Marina acordou antes mesmo do despertador terminar de fazer seu trabalho inútil de sempre, mas ainda assim perdeu a batalha contra ele. O som insistente atravessava o quarto como uma agulha fina, e quando ela finalmente abriu os olhos já sabia que tinha algo errado no dia, embora não acreditasse nessas coisas de pressentimento. Era só cansaço, dizia para si mesma enquanto tateava o criado-mudo e derrubava o celular no chão. O apartamento ainda cheirava levemente a sal e roupa úmida, uma mistura que vinha da proximidade com o mar e que ela nunca tinha conseguido eliminar completamente. Viúva há pouco mais de dois anos, ela havia aprendido a viver com esses pequenos incômodos, como se fossem parte de um novo tipo de normalidade que não perguntava permissão para existir.
O atraso no trabalho foi apenas o primeiro empurrão do dia. Marina já entrou na corretora com a sensação de que estava sendo observada, embora o lugar fosse apenas mais um escritório apertado com computadores antigos e ar-condicionado oscilando entre o frio e o sufoco. Seu chefe não precisou levantar a voz para deixá-la pior; bastou aquele olhar de decepção calculada, como se ele soubesse exatamente onde apertar para fazê-la sentir pequena sem parecer agressivo. Ela engoliu a resposta que queria dar, uma resposta que provavelmente a faria ser demitida na hora, e voltou para a tela cheia de gráficos que pareciam se mover sem sentido, como se zombassem dela.
O erro aconteceu rápido, quase invisível no começo. Um clique errado, uma interpretação apressada de uma tendência, um cliente confiando dinheiro demais em alguém que ainda estava tentando provar que merecia estar ali. Quando percebeu, já era tarde. O prejuízo não foi apenas financeiro, foi pessoal, como se cada número negativo estivesse sendo escrito diretamente dentro dela. O cliente cancelou o contrato sem discussão, e o chefe apenas suspirou daquele jeito exausto de quem já perdeu a esperança de mudança. Marina ficou olhando para a tela por alguns segundos depois que ele saiu, sentindo algo próximo de raiva, mas mais frio, mais fundo, como se estivesse sendo lentamente substituída por outra coisa menos humana.
No fim do expediente, ela tentou se salvar com um plano simples: encontrar as amigas antigas, beber alguma coisa, fingir que ainda era a mesma pessoa de antes. Mas o trânsito não permitiu nem essa ilusão pequena. O carro parecia preso em uma espécie de congestionamento sem causa, como se a cidade estivesse deliberadamente atrasando seu retorno ao mundo real. Quando desistiu do bar, a frustração já tinha se transformado em uma espécie de resignação amarga, e ela decidiu ir direto para casa, passando pela praia só para respirar um pouco antes de enfrentar o resto da noite.
Foi nesse trajeto que tudo piorou de verdade. Dois carros bloqueavam parcialmente a rua, e a princípio parecia apenas mais uma briga de trânsito, dessas que sempre terminam em gritos e portas batidas. Mas os homens saíram dos veículos com uma rapidez que não combinava com a situação, como se já estivessem esperando por aquilo há muito tempo. As palavras vieram carregadas, depois os empurrões, e então algo metálico brilhou sob a luz fraca do fim de tarde. Marina não queria ver aquilo, mas não conseguiu desviar o olhar a tempo de perceber a arma sendo levantada. O som seco veio logo depois, curto e definitivo, e ela sentiu o corpo reagir antes da mente, jogando o Chevette para a contramão enquanto o mundo ao redor parecia se estreitar. O coração ficou preso na garganta, e por alguns segundos ela teve certeza de que tinha passado perto demais de algo que não devia ter testemunhado.
Quando finalmente conseguiu sair dali, o gosto metálico da tensão ainda estava na boca. A rua da praia ficou para trás como uma promessa quebrada, e a estrada em direção ao apartamento parecia mais longa do que deveria ser. Marina tentou racionalizar o que tinha acontecido, encaixar tudo em uma sequência lógica de eventos urbanos caóticos, mas algo dentro dela insistia em não aceitar a explicação simples. Era apenas azar, repetia mentalmente, como se a repetição pudesse transformar aquilo em verdade.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
