Parte 48

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Também observei Malena, que começara a tocar uma música familiar.
Reconheci de imediato, tinha aquela música no meu mp3! Só que era tocada por uma banda “dinossáurica” de rock, juntamente com uma filarmônica.
Sorri. A primeira coisa em comum até agora! Bem, com exceção do palavrão de Ruggero.
- Gosta dessa? Ruggero indicou o piano com a cabeça.
- Muito! Respondi entusiasmada, agarrando seu braço com as duas mãos. -Eu tenho essa música. É uma versão um pouco diferente, bem mais pesada, mas é a mesma! Tive muito trabalho pra baixá-la na internet. Eu não conseguia enc... Parei no instante que a ruga em sua testa se aprofundou.
Eu tinha que conversar com ele logo.
A situação estava ficando insuportável.
- Pretende me contar algum dia onde fica esse tal lugar? Perguntou, depois de algum tempo de silêncio, exceto pela música.
- Na verdade, pretendo te contar hoje. Tenho que te contar tudo, Ruggero!
Acha que pega mal se fossemos conversar lá na sala de visitas? Só nós
dois?
- Não sei. O que é pegar mal? Perguntou educado como sempre.
Argh!
- É tipo... Ruim. Ofensivo ou indecoroso. Não fica bem...
- Senhor Pasquarelli! Ainda bem que lhe encontrei. Era Gomes outra vez.
Ah! Pelo amor de Deus!
Não prestei atenção em qual era a emergência que Ruggero simplesmente tinha que resolver naquela hora da noite. Esperei impaciente que ele voltasse, mas a hora foi passando, ele não voltava, Ana e Malena estavam cansadas e resolveram se retirar.
Fiz o mesmo. O que mais poderia fazer?
Não consegui dormir, é claro.
Na verdade, nem tentei. Fiquei andando de um lado para o outro, esperando que ele viesse me procurar.
Esperei mais algumas horas e desisti de esperar por ele.

Abri a porta decidida e vi o corredor totalmente escuro.
Alguém devia ter apagado as velas e eu nem ao menos percebi, peguei a vela do quarto e andei pelo corredor, tentando não fazer barulho e chamar atenção.
Encontrei a sala igualmente escura e vazia. Continuei em frente.
Eu iria falar com Ruggero! Nem que precisasse ficar sentada na porta de seu quarto esperando a noite toda.

Bati levemente na porta quando a alcancei, Malena dormia poucos metros
dali e eu não fazia ideia de qual era o quarto de Ana. Ouvi alguma coisa lá dentro. Ele estava no quarto.
A porta se abriu um pouco e pude ver que ainda estava de camisa.
- Ainda está acordado. Que bom! Sussurrei.
- Vamos conversar? Agora! Exigi.
Ele abriu a porta um pouco mais, seu rosto perturbado.
- O que está fazendo aqui a essa hora? Sussurrou me reprovando.
- Eu te esperei até agora e, como você não me procurou, resolvi te encontrar, e te encontrei. Agora, vai me deixar entrar ou vamos conversar no corredor e acabar acordando a casa toda?
- Karol, eu não posso deixá-la entrar! Você enlouqueceu?
- Tem alguém aí dentro com você? Essa seria a única coisa que me impediria de entrar e ter esta conversa com ele.
- É claro que não! Respondeu, horrorizado e ofendido. Sua voz mais
alta que meus sussurros.
- O que você está pensando?
- Não estou! Agora me deixe passar. Não esperei que ele respondesse, me enfiei entre ele e a porta e entrei.
Ruggero olhou para os dois lados do corredor antes de fechar a porta.
- O que acha que está fazendo, Karol?
Ele foi até uma mesa, como a do meu quarto com o jarro e a bacia e lavou as mãos cheias de tinta. A água ficou negra quando as cores se misturaram.
- Se alguém souber que está aqui... Vai arruinar sua reputação!
- Tenho coisas mais importantes para resolver agora que me preocupar com minha reputação! Não tirei os olhos dele. Vestido novamente apenas com camisa e a calça.
- Tenho que dizer muita coisa.
É importante. Não saio daqui até que você me escute!
Ele secou as mãos e, depois de colocar o pano sobre a mesinha, se aproximou.
- Não pode esperar até amanhã?
- Não!
- Muito bem, então. Suspirou.
- Vamos conversar.
- Vamos. Concordei.
Mas, de repente minhas palavras fugiram e eu não sabia por onde começar.
Respirei fundo algumas vezes, juntando a coragem, que já não era muita.
Ruggero me observava atentamente. -Talvez... Comecei hesitante.
- Talvez queira se sentar para ouvir tudo o... Fiz um gesto apontando para a cama e parei de falar.
Acho que de respirar também.
Havia um quadro ao lado da cama.
Uma tela inacabada, meus pés foram
atraídos até ela sem que eu me desse conta disso, levantei a vela que ainda
segurava para iluminar melhor o retrato e arfei.
Mas era...
Eu!
O quadro inacabado era uma cópia perfeita da noite em que fomos a ópera.
Eu usava o vestido rosa, a flor presa em minha trança, meus olhos brilhantes. Minha figura estava quase pronta, meus cabelos, meus olhos, minha pele, meus lábios. O vestido, porém, tinha apenas um pequeno contorno de tinta rosa no colo.
Levantei a mão para tocá-lo.
Era tão real que parecia um espelho.
Um espelho de meio corpo que refletia a imagem mais bonita que a original.
- Não toque! Pediu ainda do outro lado do quarto.
Virei-me para vê-lo.
- A tinta ainda está úmida, vai borrar.
Ele parecia desconfortável, assustado, inseguro.
Olhei para o quadro mais uma vez.
Essa mulher linda no quadro sou eu?
É assim que ele me vê?
- Ruggero. Minha voz distorcida por culpa do nó em minha garganta.
- Por que me pintou? Pensei que não gostasse de retratar pessoas!
Ele não respondeu. Virei-me para encará-lo, a pergunta ainda em meus
olhos. Nós nos encararmos por um minuto eterno antes que ele me
respondesse.
- Porque não posso perdê-la, Karol! Porque, se tudo que posso ter é este
retrato... E apontou para a tela com um gesto derrotado.
- Ruggero. Deixei a vela no apoio de tintas e me atirei em seus braços.
Ruggero ficou muito surpreso com a forma brusca com que me joguei em seus
braços, mas assim que meus lábios tocaram os seus, a surpresa desapareceu
instantaneamente dando lugar a outra coisa.
Agarrei-me ao seu pescoço, tentando aproximá-lo mais de mim, suas mãos
enormes em minha cintura fizeram o mesmo.
Meu coração martelava loucamente dentro do peito, e a certeza de estar em casa me sufocou tão intensamente que calou definitivamente os gritos dentro da minha cabeça que pediam para que eu parasse porque ele sofreria ainda mais depois disso. Não pensei em mais nada, apenas que ele me queria ali com ele.
No entanto, seus lábios deixaram os meus e suas mãos seguraram meus
ombros, me restringindo.
- Ruggero? Eu tinha dificuldade para falar. Dificuldade para respirar.
- Não posso fazer isso com você! Não posso desonrá-la dessa maneira. Sua voz também instável, aflita.
- Não podemos!
- Podemos, Ruggero, Podemos sim!
Eu tentava recuperar o fôlego para poder
me explicar direito.
- Devemos esperar um pouco mais.
Eu pretendia lhe dizer isso de forma
mais...
- Mas nós não temos mais tempo!
Eu o interrompi sacudindo a cabeça.
- Você não entende? Eu... eu não sei quanto tempo eu tenho.
Mas tenho certeza que não é muito.
Eu nem sei se ainda estarei aqui amanhã, Ruggero!
- Mas é errado, Karol! Ele colou sua testa na minha, fechou os olhos sacudindo a cabeça. Parecia tão torturado!
- Tão errado! Você mesma disse!
Toquei seu rosto.
- Não é errado. O que sinto quando estou com você é... É a coisa mais certa que já senti na vida! Ruggero, pela primeira vez eu sei aonde pertenço!
Ele abriu os olhos.
- Pertence a este lugar? Perguntou confuso.
- Não, pertenço a este lugar. Eu sorri e deslizei minhas mãos de seu pescoço para os braços fortes e firmes, para que ele entendesse exatamente ao que eu me referia.
- Pertenço a este lugar. Coloquei minha mão sobre seu coração, que batia tão rápido quanto o meu.
- Como pode ser errado?

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