Então, dois empregados que eu não conhecia ainda começaram a trazer as
bandejas de comida.
O cheiro delicioso me atingiu como um soco, meu estômago se empertigou a visão de tanta fartura.
Reconheci a tigela com sopa e a travessa de batatas, havia um tipo de carne assada, mas não pude identificar de qual espécie era, decidi que era da espécie carne e que eu estava faminta o bastante para comer qualquer coisa que fosse.
Os empregados nos serviram exatamente como garçons de restaurante, e me atirei na comida assim que meu prato foi colocado diante de mim.
Quando o calor da sopa atingiu meu estômago, pensei que iria chorar, tudo
absolutamente delicioso, fosse o que fosse.
Assim que aplaquei um pouco a fome, um pouco, eu ainda estava faminta, pude prestar atenção aos outros.
Não havia notado que eu tinha uma pequena plateia me observando. Incluindo os dois empregados.
- O que foi? Perguntei depois de engolir a comida. Eu sabia me portar à mesa.
Não estava agindo como uma selvagem nem nada disso, o que eles tanto olhavam? Levei o guardanapo de linho à boca para me certificar que não tinha nada espalhado em meu rosto.
- Que apetite a senhorita tem! Ana observou um sorriso irônico nos lábios finos.
- Eu tô varada de fome! Não comi nada o dia todo, perdoem-me se me portei mal, mas é que está tudo tão gostoso!
Eu disse, colocando outra batata na boca.
Os irmãos riram.
- Nunca vi tal coisa! Exclamou Ana.
- Uma jovem que tem o apetite de um homenzarrão! Um risinho estridente escapou de seus lábios.
- Eu acho divertido. Disse Malena.
- Como pode comer tanto e ser tão
magra?
- Comer feito um homem não é divertido, Malena. É bizarro. Olhe para isso!
Ana apontou para meu prato.
Engoli minha comida, tomei um gole de água.
- Acho que você nunca trabalhou na vida, Ana. Respondi secamente.
- Trabalhar, eu? O espanto em seu rosto não me surpreendeu.
- Se tivesse trabalhado, saberia que é difícil se manter em pé apenas provando a comida. Eu trabalho muito, das oito às seis, durante todos os dias da semana. Muitas vezes, deixo de almoçar para dar conta de toda papelada empilhada na minha mesa. Então, quando tenho a oportunidade de comer, e ainda mais uma comida tão boa quanto esta, eu como! Terminei, pegando um pouco mais da carne assada.
Talvez fosse carneiro assado.
O choque em seu rosto foi hilário.
- Você trabalha? Indagou Malena impressionada.
- Sim. Num escritório financeiro, cursei administração de empresas, não
era bem o que eu queria fazer, mas às vezes a vida sai um pouco de controle e só resta seguir o fluxo. Mordi outra batata.
- Fiz estágio nessa empresa enquanto ainda estava na faculdade. Acabou que gostaram do meu trabalho e me contrataram.
O salário não é extraordinário, mas eu
tenho um plano! Me livrar do pesadelo chamado Gary e meu salário aumentar consideravelmente. Era um ótimo plano!
Eu estava no terceiro período de marketing quando meus pais se
acidentaram, precisei repensar minha vida depois disso, tinha que me virar
sozinha, pois dali em diante estava por conta própria.
Resolvi botar os pés no chão e fazer algo que tivesse mais mercado. Estudei muito para me tornar uma das melhores alunas do curso de administração.
A sala ficou silenciosa. Engoli minha comida.
- Você foi à faculdade? Perguntou Ruggero, a voz baixa e levemente rouca. -Sim, Ruggero.
Os empregados se entreolharam, depois voltaram às suas posições, tipo guarda da rainha.
- Por cinco longos anos.
Só eu sabia como foi difícil concluir meu curso, pagar por ele com a renda tão baixa, meus pais foram pais maravilhosos, mas não tinham muito pra
me deixar.
Com exceção das lembranças doces, uma pequena poupança e o carro o seguro dele, já que tinha sido destruído, foi tudo que me restou.
O estágio acabou salvando meu último ano, ou eu teria que ter trancado o curso e, talvez, nunca tivesse concluído.
Ruggero pareceu muito impressionado.
- Mas as mulheres não vão à faculdade! Nem mesmo na Europa. Ana falou, de forma desdenhosa.
- Não? Perguntei a Ruggero.
Ele sacudiu a cabeça lentamente, os olhos intensos cravados nos meus.
- Há apenas algumas faculdades no país, e a mais próxima fica na cidade.
Faz apenas três anos que foi inaugurada.
- Apenas para a educação de rapazes não de damas. Teimou Ana.
- Bem, não vai demorar, logo elas irão, de toda forma, você ainda vai ouvir falar sobre isso. Respondi friamente para Ana. Ruggero ainda me observava atentamente. De repente eu não tinha mais fome.
Continuei a encará-lo, até que Madalena entrou na sala perguntando se poderia trazer mais alguma coisa.
- Está tudo perfeito Senhora Madalena. Creio que possa nos trazer a sobremesa daqui a pouco. Malena disse, mostrando as covinhas.
- Foi você quem fez este jantar? Perguntei.
- Sim, senhorita. Estava a seu gosto?
Seu rosto redondo ficou tenso.
- Madalena, você é um gênio da culinária! Estava tudo espetacular!
Poderia ganhar um dinheirão abrindo um restaurante! Nunca comi nada mais saboroso na vida. Se bem que qualquer coisa era mais saborosa que a comida congelada que eu estava habituada.
Ela corou um pouco e, sorrindo, claramente embaraçada, me disse:
- É muita bondade sua senhorita. Deu aquela abaixadinha inclinando a cabeça e deixou a sala.
- A Senhora Madalena adora quando algum convidado elogia sua comida.
Aposto que ela veio aqui apenas para saber se o jantar lhe agradou.
Disse-me Malena.
Fomos até a sala de jogos depois do jantar uma mesa redonda e antiga, que para a época era novinha, claro, com cartas de baralho e dominó espalhados sobre ela, foi ocupada pelos três. Ana queria jogar, mas eu estava tão cansada que recusei. Esperei que um deles se retirasse primeiro dizendo que já estava tarde. Ruggero já havia reclamado do cansaço. Eu não queria ser mal educada nem nada, mas como ninguém parecia querer dormir tão cedo, perguntei se eu poderia me retirar. Recebi os “boa noite”
de todos e fui para o quarto.
Entretanto, alguns minutos depois voltei apressadamente para a sala, na esperança de que Ruggero ainda estivesse por lá.
E, graças aos Céus, ele ainda estava.
- Algum problema, senhorita Karol? Pensei que estivesse dormindo.
Ele se levantou imediatamente e veio ao meu encontro, o rosto um pouco
aflito.
- Estávamos agora mesmo falando de sua pessoa, senhorita Karol. Disse Ana.
- Eu estou indo dormir Ruggero. Respondi a ele, ignorando Ana.
Imaginei que debateriam sobre o assunto, que discutiriam sobre mim, mas
pensei que não perguntar sobre o que falavam deixaria Ana mais frustrada do que acabar sendo grosseira com ela.
- Mas eu queria tomar um banho primeiro, este vestido é muito quente! Eu encontrei a banheira que você mencionou, o que eu não encontrei foi a água! Ele sorriu, assim como eu sabia que faria. Não me senti ofendida por ele
achar graça dos meus problemas.
Se a situação fosse inversa, eu faria
exatamente o mesmo.
- É preciso levar a água até lá, senhorita. Ele explicou, o rosto divertido.
- Karol. O corrigi. - E onde eu pego?
- Pedirei aos criados para que preparem seu banho. Voltarei logo. Ele se curvou ligeiramente e saiu.
Fiquei ali, parada, admirando as duas moças, sentadas tão eretas e elegantes. Só podia ser por causa do espartilho.
Não dava pra se afundar no sofá usando um, eu tinha certeza disso.
Ouvi o tagarelar incessante de Ana, ela não deu a menor chance para Malena expressar suas opiniões sobre as fitas dos chapéus.
Pouco depois, Ruggero retornou dizendo que meu banho já estava sendo
providenciado.
Eu agradeci sua ajuda e me apressei em voltar para o quarto.
Encontrei Madalena testando a temperatura da água, ela me disse que arrumaria a bagunça pela manhã, já que eu parecia acabada e devia estar querendo cair na cama.
Claro que ela não usou exatamente estas
palavras, mas o significado foi mais ou menos esse.
Fechei a porta e entrei na banheira. Levei minha calcinha comigo.
Eu só tinha uma. Apenas uma calcinha! Depois de me deleitar na água quente por alguns minutos, alcancei alguns objetos aos quais eu ainda não havia sido
apresentada. Identifiquei o sabonete.
Na verdade, o cheiro dele lembrava azeite de oliva, e a cor escura e lamacenta lembrava sabão em barra para lavar roupas, apesar de sentir um leve ressecamento na pele, funcionou até
que bem.
Não molhei os cabelos. Já os tinha lavado pela manhã e não tinha certeza se o conteúdo do vidro âmbar sobre o pequeno aparador era mesmo xampu.
Após uns dez minutos, a água começou a esfriar e fui obrigada a sair.
Alcancei o pano bege e me sequei.
Devia ser uma toalha, porque era bem
grosso, áspero e duro.
E, pra dizer a verdade, não secava muito bem, espremi minha calcinha entre as mãos, dei umas sacudidas e a pendurei no encosto de uma das cadeiras da mesa, na esperança que secasse até a
manhã seguinte, e me vi frente a um dilema.
Eu não tinha roupas para vestir. Pela primeira vez na vida, essa máxima era real!
Meditei um pouco e concluí que dormir sem roupa alguma não era boa ideia naquela época medieval! Então, vesti minha regata, sem sutiã e o shortinho de
quadrilha. E não é que o shortinho era confortável?
Uma penteadeira ou ao menos se parecia com uma, com uma bacia e um jarro prateado cheio de água chamou minha atenção. Imaginei que fosse o lavatório. Procurei pela pequena nécessaire que levava todos os dias para o escritório.
Lá estava! Minha nécessaire com minha escova de dentes, meu creme dental, meu fio dental e um desodorante daqueles pequenininhos de viagem.
Após escovar meus dentes e dar uma arrumada na bagunça, me lembrei da
caixinha do celular.
Eu a peguei avidamente, à procura de alguma coisa no manual do usuário, só para me frustrar logo em seguida, o pequeno manual não tinha sequer uma única letra impressa em suas centenas de páginas, todas estavam em branco.
Fui pra cama exausta, não apenas por estar me recuperando de uma ressaca
física, mas também começava a sentir os efeitos da ressaca mental.
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Meu lugar
FanfictionA garota da cidade grande, independente que gosta de praticidade, tudo para ela tem que ser moderno e que não dê trabalho. Mas vê sua vida virar de ponta a cabeça e embarcar em uma grande batalha para alcançar sua liberdade o que ela não sabia é que...