Acordei cedo outra vez e percebi por quê isso estava se repetindo todas as manhãs desde que cheguei ali.
Havia muito barulho.
Os malditos pássaros não calavam a boca!
Eu já estava habituada aos barulhos de pneu freando bruscamente, buzina, o zum-zum-zum das pessoas e todo tipo de som que entrava pela janela do meu apartamento, mas ali, aquele delicado cantarolar dos pássaros acabava me acordando simplesmente por não estar habituada a ele.
Como havia prometido, Ruggero já estava pronto para me levar até a vila quando o encontrei na mesa do café.
Fui informada que Malena e Ana já haviam se levantado e saído.
Ana tinha ido até sua casa avisar a família sobre o assalto, fiquei com pena dela por um momento, ela estava realmente assustada e eu sabia bem que não havia motivo algum para isso.
- Como lhe prometi ontem, já estou pronto, mas minha irmã e Ana usaram a carruagem, então, se não quiser ir até a vila a cavalo, teremos que esperar que elas retornem.
- Não! Santiago disse que vai viajar esta tarde, eu tenho que encontrá-lo antes disso! Se você não me deixar cair, não vejo problema. Ele sorriu.
- Eu jamais a deixaria cair, estará segura em meus braços. Ruggero se curvou e saiu, provavelmente para preparar o cavalo.
Só então percebi que a viagem seria mais íntima que na carruagem.
Lembrei-me com clareza de quando nos conhecemos e ele me levou até sua casa em seu cavalo, a proximidade de seu corpo me perturbou muito, e agora eu viveria a mesma experiência, numa viagem mais longa, e entendia um pouco melhor as sensações perturbadoras que Ruggero me causava.
Pensei que não seria capaz de voltar a respirar outra vez.
Encontrei Ruggero na porta da casa com o cavalo marrom claro selado e pronto.
Ele me ajudou a subir, mas, ainda assim, fiquei com medo de cair.
Ruggero habilmente montou no cavalo e passou um dos braços seguramente em
minha cintura, concentrei-me apenas em respirar e olhar para frente.
Já estávamos na estrada quando ele resolveu falar.
- Creio que não esteja habituada a passeios como este.
- Acertou em cheio.
- Sabe, senhorita, estou cada vez mais curioso a seu respeito.
Eu não disse nada, apenas olhava para frente temendo cair de cara no chão.
- Estou fascinado com sua determinação.
Continuou.
- Determinação. Zombei.
- Acho que a palavra certa pra isso é
teimosia! Ele riu, muito próximo do meu pescoço. Estremeci.
- É uma boa palavra, lhe asseguro.
Tentei me distrair dos tremores e arrepios observando a paisagem.
De alguma forma, as pequenas montanhas me eram familiares, eu tinha a impressão de que não havia sido transportada para um lugar diferente,
apenas para um tempo diferente.
Mas não dava para ter certeza, não sem as favelas e os bairros, as ruas ou os prédios sobre aquelas terras.
Ruggero pareceu muito satisfeito quando me desceu do cavalo ao chegarmos à vila.
Quase presunçoso até.
Um sorriso teimava em não deixar seus lábios, não perguntei o motivo, não tinha certeza se gostaria saber o que o deixara
tão feliz.
- Aonde pretende ir agora? Perguntou.
- Sei lá. Que tal irmos até a pensão? Deve ser o lugar mais provável para encontrá-lo. Ruggero assentiu e me ofereceu seu braço, eu o peguei sem reclamar, sabia que ele insistiria até que eu aceitasse.
Partimos em direção a pensão, mas não
foi necessário irmos até ela. Santiago, com seu inconfundível rabo de cavalo, estava parado na calçada estreita em frente ao boticário, totalmente distraído, observando algo em suas mãos.
Quando nos aproximamos mais, na luz fraca da manhã, o objeto brilhou como um espelho.
- Senhor Santiago. Chamou Ruggero.
Santiago rapidamente guardou o objeto em seu bolso, me impedindo de vê- lo com clareza, mas, pelo formato retangular e a cor prateada SUPUS que
eu já sabia do que se tratava. Eu sorri.
- Senhor Pasquarelli, senhorita. Bom dia. Exclamou surpreso.
Não imaginei que eu teria o prazer de revê-los tão cedo.
- Viemos para um passeio matinal.
A senhorita Karol queria conhecer a vila enquanto ainda está aqui, creio que já sabe que ela também não é daqui.
Disse Ruggero.
- Eu notei. Santiago me olhou de um jeito estranho.
- Parece que temos algo em comum, senhorita.
- Acho que temos muito em comum.
E o observei atentamente.
Ele sorriu, e seu rosto se tornou divertido.
- Certamente.
- Então... você vai até a cidade hoje? Pra poder voltar pra casa? Perguntei apressada.
- Sim. Preciso chegar lá antes do entardecer. Seus olhos ficaram opacos.
Antes do entardecer?
- Por que?
- É um pouco complexo. Uma longa história. Talvez no sábado eu possa
lhe dar mais detalhes. Arqueou uma sobrancelha.
- Não pode me dizer agora? Percebi que Santiago sabia muito mais sobre o que estava acontecendo que eu.
- Sinto muito, mas não posso.
É importante que eu não faça alarde.
Ele piscou.
Ruggero pigarreou ao meu lado.
Ah! Ela devia ter dito a ele para não contar a ninguém, assim como pediu
para mim.
- Entendi. Sábado então!
Disse, enfaticamente Santiago assentiu.
- Então, se puderem me perdoar, preciso fazer os preparativos para minha partida.
- Certamente. Ruggero disse com indiferença.
Estranhei a maneira fria com que Ruggero respondeu a ele, eu nunca vi ser
rude com ninguém, o que havia de errado com ele?
- Então, te vejo no sábado.
Disse, sorrindo amistosamente, tentando
distraí-lo da cara de poucos amigos de Ruggero.
- Até! Santiago se curvou e saiu apressado em direção à pensão.
- O que foi, Ruggero? Perguntei assim que Santiago estava longe o bastante
para não ouvir.
- Nada. Resmungou de cara amarrada.
- Não parece nada. Por que está irritado comigo?
- Não estou irritado com você.
Ele começou a me induzir de volta para
o cavalo.
Andamos em silêncio por um tempo.
- Está irritado com Santiago então? Tentei fazê-lo me contar o que o
incomodava. Ruggero hesitou e pareceu relutante ao dizer:
- Não gosto da maneira como ele olha para você! Tentei engolir.
Era esse tipo de coisa que eu queria evitar: me envolver com Ruggero era uma coisa, ele se envolver comigo era outra completamente diferente.
- Ah! Foi minha resposta brilhante. Ruggero ficou calado até quase a metade do caminho, pensei que ainda estivesse
furioso, mas, quando voltou a falar, sua voz estava mais tranquila.
- O que pretende fazer agora?
- Acho que nada. Vou esperar que Santiago volte e me diga se descobriu
alguma coisa. Eu tinha quase certeza de que saberia como voltar no sábado. Quase. Apenas sua maneira tão educada ainda me deixava encucada.
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Meu lugar
FanfictionA garota da cidade grande, independente que gosta de praticidade, tudo para ela tem que ser moderno e que não dê trabalho. Mas vê sua vida virar de ponta a cabeça e embarcar em uma grande batalha para alcançar sua liberdade o que ela não sabia é que...