O garfo rodava entre os meus dedos, quando o elevava a pasta medíocre vinha atrás, formando um fio de comida no ar. O meu estômago enrolava-se aquele cheiro horrível. Atiro, frustrada, o garfo contra o prato. Abato a minha cabeça na minha mão, encarando a janela a meu lado. Era pequena e dava uma mínima visibilidade do corredor ao lado do refeitório. Esta divisão era diferente do que me lembro. Então tinham passados mesmo dois anos... não me conformava com isso, onde é que uma pessoa podia aceitar dois longos anos terem passado a seu lado como uma rajada de vento numa tempestade, tão rápido que quando damos por nós nem a lembramos? Eu não podia aceitar tal possível realidade, eu não queria aceitar.
"Desculpa" uma voz feminina ouve-se à minha frente
Antes não tinha ninguém diante de mim, o refeitório não estava muito preenchido. Elevo o meu olhar e dou de caras com a rapariga da cela a meu lado. O seu cabelo ligeiramente despenteado, dando-lhe um pouco abaixo dos ombros. Os seus olhos avelã, algo não muito mais claro que o cabelo e uma cara sardenta completava a imagem de pessoa pálida mas sem um ar frágil, como eu já me habituei a ver aqui.
"Por ainda há bocado..." os seus olhos caem nos rebordos do prato, dedos a brincarem com pequenas partes da louça, já partidas
"Tudo bem" nem penso na resposta ou limito-me a manter um tom minimamente preocupado
"Estou a sério" chama a minha atenção
Eu não queria ninguém por perto, longe disso pensar numa amizade. Tive a Eve, ela morreu por minha causa. A Christina, não posso saber se está viva ou morta, se continua nas mãos destes miseráveis homens ou se já conseguiu escapar deste inferno da Terra e foi para a paz do Céu. Todos me abandonaram, a pessoa que eu pensava ser a única a amar-me morreu num dia que eu sou incapaz de definir, então eu estou mesmo sozinha por causa daquilo a que se chama morte. Mais uma vez esse ser obscuro e sem crepúsculos insistia em mandar-me abaixo com o seu puder de acabar com a vida das pessoas, daquelas que me são próximas e que eu quero aqui, perto de mim.
Uma lágrima involuntária cai pelo meu rosto e eu sou rápida a apanhá-la, de forma tão discreta que até eu duvido se choraria mesmo.
"Fui um pouco bruta contigo, desculpa-me"
"Há pouco não parecias arrependida" eu estou realmente irritada, sem saber o porquê
"Eu já pedi desculpas" exalta-se um pouco e arregalo-lhe um pouco os olhos "Não agi bem" atira o olhar para baixo, de novo
"Sem dúvida"
"Desculpas-me?" olha-me reticente
"Porquê pedires desculpas a uma sonsa e falsa?" tento, eu realmente tento saber o porquê de esta rapariga estar a ser tão bipolar, ela própria não parece saber o que está a fazer
Silêncio. Não valia a pena, chatices era algo do qual queria distância e eu não precisava de desculpas por meras palavras, talvez por atos passados eu o pedisse, mas por algo saído da boca de uma estranha... eu realmente não queria saber e nem conseguia sentir-me mal por esse desinteresse a umas desculpas, sejam elas sentidas ou não.
"Está tudo bem" tento garantir
Agarro no meu tabuleiro, ele parecia igual aquilo que estava quando me sentei. Apanho um pequeno pão, embrulhado em papel lastimoso. Esta era possivelmente a única coisa que me salvaria da morte devido à fome. Antes... há dois anos, não havia nada disto. Certamente muitas morreram de escassez de alimento, de tremenda fome e sede, e isso não convinha a corpos masculinos desejosos de prazer. O pão foi uma solução, era isso que eu pensava.
"Espera" ouço, quando os meus pés já percorriam a metade do corredor para fora do refeitório
Eu posso estranhar as instalações e métodos daqui, agora. Antes eramos autênticos objetos, hora para entrar e sair de divisões, todas saíamos e entrávamos juntas, homens a guiarem-nos. Agora, eu guiava-me a mim própria por este corredor, acompanhada pela voz de há pouco a chamar-me.
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The Shadow-Haunted
RandomEsta é a história de Blair, uma rapariga que, na pior fase da sua vida, passa a sofrer de algo surreal, e Harry, um rapaz aparentemente normal, mas com um grande segredo, capaz de destruir todo o amor que ele possa criar. Eles vão mudar a vida um d...
