Dunga acordou como se tivesse sido arrancado de algum lugar profundo e mal definido, não exatamente um sonho, mas também não algo que pudesse chamar de realidade com segurança. Havia um instante antes da consciência plena em que tudo parecia suspenso, como se o mundo estivesse segurando a respiração junto com ele, e então veio a percepção do quarto, pesado, imóvel, estranho demais para ser apenas desconhecido. O primeiro pensamento foi simples e primitivo, quase infantil na sua urgência: ele não sabia onde estava, e pior do que isso, não sabia como tinha chegado ali. O segundo pensamento veio logo depois, mais frio, mais perigoso, insinuando que talvez ele sempre tivesse estado ali e apenas agora tivesse sido autorizado a perceber.
A luz do abajur ao lado da cama não iluminava, ela pressionava o espaço, criando sombras longas demais para o tamanho do quarto, deformando os cantos como se algo estivesse dobrando a geometria da realidade apenas para caber dentro daquela pequena área fechada. Dunga tentou se lembrar da última coisa que havia visto antes de acordar, mas as memórias vinham como fragmentos molhados, escorregando por entre os dedos da mente, rostos sem boca, vozes sem origem, um corredor talvez, uma rua talvez, ou apenas a sensação de ter sido observado por muito tempo antes de perder completamente a capacidade de reagir. O corpo dele parecia pesado demais para ser apenas cansaço, como se a cama o segurasse com uma força passiva, quase educada, mas absolutamente irrecusável.
Quando finalmente conseguiu se mover, foi com um esforço que parecia deslocar não apenas músculos, mas a própria ideia de movimento. Sentou-se devagar, sentindo o ar do quarto mudar com ele, como se o ambiente estivesse ajustando sua postura em resposta. A porta estava à frente, uma presença sólida demais em um espaço que parecia instável, e ele percebeu com uma estranha certeza que já sabia que ela estaria trancada antes mesmo de se levantar. Ainda assim foi até ela, porque não havia outra coisa a fazer, porque ficar parado parecia pior, porque a mente humana sempre insiste em testar limites mesmo quando já conhece o resultado.
A maçaneta girou sem resistência, mas a porta não cedeu. Dunga empurrou uma vez, depois outra, sentindo o impacto retornar para os braços com uma precisão mecânica, como se a estrutura estivesse viva o suficiente para responder, mas não viva o bastante para explicar. Bateu com força, primeiro com a palma da mão, depois com o punho, e o som produzido não parecia ecoar para fora, mas para dentro, como se o próprio quarto estivesse absorvendo o ruído e mastigando lentamente cada tentativa de comunicação. Quando falou, sua voz saiu menor do que esperava, quase envergonhada diante da ausência de resposta.
— Tem alguém aí? — perguntou, e imediatamente odiou a própria voz por soar tão frágil.
O silêncio que seguiu não foi vazio. Ele tinha textura, tinha densidade, parecia ocupar os ouvidos como algodão úmido. Dunga se afastou da porta lentamente, não porque tivesse desistido, mas porque algo dentro dele começou a sugerir que insistir demais poderia ser notado por aquilo que estava do outro lado, mesmo que ele não soubesse o que era esse "outro lado". O quarto, visto de novo com mais atenção, parecia ligeiramente diferente agora, como se tivesse mudado enquanto ele não olhava diretamente, uma alteração mínima demais para ser certeza, mas suficiente para gerar desconforto.
Ele passou a explorar o espaço com cautela, tocando as superfícies como quem testa a temperatura de uma água desconhecida. Não havia janelas, isso era claro, mas também não havia marcas consistentes de construção, apenas paredes lisas demais, quase sem textura, como se tivessem sido moldadas e não erguidas. O armário abriu com um rangido baixo, revelando roupas dobradas com uma ordem artificial, sem poeira, sem sinais de uso real, como se tivessem sido colocadas ali para cumprir uma função estética de "normalidade" e não para servir a alguém. Ao lado da cama havia uma escrivaninha com um caderno.
O caderno chamou sua atenção com uma força que parecia desproporcional ao objeto. Ele o abriu esperando encontrar algo, qualquer coisa que o ajudasse a se situar, nomes, datas, registros simples de alguém que viveu ali antes dele. Mas as páginas estavam vazias, completamente vazias, não apenas em branco, mas vazias de intenção, como se nunca tivessem sido destinadas a receber escrita. Dunga passou o dedo sobre o papel e teve a sensação absurda de que estava tocando uma ausência, não uma superfície. Por um instante, quase acreditou ouvir algo muito distante, como páginas sendo viradas por mãos invisíveis, mas o som desapareceu antes que ele pudesse confirmar.
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SOMBRAS DA NOITE
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