- Não gosto de como as coisas funcionam nesse seu lugar. E sua mãe fez muito mal. Sua testa estava vincada, suas sobrancelhas quase unidas.
- Muito mal, realmente!
- De forma alguma! Acho que ela fez certinho. Uma menina precisa saber o que acontecesse com seu corpo na adolescência e para que servem as
mudanças, ou o número de adolescentes grávidas seria maior do que já é.
- Há muitas delas grávidas? Ele parecia não acreditar no que ouvia.
- Sim, muitas. E, em sua maioria, por culpa de uma mãe negligente que não cumpriu seu papel de educadora, como fez a minha. Pensar em minha mãe sempre me acalmava, como se ela pudesse, ainda, me acalentar.
Suspirei. Sentia uma saudade terrível dos meus pais.
- E a castidade? E a pureza? Não existe valores onde você vive? Perguntou indignado. Eu ri.
- Ah,Ruggero! A virgindade não é tão importante desde mil nov... Faz tempo!
Eu não quebrei as regras, acredito que ainda existam garotas virgens.
Todas as de doze anos, pelo menos.
- Ouso dizer que esse lugar não é adequado para uma jovem viver!
- Bom, é adequado pra mim! Dei de ombros. - Não conhecia outra forma de viver até ontem. Gosto muito de lá. Espero conseguir voltar logo.
Ruggero estreitou um pouco os olhos.
- Creio que passar um tempo aqui possa lhe fazer algum bem. Novos costumes, novos conhecidos Talvez acabe gostando.
Duvido muito.
- Bem, é claro que primeiro eu preciso encontrar um jeito de voltar, depois eu vejo isso.
Sabia que não conseguiria convencê-lo que sexo fazia parte da vida, assim como sentir sono ou sede. Ele devia ter sido criado pensando que garotas eram virgens até o dia do casamento, sem exceções à regra.
Ele voltou a olhar para a janela.
- Chegamos. Disse ele, depois de algum tempo em silêncio.
Era estranho demais olhar a cena. Ruas de pedras irregulares, construções sem cor e antigas, sem a ação do tempo, porém homens vestindo casacas e com bengalas nas mãos, mulheres com vestidos antigos e bufantes, chapéus cheios de laços, sombrinhas rendadas nas mãos enluvadas. Até as crianças que vi pareciam sair de um quadro antigo,
usando roupas demais para crianças.
E cavalos. Muitos cavalos e carruagens. Tudo estranho.
Eu ri. Era como se eu estivesse numa das histórias dos meus livros.
Estava ansiosa demais para procurar pela tal pessoa, mal esperei a carruagem parar totalmente para descer.
Ruggero suspirou ao meu lado, claramente insatisfeito.
Imaginei que fosse por causa da conversa que tivemos. Olhei para ele, seu semblante estava ofendido.
- Ao menos poderia esperar até que eu desça primeiro e abra sua porta?
Reclamou irritado.
Oh!
- Eu... É que nunca... Ninguém nunca abriu a porta do carro... carruagem
pra mim antes. Me desculpe, foi força do hábito. Sorri sem graça.
Ele suspirou novamente.
Eu não disse nada, sabia que precisava me esforçar mais para não parecer um ET para as outras pessoas e não colocar Ruggero numa situação constrangedora, mas era muito difícil.
Eu queria voltar logo para casa.
Precisava voltar logo! Nina devia estar maluca de preocupação com o meu
desaparecimento repentino e, se eu não apareço no escritório na segunda de
manhã...
- Onde deseja ir primeiro? Perguntou, já ao meu lado.
- Não sei bem. Pensei que talvez pudéssemos andar por aí, perguntar sei
lá. Honestamente, você não acha que se mais alguém como eu estiver de fato por aqui será meio fácil de identificar?
- Muito fácil! Sorriu. A irritação ainda não havia deixado seus olhos, mas ele parecia mais controlado agora.
- Talvez possamos pedir informações a alguns comerciantes.
- Beleza! Ele me olhou confuso. Ah! -Beleza, bacana, jóia. Ainda confuso. Suspirei.
- Que ótimo!
Eu precisava tentar me comunicar melhor. Gírias definitivamente não eram
boa ideia

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