Assim que entramos na sala, todas as cabeças se viraram para nos observar.
Corei um pouco e procurei por rostos conhecidos.
Encontrei Malena, com um imenso sorriso, me olhando maravilhada.
Estava parecida com uma princesa, tão delicada e encantadora com seu vestido marfim, que realçava ainda mais seus cabelos negros.
Também encontrei Ana, que não sorriu, mas também não me olhou de forma gélida. Fez um leve aceno com a cabeça e voltou a conversar com uma garota. Diferente de Malena, Ana gostava de coisas mais extravagantes, e seu vestido dourado e cheio de pedras era extremamente exótico.
- Tá todo mundo olhando pra mim! Cochichei para Ruggero.
- E por que não estariam? Não creio que algum deles já tenha visto uma jovem mais bela e encantadora tão de perto.
- Pare de brincar, Ruggero! Ralhei baixinho.
- Não estou brincado. O rosto sério, os olhos traziam o mesmo brilho da noite passada. Meu coração deu um solavanco. Tentei me distrair para não acabar arrastando Ruggero por uma das dezenas de salas vazias.
Observei a sala abarrotada e fiquei desconfortável, não gostava daquele
tipo de reunião social, sempre me sentia excluída, imaginei que estar num século que não era o meu não tornaria as coisas mais fáceis para mim.
Ruggero se esforçou para me deixar à vontade, me conduziu pela sala até onde
estava Malena e imediatamente me apresentou as pessoas com quem ela
conversava animadamente.
Tentei guardar alguns dos nomes, parecia importante para Ruggero que seus amigos me conhecessem. Esforcei-me muito para não envergonhá-lo dizendo besteiras e gírias. Por experiência, me limitei a perguntas educadas. Como vai você? Linda noite, não? Na verdade, estava linda apenas dentro de casa, parecia que vinha chuva
pesada ainda naquela noite.
Admirei os vestidos brilhantes e cheios de plumas, tão diferentes do meu e me perguntei se a tal gaiola era mesmo tão desconfortável quanto parecia. Nenhuma das mulheres pareciam incomodadas e, a julgar pelo diâmetro das saias, elas seguramente usavam a gaiola.
Pensei que estivessem tão habituadas a ela que nem se importavam mais.
A sala imensa estava praticamente vazia de mobília. Sobraram apenas algumas cadeiras, um sofá pequeno e uma mesa grande com muita coisa
sobre ela: castiçais, os talheres que ajudei a polir, taças de cristal, pratos e
muita comida.
Vários tipos de carne assada, batatas e legumes, bolos delicadamente decorados, frutas e pães se espalhavam sobre a mesa. Uma tigela contendo um líquido rosa e pedaços de alguma coisa me chamou a atenção. Descobri mais tarde que se tratava de um ponche, feito com vinho tinto, conhaque e maçã picada.
Eu ainda preferia chope, mas o ponche até que era bom.
Uma pequena banda no canto da sala afinava os instrumentos.
Conversei um pouco com a família Albuquerque.
A mãe de Valentina não pareceu muito feliz ao me ver usando um bonito vestido. Valentina, contudo, foi mais educada e elogiou o trabalho de madame Georgette, mas seu rosto estava triste e eu sabia o motivo.
Não importava onde ou com quem Ruggero estivesse, ele simplesmente não tirava os olhos de mim, não fui a única que notou isso.
Senti-me mal por Valentina, mas também por mim, nenhuma de nós duas conseguiria o que queria.
Ela pertencia àquele século e queria Ruggero, mas não o tinha.
Eu tinha Ruggero, mas não pertencia àquele tempo.
Talvez, quando eu fosse embora, ela pudesse consolá-lo, quem sabe ele não acaba se apaixonando por ela e me esquece pra sempre...
Meu coração afundou no peito.
A banda ou seria pequena orquestra? Começou uma música animada.
O violino vibrante contagiou as pessoas, que se puseram em fila, homens de um lado, mulheres de outro.
Fiquei olhando com incredulidade,
esperando que alguém gritasse: Óia a cobra! É mentira! Mas é claro, ninguém fez isso.
A dança era familiar, meio parecida com a quadrilha que eu conhecia, só que séria, sem brincadeiras.
Fiquei observando como homens e mulheres sabiam todos os passos, sem errar nada, como num balé.
Imaginei que ensinassem isso no colégio. Vi Malena dançando com um carinha a quem fui apresentada mais cedo.
Talvez seu nome fosse Lucas, mas eu não tinha certeza.
Ela parecia radiante e o rapaz não tirava os olhos dela.
Uma mão quente e grande tocou meu ombro, senti um arrepio subir por
minhas costas.
Eu sabia dizer exatamente quem era o dono daquela mão antes mesmo de me virar.
- Me daria a honra da próxima dança, senhorita? Ruggero perguntou sorrindo.
O rosto de Valentina desmoronou, mas ele não notou.
Eu não queria magoar ninguém, nem mesmo Valentina, que mal vi duas ou três vezes na vida, mas seus olhos tristes me encheram de culpa.
Só que eu também o amava, e não tinha culpa disso, aconteceu naturalmente, sem que eu me desse conta, e agora era tarde demais para voltar atrás, a culpa era daquela vendedora-macumbeira que me mandou para aquele século sem bilhete de volta. E agora eu interferia cada vez mais na vida das pessoas dali.
O conflito interno já estava me deixando maluca.
Não seria possível simplesmente ser feliz sem magoar ninguém, sem me sentir culpada?
- Ruggero, eu não sei dançar assim! Fiquei apavorada com a ideia e muito
desconfortável com o olhar de fúria que Senhora Albuquerque me lançou quando, sem pensar, o chamei pelo nome.
- A próxima dança será uma valsa. Explicou carinhoso um sorriso nos lábios perfeitos.
- Acho que se sairá bem nessa, é bem simples. Mordi o lábio, queria muito ficar perto dele outra vez, mas ainda estava esperando que Santiago aparecesse. Já estava impaciente com sua demora.
Se era para resolver tudo logo, eu não queria mais esperar.
Queria saber tudo para poder seguir com minha vida e aproveitar o tempo que tivesse ao lado de Ruggero.
Encontrei seus olhos castanhos suplicantes e não pude dizer não a ele.
- Tá bom! Mas já vou logo avisando que eu não sei dançar valsa. Tenho certeza que vou acabar esmagando seu pé.
Ele riu abertamente.
- Creio que sobreviverei a isso! Eu ri também.
Quando a quadrilha acabou, Ruggero pegou minha mão e colocou gentilmente
em seu braço, parecendo muito orgulhoso de me conduzir até o centro da sala, como se eu fosse a pessoa mais especial do mundo.
Sacudi a cabeça, sorrindo, Ruggero era incrível demais para ser real! Rapidamente, a sala se encheu de casais para a valsa.
Quando a música recomeçou vi os casais flutuando pela sala. Entrei em pânico.
- Basta me seguir, Karol. Veja? Ele tentou me conduzir. Tentei seguir seus passos e, como havia prometido, acabei pisando no seu pé.
- Desculpe, Ruggero. Senti meu rosto esquentar.
- Não se preocupe. Agora relaxe e sinta a música. Tentei relaxar. Suas mãos em minhas costas nuas me acalmavam um pouco.
- A valsa é uma dança muito íntima.
Ele me puxou delicadamente para mais perto.
- Significa deslizar, girar. Imagine que estamos sozinhos aqui, apenas você e eu. Relaxe e confie em mim. Sua voz rouca e baixa me trouxe a recordação de outros momentos íntimos.
Momentos em que confiei nele cegamente.
Arrepiei-me com a lembrança e, quando ele sorriu para mim com ternura, com paixão, soltei todas as minhas amarras e deixei que ele me guiasse, sem me importar com mais nada.
Ainda esmaguei seu pé mais uma ou duas vezes, mas acabei pegando o jeito depois de um tempo. Provavelmente, não flutuava como as outras mulheres, mas estava começando a me divertir muito. Rodopiamos pela sala algumas vezes.
- Quem dera Storm cedesse às minhas súplicas assim tão facilmente! Ele disse depois de alguns giros.
- Está me comparando a um cavalo? Fingi estar ofendida.
- Não com um cavalo. Com Storm. Ele sorriu.
- Acho que vocês dois tem a mesma expressão nos olhos. A mesma liberdade cravada na alma.
- Liberdade! Zombei.
- Minha alma já não me pertence mais. Como posso ser livre?
Ele me apertou um pouco mais, seus olhos castanhos queimando nos meus. Eu tinha certeza de que os outros casais não dançavam tão colados quanto Ruggero e eu, mas não falei nada.
Estava adorando poder ficar novamente sob seus braços protetores.
- Você disse que tinha desistido de montá-lo, mas ontem estava tentando
outra vez. Por que?
Voltei ao assunto, Ruggero perturbava meu raciocínio apenas com o olhar.
Ele hesitou um pouco. Havia algo que o constrangia.
- Não pode me dizer? Pedi.
- É que eu... Parece ridículo, mas pensei que, se eu fosse capaz de montá- lo, de vencê-lo... Talvez pudesse descobrir uma forma de fazer o mesmo com você.
Minha testa se enrugou.
Uma batida dolorosa em meu coração me deixou sem ar.
Não gostei disso.
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Meu lugar
FanfictionA garota da cidade grande, independente que gosta de praticidade, tudo para ela tem que ser moderno e que não dê trabalho. Mas vê sua vida virar de ponta a cabeça e embarcar em uma grande batalha para alcançar sua liberdade o que ela não sabia é que...