Cemitério de Paris
A noite estava completamente cega.
Nenhuma lua. Nenhuma estrela. Apenas o céu negro pressionando o cemitério como uma tampa de caixão. As lápides antigas projetavam sombras tortas, e as árvores nuas rangiam ao vento, como ossos se esfregando uns contra os outros.
Pierre surgiu do alto de um mausoléu, silencioso como pedra que aprende a respirar. Suas asas se abriram devagar, absorvendo a escuridão. Ali, naquele lugar onde os mortos não dormiam, algo profano havia sido despertado.
O cheiro veio primeiro.
Podridão antiga. Carne aberta. Terra revirada.
O carniceiro estava ali.
O duque Hilton de Gramont rastejava entre túmulos violados, o corpo grotescamente inclinado, como se os ossos não obedecessem mais à própria anatomia. A pele tinha tons acinzentados e esverdeados, inchada pelo que já havia consumido. A boca era larga demais, rasgada até quase as orelhas, e os dentes — irregulares, serrilhados — ainda carregavam fragmentos de cadáver.
— Guardião... — a criatura sussurrou, com a voz úmida. — Paris esqueceu você.
Pierre pousou no chão com peso suficiente para rachar a lápide ao lado. Seus olhos de pedra brilharam num dourado contido.
— Paris nunca esquece seus mortos. Só aprende a silenciar os monstros.
O carniceiro avançou primeiro.
Movia-se rápido demais para algo tão disforme. Saltou sobre Pierre com unhas longas como lâminas enferrujadas, tentando rasgar as juntas de pedra. O impacto ecoou pelo cemitério como um trovão abafado.
Pierre foi arremessado contra um túmulo antigo, quebrando anjos de mármore em pedaços. Antes que pudesse se erguer, a criatura cravou os dentes em seu ombro de pedra, rangendo com força, tentando arrancar um fragmento.
Pierre rugiu — um som grave, profundo, ancestral — e agarrou o carniceiro pelo crânio, esmagando-o contra o chão. A terra se abriu sob o impacto, ossos humanos emergindo como testemunhas silenciosas.
— Você se alimenta da morte — disse Pierre, pressionando. — Eu fui criado para enfrentá-la.
O carniceiro riu, cuspindo fragmentos de osso.
— Você protege os vivos... eu devoro o que eles abandonam!
Com um movimento brutal, a criatura se soltou, rasgando parte da própria carne para escapar, e atacou novamente, agora pelas costas. Suas unhas encontraram uma rachadura antiga na asa de Pierre, arrancando lascas de pedra.
Pierre cambaleou, sentindo o feitiço da lua — mesmo ausente — ainda pulsar em suas falhas.
Ele se virou e golpeou.
O punho de pedra atravessou o tórax do carniceiro, quebrando costelas e penetrando carne morta. A criatura gritou, um som que misturava dor e fome, e tentou morder o braço de Pierre, mas foi erguida do chão como um cadáver leve demais para resistir.
— O Vaticano quer seu corpo — murmurou Pierre. — Eu só preciso do seu silêncio.
Com força absoluta, ele arremessou o carniceiro contra um mausoléu fechado. A estrutura cedeu, pedras ruíram, e o corpo da criatura ficou preso entre os escombros, ainda se debatendo.
O carniceiro tentou se arrastar, dedos quebrados riscando a terra.
Pierre avançou lentamente.
Cravou o pé sobre o peito da criatura e pressionou até ouvir o estalo final. Depois, com as próprias mãos, selou o corpo sob as pedras do túmulo violado, pronunciando palavras antigas em latim — não de oração, mas de contenção.
Quando tudo terminou, o cemitério voltou ao silêncio.
Pierre ergueu o olhar para o céu vazio.
Sem lua.
Sem testemunhas.
Apenas Paris, respirando no escuro.
E mais uma criatura que jamais pisaria novamente entre os vivos.
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Gárgula ( +18)
Fantasy* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ... Eu já falei que o livro tem muito sexo? É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
