Parte 46

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- Você está bem, Karol. Malena perguntou enquanto o cocheiro colocava as caixas dos vestidos sobre o teto da carruagem.
- Claro. Por que não estaria? Só porque finalmente me apaixonei perdidamente por um cara incrível, que também estava apaixonado por mim e eu sabia que o magoaria muito em breve sem que eu pudesse fazer nada para impedir isso? Ou por que eu não sabia mais onde era o meu lugar? Porque, quando estava com Ruggero, já me sentia como se estivesse em casa. Isso era motivo para não estar bem? Motivo algum!
- Você está triste! Constatou.
- Nunca a vi assim antes. Será que posso ajudar com alg...
- Malena, valeu. Mas eu tô numa boa.
É só... sei lá. Eu tô meio ansiosa com
o baile. Menti. Ela não se enganou.
- Foi meu irmão, não foi? Ele fez alguma coisa que a importunou...
- Malena, Ruggero é o cara mais sensacional que eu já conheci. Ele não me importunou. Eu é que fiz tudo errado. Sacudi a cabeça, desamparada.
- Você?
- Sim, eu. Baguncei a vida dele!
- Não é verdade. E eu nunca o vi tão feliz quanto agora!
- Por enquanto. Sussurrei desamparada.
Malena não disse nada, Ana finalmente se juntou a nós duas, após conversar animadamente com a costureira sobre novo vestido.
A viagem de volta foi silenciosa, mas Malena me observou o tempo todo, às vezes com curiosidade às vezes com pena.
Assim que cheguei da vila, fui procurar por Ruggero.
Tinha que conversar com ele.
Tinha que avisá-lo que não poderia mais aceitar seus beijos, suas carícias e seu afeto, porque eu teria que voltar pra casa.
Procurei por toda a casa, me perdendo inúmeras vezes em cômodos até então desconhecidos, mas ele não estava em parte alguma.
Madalena não sabia dizer se ele tinha saído ou não.
Procurei, então, a única pessoa que eu
não queria ver tão cedo. Gomes.
Engolindo a vergonha de ter sido flagrada de forma pouco decorosa com
seu patrão, acabei encontrando o senhor de rosto fino e amistoso na sala de jantar, lustrando talheres.
Imaginei que ele pensasse que eu fosse um tipo de garota muito comum no meu tempo. Uma piriguete.
O que não estaria muito errado, dada a forma como eu vinha me comportando.
- Seu Gomes, boa tarde. Quer dizer, já é quase noite. Um sorriso amarelo.
- Estou procurando por R... Senhor Pasquarelli Sabe onde posso encontrá-lo?
- O patrão foi até a cidade, senhorita Karol. Creio que precisou buscar algo importante para o baile.
Seus olhos não me censuravam.
Eram amigáveis.
Remexi nas colheres e facas que ele polia tão minuciosamente.
Havia dezenas delas. Talvez centenas.
- Para sábado? Perguntei, erguendo uma peça.
- Sim, senhorita Karol, amanhã será um dia conturbado.
Teremos todos os preparativos do banquete e ainda os serviços diários.
Ele polia rapidamente, demonstrando toda a experiência que tinha.
- Eu posso te ajudar. Ofereci
- De maneira alguma, senhorita, isso é trabalho para os criados e não para as damas. Repreendeu, sem me olhar nos olhos.
- Ah! Gomes, por favor! Estou nervosa e sem nada para fazer, Madalena só falta cuspir fogo quando chego perto da cozinha, me deixe ajudá-lo, se eu estiver atrapalhando, você me manda embora que eu vou quietinha. Por favor! Implorei.
Os olhos ligeiramente enrugados analisaram meu rosto.
Por um tempo. Acreditei que a expressão desesperada que eu devia ter na cara o convenceu, pois, sem dizer nada, ele se levantou e foi até o guarda-louças para pegar outra flanela, ou pelo menos parecia flanela.
Observei como ele fazia primeiro, depois tentei copiar os movimentos, mas sem a mesma rapidez. Lustramos os talheres em silêncio por um longo tempo, havia uma pilha imensa esperando polimento.
- A senhorita é uma criatura estranha. Ele disse do nada, sorrindo um pouco.
- Quem, eu? Pensei um pouco no assunto. - Prefiro quase normal.
Sua gargalhada encheu a sala.
- Como preferir!
Lustrei mais alguns talheres, enquanto Gomes terminava com vários deles.
- Por que acha isso? Não pude resistir.
- Você não é como as outras jovens. Não se importa em trabalhar, nem com vestidos ou em dizer o que pensa.
Ele disse de forma doce, nem um pouco reprovador.
- É porque não sou daqui, lembra? Eu o cutuquei com o cotovelo.
- E trabalho faz muito tempo, ficar sem ter nada para fazer está me deixando
neurótica.
Ele riu outra vez.
Eu não sabia como entrar no assunto. Depois de meditar sobre a questão,
resolvi que falar de uma vez era a melhor saída.
- Gomes, sobre o que você viu hoje...
- Mas eu não vi nada, senhorita.
Ele me interrompeu.
- Sou muito bem instruído para saber que o que vi não foi nada. Apenas um abraço amigável.
Muito amigável, realmente!
- Eu só queria que soubesse que eu não fico por aí... Senti minhas bochechas arderem.
- É claro que não! Eu jamais pensaria tal coisa a seu respeito. Ele me encarava com olhos sinceros, ou estava sendo franco ou realmente era um ator formidável.
- Obrigada. Sussurrei.
- Disponha. Lustramos mais alguns talheres em silêncio, não um silêncio
constrangedor, mas aquele tipo de silêncio de trabalho, de concentração.
- Eu gosto dele de verdade. Soltei, depois de um tempo. Ele sorriu sem tirar os olhos da prataria.
- Notei isso há algum tempo, minha cara.
- Notou? Eu mesma só percebi há poucos dias! Se bem que eu estava ali há poucos dias...
- Ouso dizer que desde a primeira vez que a conheci, a velhice tem suas
vantagens.
Já vi muitas jovens apaixonadas. Sorriu conspiratoriamente e piscou um dos olhos.
- Por ele? Instiguei.
Ele concordou com a cabeça.
Eu podia imaginar.
Gentil, inteligente, lindo, charmoso, delicado, divertido, pegada forte e parecia ser rico não que isso me importasse.
Quem não cairia de amores por Ruggero?
- Mas esta é a primeira vez que ele retribui. Gomes acrescentou.
Suas palavras doíam e curavam ao mesmo tempo meu coração machucado. Era incrível que, mesmo submergida na confusão de sentimentos em que eu
estava, ainda conseguisse sentir prazer com aquela simples expressão.
- Sabe se ele volta logo? Não podia mais adiar a conversa. Contaria tudo a ele. Tudo. Não me importava se ele risse ou me pusesse para fora de sua casa.
Ele tinha o direito de saber tudo, saber o motivo que me impedia de ficar com ele, ficar ali.
- Não sei. Mas creio que pode demorar um pouco. A cidade fica distante daqui. Lembra-se da viagem até o teatro, não lembra?
Ah! Aquela cidade. Era longe, de fato, quando não se tinha um veiculo movido a gasolina.

Terminamos a prataria perto da hora do jantar, Ruggero ainda não tinha dado as caras. Eu não estava no clima para ouvir as conversas fúteis de Ana ainda que ela estivesse me tratando com mais amabilidade, sobre fitas, chapéus, baile e Lady Catarina, então fui paro o quarto, mas pedi a Gomes que me avisasse assim que Ruggero retornasse.
Depois do banho vestida muito confortavelmente com a camisa manchada de tinta, fiquei na janela do quarto esperando por ele, mas era impossível avistar qualquer coisa na noite sem lua.
Sentei-me na cama e peguei meu romance esfrangalhado para passar o
tempo. Levantei-me algumas vezes para olhar inutilmente pela janela, só para ter o que fazer. Li muitas páginas e quando dei por mim, o sol batia em meu rosto, me despertando.
Puxei o livro que estava sob a barriga, os cantos estavam começando a machucar minhas costelas.
Uma nova orelha se formou na contracapa, esse era um dos motivos do livro estar no estado penoso em que se encontrava: às vezes, eu acabava adormecendo sem guardá-lo apropriadamente. O outro motivo era deixá-lo jogado dentro da bolsa.

Vesti-me e sai para procurar por Ruggero, eu tinha que contar tudo a ele antes que o maldito celular me mostrasse outra mensagem.
A próxima podia ser
tipo: perdeu, perdeu! E me mandar de volta para o presente.
Encontrei um verdadeiro caos na cozinha. A grande mesa de madeira
estava abarrotada de frutas, verduras, vidros, panelas, temperos, ovos, sacos
de tecido, de farinha ou açúcar, ou talvez fosse os dois. Muitas pessoas corriam de um lado para o outro, exatamente como quando há um terremoto e ninguém nunca sabe para onde ir.
Observei a bagunça e não achei o que procurava. Fui até a sala de jantar.
Malena e Ana estavam a mesa.
- Bom dia. Saudei.
- Bom dia. Malena me disse, sorrindo.
- Bom dia, senhorita Karol. Já tomou seu café? Ana indagou.
Aparentemente, ela ainda se esforçava para ser mais agradável comigo.
Que bom! Ela subiu no meu conceito simplesmente por se preocupar com meus amigos, exatamente o mesmo motivo que a fazia ser tão cordial comigo agora.
- Não, ainda não comi. Puxei a cadeira e me sentei.
Peguei um pedaço de pão e comecei esfarelar com os dedos enquanto as
observava, as duas agiam como sempre, então Ruggero já teria retornado a essa
altura ou Malena estaria se descabelando por causa do irmão desaparecido, e não sentada ali comendo tão calmamente.
- Onde está Ruggero? Indaguei depois de alguns segundos.
As duas trocaram um olhar conspiratório e sorriram.
- Que foi? Perguntei confusa.
- Ele está no estábulo. Ainda tentando convencer Storm a não derrubá-lo. Disse Malena, tentando não rir.
- Ana e eu estávamos discutindo há
minutos atrás quanto tempo levaria para que você perguntasse por ele.
As duas riram.
Fiquei constrangida e um pouco furiosa. Levantei-me de uma vez, deixando a comida de lado, e saí em direção ao estábulo. Parei quando cheguei à porta.
- E quem acertou? Perguntei.
- Eu! Ana disse com um sorriso enorme.
- Não fique com raiva, senhorita, mas é impossível não notar o que está escrito em seus olhos.
- Você o ama! Malena exclamou maravilhada, como se isso fosse uma
notícia boa.
Eu apenas abaixei a cabeça e saí da sala apressadamente, esperava que estivessem enganadas.
Esperava que ele não conseguisse ler meus olhos tão facilmente.

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