Parte 51

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Ruggero saiu primeiro para se certificar de que o corredor estava realmente
vazio, saí logo em seguida, indo na direção oposta.
Tive que explicar para uma Malena muito preocupada que me perdi na fazenda tentado encontrar o riacho sozinha e que, depois de andar por horas, consegui encontrar o caminho de volta para a casa.
Meu rosto queimou de vergonha por mentir para ela.
Passado o alvoroço do meu suposto desaparecimento um novo recomeçou
o dos preparativos para o baile.
Ajudei Malena com a retirada dos vasos e enfeites da sala de visitas.
Os empregados retiraram a maior parte da mobília.
Poucos móveis permaneceram ali. Precisaremos de espaço para a dança, ela disse.
Uma grande correria, parecida com a de compras de presentes de natal de ultima hora, dominava todos os habitantes da casa. Mal vi Ruggero durante o almoço. Estava atarefado demais explicando a Gomes tudo o que deveria ser feito.
Mas no breve instante em que nos vimos ele gentilmente se ofereceu para acompanhar Malena, Ana e eu até a sala depois do almoço e estrategicamente, deixou que as duas garotas fossem na frente para ficar ao meu lado e segurar minha mão furtivamente, o sorriso que não deixava seu rosto me garantiu que eu não tinha cometido o maior erro da
minha vida.
Na verdade, tinha cometido o maior acerto da minha vida!
Não o vi pelo resto do dia.
E desisti de vez de ter a tal conversa com ele antes do baile, já que Malena disse que era hora de nos vestirmos.

Tomei um longo banho.
Aquela noite seria importante, Ruggero saberia de tudo.
Eu não esconderia nada dele.
E então, por acaso, me lembrei da existência de Santiago, ele saberia a
forma de voltar? Eu teria que voltar logo também? Agora que sabia qual era a minha jornada, ele teria alguma informação que serviria para alguma
coisa?
Sequei meu cabelo o melhor que pude, deixei a toalha embrulhada na cabeça para terminar o serviço.
Peguei minha maquiagem e caprichei no
visual: olhos esfumados em um degrade suave de cinza claro ao cinza escuro blush, camadas e mais camadas de máscara nos cílios e batom cor de boca. Não era bem o estilo da época, eu sabia disso, mas queria me sentir bonita, estar bonita para Ruggero, e aquela maquiagem deixava qualquer mulher maravilhosa, não importava a roupa que ela usasse.
Que era o meu caso.
Na bagunça dos últimos dias, acabei me esquecendo de olhar o vestido.
Não tinha a menor ideia do que esperar. Peguei a grande caixa, soltei a fira
e retirei a tampa.
Levantei cuidadosamente o vestido de cetim branco.
Minha boca se abriu de surpresa.
O vestido era fantástico: sem alças, com a
saia menos ampla que os vestidos que eu tinha, no fundo da caixa, encontrei um tipo de saia longa com varias camadas de babados. Aquilo dava para usar! Encontrei também um par de luvas brancas.
Apressei-me em vesti-lo como qualquer outra garota normal faria ansiosa para ver o resultado.
O espelho de meio corpo não mostrava toda a silhueta, recorri ao vidro da janela, que era grande o bastante para poder me ver de corpo inteiro, já que a noite escura o transformara num espelho
perfeito.
Gostei muito do vestido.
Ele aderiu perfeitamente ao busto e à cintura, abrindo levemente na saia, mas não uma saia rodada, apenas não era colada ao corpo, não tinha todo aquele franzido na cintura.
Seis pequenas pregas desciam do decote transversalmente até a lateral da cintura onde uma delicada flor de pedras prateadas dava o acabamento e continuavam ininterruptas, alargando-se gradualmente até alcançarem a barra do vestido.
Na verdade, lembrava muito um vestido de noiva moderno. Era maravilhoso!
Calcei as luvas longas e rodopiei em frente à janela para me ver de todos os
ângulos.
Fiquei feliz com o que vi ali, se desconsiderasse o pano enrolado na minha cabeça, claro.
Usei os grampos que Malena me emprestou muito maiores que os que eu
estava acostumada a ver nas perfumarias, ela os chamou de forquilhas, e fiz o único penteado que sabia, um coque baixo, com a franja lisa caindo lateralmente na testa, terminando atrás da orelha.
Usei um pouco de espuma de sabonete para fixar os fios rebeldes da franja. Deixou o cabelo um pouco duro e meio opaco, mas eu não tinha gel ou pomada ou qualquer outra coisa para dar acabamento.
Olhei-me na janela mais uma vez e gostei muito do resultado final.
Estava pronta e extremamente ansiosa para ver Ruggero outra vez.
Entretanto, não precisei ir muito longe para isso, assim que abri a porta, dei de cara com ele esperando por mim no corredor.
Perdi o fôlego assim que o vi.
Vestia um smoking preto com o da noite da ópera, mas o colete branco substituía o preto e a gravata também branca.
O cabelo penteado para trás brilhava intensamente, talvez ele usasse alguma
coisa nos cabelos, afinal teria que me lembrar de perguntar a ele sobre isso.
Ruggero arregalou os olhos e sua boca se abriu enquanto me analisava, observando cada detalhe do vestido, do meu rosto, do cabelo, atentamente.
Um sorriso enorme brincou em seus lábios, sorri também um pouco
constrangida, mas muito satisfeita.
- Eu... Eu... Você... Nossa!
- Obrigada. Deixá-lo sem fala era melhor que qualquer outro elogio.
- Você está lindo!
- Você está... Como foi que disse outro dia? Ah, sim! Você está um arraso!
E tocou a lateral do meu rosto delicadamente.
Mas acho que falta alguma coisa?
Sua testa se enrugou e ele colocou a mão no queixo, fazendo uma expressão divertida.
- Ah! Ergueu o dedo indicador como
se tivesse tido uma grande ideia.
Lentamente, Ruggero levantou a mão que escondia atrás das costas e me
mostrou uma flor.
Um lírio branco perfeito. Quebrou o talo da flor, deixando apenas um cabinho curto, e a prendeu em meu coque com muita delicadeza.
Depois voltou a me observar.
- Agora está perfeita!
Eu ri de sua cara de bobo.
- Pare de me olhar desse jeito. Ainda sou a mesma garota de sempre, só que com o cabelo menos desgrenhado. Ele sacudiu a cabeça negando, então levantei o vestido mostrando meus tênis vermelhos como prova.
Ruggero não conseguiu conter o riso, depois fingiu estar irritado, mas os cantos de seus lábios teimavam em subir.
- Posso perguntar por que não comprou um sapato para combinar com este lindo vestido, senhorita Karol?
- Sabe que nem pensei nisso? Dei de ombros.
- Além do mais, eu gosto destes. Quando o baile terminar, meus pés ainda estarão inteiros, não estarão doloridos e cheios de bolhas. Ele assentiu, um sorriso malicioso apareceu.
- Realmente, prefiro que seus pés estejam bem está noite, ainda teremos que conversar quando o baile acabar.
Aquele brilho prateado se espreitou
em seus olhos, sua expressão divertida me dizia que ele tinha outro tipo de
conversa em mente.
- Mas conversar de verdade!
É importante, Ruggero.
Muito importante.
Ele ficou sério, a diversão esquecida.
- Eu também preciso conversar com você sobre uma coisa importante!
- Importante? Perguntei apreensiva.
Seu rosto estava sério, os olhos ansiosos. - Que tipo de coisa importante?
- Do tipo muito importante. E sorriu um pouco.
Fiquei mais aliviada, fosse o que fosse, não deveria ser nem um problema.
- Beleza! Mas eu quero te contar minha história antes de mais nada! Você precisa saber de onde eu vim de uma vez por todas. Já tô ficando maluca com esse segredo todo!
- Quero muito que me conte toda sua história, Karol. Talvez... talvez eu possa... ajudá-la ou conheça alguém... que possa... Ele começou irrequieto.
- Não, Ruggero. Interrompi.
Pelo esforço com que ele proferiu as palavras, ficou claro que não tinha a menor intenção em descobrir como me mandar de volta para casa. Eu sorri.
- Ninguém aqui pode. Talvez o tal Santiago saiba alguma coisa, mas isso, eu vou descobrir hoje.
Seu rosto ficou infeliz.
- Alguns convidados já chegaram, então... Me ofereceu o braço.
- Será que posso conduzi-la até a sala ou vai me mandar para a parede outra
vez? Disse ele, mudando de assunto, mas sua expressão ainda era triste.
- Se comporte. Respondi, aceitando seu braço.
Ele tentou sorrir um pouco enquanto me conduzia.
Beijou minha testa carinhosamente pouco antes de entrarmos na grande sala de baile e suspirou.
Não disse nada até chegarmos ali, apenas me olhava nos olhos.
Eu podia ouvir o zumbido de vozes.
- Sabe que não sei me comportar seguindo esses costumes. Eu avisei,
para o caso de cometer alguma gafe e arruinar o baile de Malena.
- Agradeço aos Céus por isso. Seu sorriso era mais feliz agora.
- Não se preocupe, se sairá muito bem.
Eu assenti, mais por hábito que por confirmação.
Tinha uma intuição ruim sobre o baile. Só não sabia bem o porquê.

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