Parte 14

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Eu estava mesmo em 1830, no século dezenove, na casa de um cara estranhamente gentil, sem absolutamente nada que pudesse me ajudar a voltar para minha casa.
Nada exceto a conversa ao telefone com a vendedora.
Tentei repassar mentalmente toda a conversa, procurando por pistas, por
alguma dica, qualquer coisa que pudesse me ajudar a voltar para casa.
Você esta exatamente onde deveria estar, ela disse. Só que eu não deveria estar ali! Eu deveria estar no meu apartamento, cheio de coisas úteis como banheiro, xampu e toalhas macias.
Por que eu deveria estar no século
dezenove? Não me lembrava de nenhum fato ou acontecimento importante em 1830 que fizesse uma maluca enviar uma garota inocente para lá, apenas para procurar alguma coisa.
Está na hora de começar a crer que existem mais coisas no universo além das que os seus olhos podem ver, sua voz ecoou em minha cabeça.
Isso era meio verdade, pelo menos até aquela manhã eu não acreditava nas
baboseiras de magia ou destino ou sorte. Mas o que tinha de errado em se viver no mundo real? Nem todo mundo queria viver um faz de conta. Não mesmo!
Não eu!
Conheço cada segredo de sua alma, por isso precisei intervir, de fato, ela realmente parecia saber o que eu estava pensando, como na parte em que pensei que ela tivesse falado com a Nina e ela respondeu “não” antes mesmo que eu concluísse o pensamento. Mas se isso fosse verdade, conhecer os segredos da minha alma, mesmo que isso fosse possível, como é que ser enviada para 1830 me ajudaria? Claro que eu era fascinada por romances dessa época, mas, como regra geral, toda garota era. “o que Jane pensaria?” virou até camiseta! No entanto, gostar de um livro era muito diferente de querer viver a experiência pessoalmente.
Imensamente diferente! Então, se meus romances, minha única ligação com o passado, minha resposta estaria aí?
Os livros seriam minha resposta? Mas qual? Você não voltará até que encontre o que procura, terá que completar sua
jornada. Mas terá que ficar aí até que a complete.
Você não está sozinha, acredite! Certo! Encontrar o que eu procurava, mesmo que eu não tivesse a menor ideia do que fosse, mas seja lá o que fosse essa coisa, sabia que ela seria a minha passagem de volta. E se o que eu procurava tinha alguma relação com livros, então...
Argh!
Eu não conseguia fazer a associação. Completar minha jornada seria encontrar o que procurava.
Seria de muita ajuda se eu descobrisse
exatamente o que procurar! Resolvi que tinha que começar por aí, descobrindo o que seria a tal coisa.
Uma parte resolvida!
Entretanto, subitamente minha mente tomou outra direção.
Você não está sozinha. Eu não estava sozinha?
Eu... Não... Estou.. Sozinha...?
Eu não estou sozinha!!!
Ah! Meu Deus! Tinha mais alguém perdido ali! Mais alguém que aquela
mulher maluca tinha resolvido ajudar. Tão perdido quanto eu estava!
Então, como o clarão daquele maldito celular, minha cabeça se iluminou e juntei algumas coisas.
Tinha mais alguém ali, se eu encontrasse essa pessoa, talvez juntas pudéssemos descobrir alguma coisa, alguma pista ou
engambelar aquela bruxa e sair daquela confusão mais depressa!
Poderíamos voltar pra casa mais rápido!
Isso!!!
Eu precisava encontrar essa pessoa, descobrir quem ela era e o que sabia.
Não seria tão difícil, contudo, se ele ou ela estivesse tendo as mesmas dificuldades que eu.
Eu precisava encontrar a outra vítima e, assim que voltássemos para casa, eu denunciaria a vendedora-bruxa às autoridades por vodu, ela não iria brincar com a vida de mais ninguém!
Foi a última coisa que pensei antes de adormecer naquela cama dura, com
as velas ainda acesas.

Coragem, Karol. Você já enfrentou coisas piores!
Disse a mim mesma, parada em frente à casinha, me lembrando do banheiro químico que usei no último show de rock e, em vão, tentei me convencer de que a casinha não era tão ruim assim.
Ela era um centro cirúrgico esterilizado comparada aos banheiros químicos, e eu não podia esperar mais, já estava no limite.
Juntei coragem e fechei a porta, amaldiçoando aquela vendedora macumbeira por não me mandar para algum lugar que pelo menos tivesse banheiros decentes.
Porque ela tinha que ser uma bruxa, já que podia fazer uma garota ir para o século passado. Dois séculos passados, na verdade.
Quando eu conseguisse voltar pra casa, precisaria de muita vodca pra me esquecer daquilo, pensei.
E, sem dúvida alguma, jamais comeria alface outra vez na vida!

Ainda era cedo, talvez umas sete da manhã, mas a casa toda já estava de pé.
Fui para a cozinha procurar por Ruggero novamente ele tinha que comer, não
tinha? Eu precisaria da ajuda dele, mais uma vez.
Encontrei Madalena com a barriga colada ao fogão de lenha, terminando de
passar o café num coador de pano que se parecia muito com uma meia suja e encardida.
- Bom dia, senhorita, gostaria de se juntar ao Senhor Pasquarelli e à senhorita Malena? Estou indo levar o café. Ela mexia com uma colher o líquido preto dentro da meia.
- Bom dia, Madalena, eu estava mesmo procurando por ele, mas posso ajudá-la, se quiser. Quer que eu leve alguma coisa? Ofereci, querendo ser prestativa.
Ela pareceu ofendida com minha oferta.
- De forma alguma, senhorita, isso não é trabalho para uma convidada do Senhor Pasquarelli, Meu Deus! A senhorita nem deveria estar aqui na cozinha!
Realmente ofendida!
- Tá bem. Entendi. Ninguém mexe na cozinha da Madalena. Brinquei, tentando acalmá-la. Ela corou e ficou meio abobalhada.
- Não, senhorita. Não é isso, mas os trabalhos da cozinha são tarefas dos
criados, e a senhorita não é uma criada. Ela piscava rapidamente, seu rosto escarlate.
- Ah! Tudo bem, Madalena, eu só estava brincando, não se preocupe.
Eu não sei nem fritar um ovo!
Eu sobrevivia graças aos congelados e meu microondas.
- Eu vou até a sala então. Fui até uma grande bacia, parecida com um ofurô de madeira, só que um pouco menor, e lavei minhas mãos. Passei a mão úmida no mesmo vestido que tinha usado no dia anterior pra alisar uns amassados, depois deslizei os dedos pelos cabelos e fui pra sala.
Não que eu quisesse impressionar alguém, mas sabia que Ana estaria pronta para me analisar, e ela não perderia a oportunidade de me irritar.

- Bom dia. Saudei assim que entrei na sala.
- Bom dia, senhorita Karol. Disse Ruggero, se levantando e fazendo uma
reverência. - Como está hoje?
- Bem, obrigada. Olhei em volta e não encontrei as duas garotas.
- Onde está sua irmã? Pensei que todos estivessem acordados.
- Ela e a senhorita Ana acabaram de sair. O Senhor e a Senhora Moura vieram buscá-las para a missa. Ele sorriu.
- Hoje é domingo.
Ah! até no meu tempo domingo era dia de ir à Igreja, isso não mudou com o passar dos anos.
- E você, não vai à igreja? Perguntei, imaginando se ele era pagão ou coisa assim. Se bem que não conhecia muitos homens que fossem à igreja sem serem arrastados por suas mulheres, namoradas, mães, casos ou coisa do tipo.

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