A CORRIDA

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As pessoas sempre perguntavam por que eu corria tanto. Era sempre a mesma coisa, como se a pergunta fosse parte do clima da cidade, dessas coisas automáticas que se dizem para preencher o vazio. "Luiz, você vai acabar se matando assim", diziam, enquanto eu passava por elas ofegante, o corpo dobrado para frente, as pernas obedecendo antes mesmo do pensamento. Eu não respondia. Nunca respondi. Porque não era sobre saúde, nem disciplina, nem algum tipo de obsessão moderna por desempenho. Eu corria porque era a única coisa que me mantinha vivo. Ou, pelo menos, me mantinha longe do que vinha atrás de mim.

No começo, eu dizia a mim mesmo que era só cansaço, só paranoia, só coisa da cabeça. Mas as vozes não eram coisa da cabeça. Elas vinham de fora, sempre um pouco atrás do ouvido, como se alguém corresse exatamente na mesma velocidade que eu, mantendo a distância apenas para poder falar.

"Devagar, Luiz."

"Nunca vai escapar, Luiz."

"Você sempre foi lento, Luiz."

E eu corria.

Corria como se cada passo fosse uma negociação com o destino.

Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que eu era devagar em tudo. Devagar para pensar, devagar para reagir, devagar até para entender o que estava acontecendo na minha própria vida. Minha esposa, Marta, fazia questão de me lembrar disso todos os dias, com aquele jeito que parecia carinho e desprezo ao mesmo tempo.

— Você é lento até para respirar, Luiz — ela dizia, às vezes rindo, às vezes não.

A gente tinha uma mercearia pequena, dessas de bairro antigo, com prateleiras apertadas e cheiro constante de café passado demais. "Mercearia Dois Irmãos", embora não houvesse dois irmãos coisa nenhuma. Só nós dois. Eu trabalhava como trocador de ônibus, e ela administrava tudo ali dentro como se o mundo inteiro dependesse daquela loja. Marta era rápida em tudo. Pensava rápido, falava rápido, resolvia rápido. Era como se o tempo tivesse pressa quando passava por ela.

Eu achava isso admirável.

Depois comecei a achar perigoso.

Porque tem gente que anda rápido demais por dentro. E essas pessoas nunca ficam no mesmo lugar por muito tempo.

Foi num domingo que tudo mudou. Eu tinha esquecido meu cartão de ponto na mercearia e precisei voltar. O tipo de coisa pequena que muda uma vida inteira sem fazer barulho. A loja estava fechada, o bairro quieto demais, aquele silêncio de domingo que parece sempre esconder alguma coisa. Entrei pela porta dos fundos, subi para pegar o cartão e foi aí que ouvi.

Gemidos.

Vindos do andar de cima.

Subi as escadas sem pensar direito, só com aquela sensação de que alguma coisa estava fora do lugar. Abri a porta do quarto e parei.

Havia dois homens na minha cama.

E havia Marta.

Eles me olharam como se eu fosse o intruso. Como se eu tivesse entrado no lugar errado. Marta, por outro lado, parecia aliviada. Ou divertida.

— Você sempre chega atrasado, Luiz — ela disse, como se estivesse comentando o tempo.

Os dois homens não disseram nada. Não tiveram tempo.

O que aconteceu depois não foi claro na minha memória. Nunca é nessas horas. Só sei que houve movimento demais, som demais, raiva demais. E no fim, eles estavam no chão. Quietos. Definitivos.

Marta olhava tudo como quem assiste a uma coisa esperada finalmente acontecer.

— Impressionante — ela disse. — Você finalmente fez alguma coisa rápido na vida.

Eu não lembro exatamente quando deixei de pensar. Só lembro de ter ouvido minha própria voz pedindo silêncio, pedindo explicação, pedindo qualquer coisa que devolvesse o mundo ao lugar certo.

Mas Marta não devolvia nada. Nunca devolveu.

Ela apenas ria.

— Você é um erro lento, Luiz. Um erro que demorou onze anos para acontecer.

Foi quando empurrei.

Não houve reflexão. Não houve decisão. Foi como se o corpo tivesse finalmente alcançado o pensamento e decidido agir sozinho.

Ela caiu.

Mas não acabou.

Nada acaba tão fácil quanto deveria.

Quando desci, ela ainda estava lá. Torcida de um jeito impossível, como se o corpo tivesse esquecido como deveria ficar. E mesmo assim, viva. Ainda falando. Ainda rindo.

— Até nisso você é lento — ela disse.

Foi aí que comecei a entender o que realmente estava acontecendo comigo. Não era raiva, nem culpa, nem arrependimento. Era outra coisa. Algo mais antigo. Algo que não dependia mais dela estar viva ou morta. Era como se, desde aquele momento, alguma coisa tivesse sido liberada dentro de mim.

Depois disso, o resto foi simples. Simples demais para ser humano, difícil demais para ser lembrado sem distorção. Houve o quintal, houve a terra, houve o silêncio forçado da rotina no dia seguinte. Houve o telefone para o trabalho, a mentira bem colocada, o atestado, a vida seguindo como se nada tivesse acontecido.

Mas algo tinha acontecido.

Sempre acontece.

É por isso que eu corro agora.

No começo, era só fuga. Depois virou hábito. Depois virou necessidade. Hoje é regra. Todos os dias, cedo ou tarde, eu saio. Corro pelas ruas ainda vazias, pelos parques, às vezes até por lugares onde não deveria haver ninguém. E as vozes continuam comigo, sempre um pouco atrás, nunca cansadas, nunca em silêncio.

"Devagar, Luiz."

"Você não vai conseguir parar, Luiz."

E eu corro mais rápido.

Porque eu sei como isso funciona agora. Sei que não importa o quanto eu avance, sempre existe alguma coisa tentando me alcançar. Não sei se são eles. Não sei se é ela. Não sei se sou eu mesmo.

Só sei que, se eu parar, finalmente vão me alcançar.

E eu ainda não posso deixar isso acontecer.

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