A FOME QUE NÃ ACABA

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Maria Gorda acordou com a dor antes mesmo de entender o que estava acontecendo. Foi como se o mundo tivesse decidido retomar algo que vinha sendo cobrado em prestações há muito tempo. O braço esquerdo ardia de uma forma viva, pulsante, e quando ela tentou puxá-lo para perto do corpo percebeu tarde demais a presença do cão. Ele já estava ali, como se sempre tivesse estado, magro demais para ser real, os ossos marcando a pele como uma estrutura mal montada, os olhos fundos brilhando com uma inteligência doentia. E então ele mordeu de novo, com uma precisão quase paciente, como quem sabe exatamente o que precisa fazer para sobreviver.

Maria tentou reagir, mas o corpo não obedecia direito. Havia uma névoa dentro dela, uma mistura de cansaço, fome e algo mais antigo, mais profundo, como se a própria vida tivesse ficado pesada demais para ser carregada naquela madrugada sem testemunhas. Ela segurava a marmita contra o peito com a força que ainda tinha, como se aquele objeto simples fosse a última prova de que ainda pertencia ao mundo dos vivos. O cão não parecia interessado em outra coisa. Ele queria aquilo. Aquilo era tudo.

— Sai... sai daqui... — ela murmurou, mas a voz saiu quebrada, quase sem forma, engolida pelo frio da rua vazia.

A cidade dormia sem culpa. Nenhuma janela acesa, nenhum carro passando, nenhum som humano. Apenas o vento empurrando sacos plásticos pelas calçadas e o rangido distante de alguma estrutura metálica esquecida. Era como se o mundo tivesse aprendido a desviar o olhar dela há muito tempo, e naquela noite apenas levasse isso às últimas consequências.

O cão avançou de novo, mais agressivo, e Maria sentiu o impacto como um estalo por dentro, algo se rompendo que não era só carne. O sangue quente escorreu pelos braços, misturando-se à sujeira antiga da pele, e ela percebeu com uma clareza estranha que não sentia medo. Talvez porque já tivesse vivido com o medo tanto tempo que ele havia deixado de ser novidade. Talvez porque a fome dele e a fome dela já não fossem coisas diferentes.

Ela pensou na marmita.

Não no cão.

Na marmita.

Era isso que ainda fazia sentido.

Ela se lembrava de quando a encontrou, ainda morna, esquecida num banco perto de um canteiro de obras. Um almoço interrompido por pressa ou cansaço, deixado para trás como se não tivesse valor. Maria Gorda não desperdiçava comida. Nunca tinha desperdiçado nada na vida. Nem antes, nem depois de tudo desabar. Sentou-se ali mesmo, na calçada, e comeu devagar no início, como quem tenta convencer o corpo de que ainda merece algo bom. O mundo podia ignorá-la, mas aquela comida ainda existia. E isso bastava.

Ou quase bastava.

Porque a fome não era só do estômago. Nunca tinha sido.

Era uma coisa maior, que roía por dentro, que ficava acordada mesmo quando o corpo dormia em bancos de praça e pontos de ônibus. Uma fome que tinha nome, mas que ela não lembrava mais. Ou talvez nunca tivesse aprendido.

O cão puxou a marmita com violência e ela reagiu tarde, segurando o objeto com os dedos trêmulos enquanto o animal rosnava com uma raiva sem lógica, como se estivesse defendendo algo sagrado. Por um instante, os dois ficaram assim, presos naquela disputa absurda, dois seres reduzidos ao mesmo ponto básico da existência: sobreviver.

— Vai embora... — ela repetiu, mas já não havia força na frase.

O cão não respondeu. Não precisava.

Quando finalmente conseguiu arrancar a marmita, já não havia mais nada dentro dela que importasse. Nem comida, nem sentido, nem futuro. Apenas o peso do corpo, o frio da rua e aquela sensação antiga de estar sendo esquecida pelo mundo em tempo real.

Ela caiu sentada na calçada, encostada no concreto áspero, e o cão continuou. Não havia pressa. Não havia crueldade consciente. Era apenas o que era. Fome seguindo fome, como se uma coisa chamasse a outra desde sempre.

Maria respirava com dificuldade quando o nome dela começou a se dissolver dentro da própria cabeça. Era curioso como nomes podiam perder o sentido antes mesmo da morte. Como se fossem coisas emprestadas.

Ela tentou se lembrar de quem tinha sido. Algo dançava na borda da memória, uma imagem distante de luzes, de palco, de corpos se movendo em ritmo, de aplausos que pareciam pertencer a outra pessoa. Uma mulher jovem, inteira, vista. Isso existiu mesmo? Ou era só mais uma história que ela tinha contado para sobreviver?

O cão mordia, e o mundo diminuía.

Ela sussurrou, quase sem som, mais para dentro do que para fora:

— Quem... eu...

E então veio a lembrança. Ou algo parecido com isso. Um rosto. Uma voz. Uma casa com flores na janela. Um nome que não era só o que a cidade tinha feito dela. Havia sido outra coisa antes. Havia existido uma pessoa antes da rua, antes da sujeira, antes do silêncio coletivo que aprendia a não olhar.

Por um segundo, ela quase riu.

Não havia ninguém ali para esperar por ela.

Nunca houve.

E ainda assim, alguma parte dela insistia que sim.

Quando essa última resistência se quebrou, não foi com dor nem com grito. Foi com desaparecimento. Como se a ideia de Maria Gorda tivesse sido apagada aos poucos, sem cerimônia, até restar apenas o corpo e o cão e a noite indiferente.

E quando a madrugada finalmente engoliu tudo, a cidade continuou a mesma.

Porque cidades fazem isso.

Elas esquecem.

SOMBRAS DA NOITEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora