Víbora

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Terceira Pessoa

Um punho alucinado disparou como uma névoa no rosto do asiático. O homem cedeu os joelhos ao chão, a pistola antes nos dedos perdida em algum canto do lugar. As gotas de sangue que decoraram a parede branca cresceram um sorriso diabólico nos lábios finos antes de, após quebrar a distância como um vulto, uma mão forte agarrar o homem na cabeça.

Os olhos grogues e doloridos, sem relutância, encararam Mitch em uma súplica silenciosa. Seu apelo – qualquer que tenha sido – nunca ultrapassou a camada de adrenalina cega que cobria a cabeça do agente.

Segundos de alguma apreciação sádica passaram pela pequena lanchonete caótica. A balbúrdia de clientes assustados ao fundo, as cadeiras caídas em companhia à mistura de muffins e refrigerantes decorando o piso e os tiros ao fundo eram borrões ao redor. Mitch admirou o sangue, apertou os dentes e permitiu que o impulso corresse até os dedos.

Apertou à cabeça do criminoso e bateu-a contra a parede, observando os olhos do homem rolarem para trás e mais sangue banhar seu corpo exausto. Rapp permitiu que ele caísse no chão, gemendo e tremendo em dor e agonia enquanto seus olhos erguiam à contragosto.

Encarou a silhueta musculosa, potente com duas pistolas firmes nas mãos, e sua expressão relaxou. Os lábios de Scott caíram em surpresa e ao olhar o agente, sua repreensão atingiu Mitch antes mesmo que falasse.

– Caralho, novato. – Murmurou ele, balançando à cabeça. – Irene disse que a missão não precisava envolver mais sangue que o necessário.

Mitch passou uma mão pelo corte em uma das bochechas e correu os olhos pela lanchonete, observando-a vazia. Um músculo saltou da linha dura de sua mandíbula quando voltou ao colega.

– Ele iria atirar em um civil, eu o derrubei antes. – Disse ele, ausente de muita preocupação. Caminhou até a pistola jogada perto do balcão e pegou-a de volta, sustentando o olhar cobrador do agente. – Allison conseguiu?

Scott deu uma risada fria.

– Pergunta idiota.

Mitch assentiu sem muito nexo, cuspindo sangue no chão ao sentir o interior das bochechas queimarem. Deu um olhar indiferente ao homem que estava prestes a desacordar, os dedos sussurrando um pedido proibido ao cano frio da arma.

– Nem pense nisso. – Repreendeu McCall, balançando a cabeça. – Você está empolgado pra caralho, mas não é assim que funciona.

– Você está acima de Sophie? – Sua voz fria questionou, concentrando-se nele.

O corpo de Scott enrijeceu, e Rapp observou os dedos tilintarem nas pistolas, quase como se estivessem certificando a existência das armas. Mitch se perguntou se Scott a usaria contra ele se precisasse.

A antipatia crua nos olhos de Mitch era rotineira e McCall, apesar de habituado, ainda não conseguia decifrar por completo o colega de trabalho. Entendia que sua postura defensiva derivava de dor e luto, reflexos do passado que a maioria dos agentes da CIA trazia consigo. Sua curiosidade, entretanto, era em como Mitch conseguia ser tão direto mesmo quando não podia.

– Não. – Disse por fim, o tom neutro.

– Então você pode experimentar parar de me dar ordens?

McCall soltou uma risada curta de escárnio, seus olhos empedrados viajando pelo estabelecimento por um instante.

– Se é assim que você quer. – O homem abriu um sorriso genuinamente inatingível. – Pode matá-lo se quiser muito, mas não me peça um teto para dormir depois que for demitido.

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