A ÚLTIMA VIRADA

5 1 0
                                        

Naquela véspera de Ano Novo, o calor de São Paulo parecia doente. Não era apenas a temperatura sufocante presa entre o concreto e o asfalto; era algo mais pesado, mais viscoso, como se a cidade inteira estivesse respirando através de pulmões cansados. O céu permanecia sem lua, encoberto por uma camada espessa de nuvens que refletia as luzes dos prédios em tons amarelados e azulados, transformando tudo numa espécie de brilho artificial e febril. Mesmo assim, os fogos já começavam a explodir em vários bairros antes da meia-noite, e os estampidos ecoavam pelos corredores estreitos da Vila Maria como tiros distantes. As pessoas tentavam celebrar. Churrasqueiras improvisadas fumegavam nos becos, crianças corriam gritando entre os barracos e caixas de som velhas disputavam espaço com os rojões. Mas havia alguma coisa errada naquela noite, algo silencioso e invisível infiltrado no meio da festa, como um cheiro ruim escondido sob perfume barato.

Márcio percebia isso desde o fim da tarde. Estava sentado na pequena varanda da casa onde morava com a mãe, usando uma camiseta já encharcada de suor enquanto observava os prédios distantes além da ponte da Casa Verde. Dali, São Paulo parecia infinita, um amontoado de janelas acesas piscando na escuridão como olhos insones. O relógio velho da cozinha marcava quase meia-noite, mas ele sentia como se as horas estivessem paradas havia muito tempo. O cheiro de carne queimando na churrasqueira do vizinho subia pelo ar quente misturado ao odor do córrego próximo, e aquilo despertava nele uma sensação antiga de desgaste, como se toda comemoração fosse apenas uma encenação repetida ano após ano para impedir as pessoas de perceberem o quanto estavam vazias.

Dentro da casa, Dona Glória terminava de arrumar a mesa enquanto fingia não observar o silêncio do filho. Ela estava cansada, embora tentasse esconder isso atrás de um sorriso automático que já não enganava ninguém. As rugas profundas em torno dos olhos haviam aumentado muito nos últimos anos, e Márcio percebia algo nela que o assustava mais do que envelhecimento: resignação. Era como se a mãe tivesse aceitado que a vida não mudaria mais. Ainda assim, naquela noite, ela insistia em preparar comida, separar copos de plástico e manter a televisão ligada nos programas de réveillon como se cumprir aquele ritual pudesse afastar alguma desgraça invisível.

Ela apareceu na porta da varanda segurando um pano de prato e ficou observando o filho durante alguns segundos antes de falar.

— Vai ficar aí sozinho mesmo? Não vai entrar pra celebrar com a gente?

A pergunta saiu sem força. Ela já conhecia a resposta antes mesmo de fazê-la.

Márcio não desviou os olhos da paisagem distante.

— Celebrar o quê?

Dona Glória suspirou lentamente e encostou no batente da porta. O brilho azulado da televisão iluminava parte do rosto dela, deixando o restante mergulhado em sombra.

— A virada do ano... a chance das coisas melhorarem.

Márcio soltou uma risada curta, amarga, sem humor verdadeiro.

— Você acredita mesmo nisso, mãe? Que alguma coisa muda porque meia dúzia de rico solta fogos no céu e o calendário troca de número?

Ela não respondeu imediatamente. Ficou olhando para ele com uma expressão cansada, como alguém tentando encontrar palavras dentro de um lugar vazio. Lá fora, outro rojão explodiu tão alto que os cachorros da rua começaram a latir ao mesmo tempo.

— Talvez não mude nada — ela disse por fim. — Mas as pessoas precisam fingir que muda. Se não fizerem isso, não levantam da cama no dia seguinte.

Márcio permaneceu em silêncio. O calor parecia piorar a cada minuto, deixando o ar pesado demais para respirar direito. Ele passou a mão pelo rosto úmido de suor e teve a impressão estranha de que a noite estava escura demais, como se alguma coisa tivesse engolido parte das luzes da cidade. Foi então que sentiu o arrepio percorrer lentamente sua espinha, um frio rápido e profundo que não combinava com o clima sufocante. Instintivamente olhou para trás, para a rua estreita diante da casa, e teve a nítida sensação de que alguém o observava da escuridão entre os barracos.

SOMBRAS DA NOITEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora