Mar de dúvida

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Terceira Pessoa

– Quanto tempo dura?

Mitch ainda colocava a última mala de Lydia no porta malas quando ela finalmente se comunicou com ele depois do "bom dia" murmurado como cumprimento. Martin estava mais quieta que o habitual, centrada e retida em seu mundo pessoal de expectativa e receio.

Faziam dois dias desde havia sido levada até a base de treinamento da CIA por Hurley e algumas horas depois, deitada no quarto da sede, Lydia não conseguiu mais ignorar a ideia insistente que martelava nos neurônios. Reservou os últimos dias que tinha até dar a resposta definitiva, simplesmente por ocasião e talvez alguma tortura pessoal, mas Martin já tinha sua escolha.

Apesar de os últimos dias terem sido conturbados como um furacão, alguma força que vibrava em suas mãos a mostrava que estava ansiosa para poder se desligar de suas dores e drenar energia em outra coisa, outro ambiente, outra fase de sua vida.

Seus olhos acuados receberam os de Mitch. Ele a encarou por um momento, decifrando as emoções retraídas que dançavam em seu rosto, estudando a maneira natural que seus cabelos curtos e ruivos brilhavam com o sol da manhã. Ele engoliu um suspiro, tentando disfarçar como ainda digeria mal toda a situação em que ela estava submetida.

Reconhecia que Lydia não estaria bem nem como civil nem como agente enquanto Irene não conseguisse a tolerar. Tinha receio por ela, mas também enxergava o potencial que Martin tinha para driblar a situação e se era seu desejo, tornar-se uma agente espetacular. A confiança na mulher – atrelada aos pingos de receio que banhavam a consciência do homem –, foram o que o fizeram não a confrontar em nenhum momento desde que ela o disse que tinha aceitado.

Estava disposto a apoiá-la independentemente de como podia ser – como ele considerava –, estúpido por nutrir sentimentos por ela. Sentimentos que agora se arranhavam com garras espessas em seu coração. Lydia cozinhou na própria ansiedade, mordendo a boca grossa enquanto era encarada por ele. Apertou e afrouxou os dedos, quase pulando nos calcanhares.

Mitch fechou o porta malas do carro de Hurley e se escorou na lataria, invadido por um banho repentino de nostalgias com a pergunta dela. Os olhos verdes o avaliaram por inteiro, reparando no contraste bonito que a camisa escura e lisa tinha com a pele pálida.

– Cinco meses.

Ela abaixou os olhos, buscou por Hurley ao encarar a porta da sede, esperando pelo agente. Trouxe uma unha despercebida aos lábios e roeu. Mitch observou em silêncio, percebendo como o inquieto e pequeno corpo da mulher parecia alojar um gigante adormecido.

– Você está nervosa. – Concluiu ele, e alguma diversão subiu em sua voz.

– Não deveria estar?

– Sinceramente? – Aproximou-se dela, um sorriso leve brincando na lateral de seu rosto. – Não. Você poderia atirar no pé de Hurley e ele continuaria sonhando acordado com seu treinamento na Resguarda.

Lydia debochou com uma risada fraca.

– Você realmente acha que ele gosta de mim?

Ao contrário do que Mitch poderia esperar, não existia nenhum tom de ânimo ou esperança na voz dela. Martin parecia irredutível quanto ao desejo de agradar Irene ou Hurley, e Rapp adorava aquela característica apesar de saber que era mal administrada. Sabia que sua personalidade forte era sem dúvida um dos motivos que a fazia ser tão áspera para Irene, mas tão sólida e polida para Hurley.

– Tire proveito disso por lá. – Ele piscou.

Os joelhos da mulher tremeram por um momento. Ela corou por algum motivo desconhecido, abaixou os olhos com alguma diversão e se conteve em silêncio. Mitch verificou o relógio no pulso, impaciente com a demora do chefe. Ao lançar um novo olhar para a porta, algo em seus neurônios queimou.

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