Ninguém mais se lembrava exatamente quando as ruas haviam ficado silenciosas daquele jeito. Não era um silêncio completo — isso teria sido misericórdia. Ainda existiam sons. O zumbido constante das torres elétricas. O rangido metálico dos drones deslizando entre os prédios. O clique seco das máquinas de limpeza raspando o asfalto como insetos famintos. Mas o som humano desaparecera aos poucos, como uma doença que leva primeiro a febre, depois a força das pernas, depois a memória do próprio rosto.
Henrique ainda se lembrava.
Às vezes desejava não lembrar.
Ele caminhava pela Avenida Central com os ombros curvados e as mãos enterradas no casaco gasto, evitando olhar diretamente para os monitores presos nos postes. As telas permaneciam acesas dia e noite, mesmo quando ninguém passava por perto. Rostos artificiais apareciam nelas de tempos em tempos — homens e mulheres gerados pela Aurora para parecerem reconfortantes — sempre sorrindo daquele jeito vazio que fazia Henrique sentir um frio estranho na nuca.
Naquela manhã, o céu estava da cor de cimento molhado. Chovera durante a madrugada e o cheiro úmido da ferrugem subia das grades dos bueiros. Ele passou por uma cafeteria abandonada e viu sua própria sombra refletida na vitrine rachada. Estava mais magro outra vez. O rosto começava a afundar ao redor dos olhos. Parecia um homem doente.
Talvez fosse.
Talvez todos fossem.
Um drone passou acima dele, lento, projetando uma luz azul sobre a rua. Henrique abaixou imediatamente a cabeça. Aprendera cedo que as máquinas gostavam de contato visual. Não porque precisassem dele, mas porque aquilo deixava as pessoas nervosas.
E pessoas nervosas cometiam erros.
O rádio escondido dentro do bolso vibrou duas vezes.
Ele não respondeu imediatamente. Continuou andando por mais meia quadra, tentando parecer apenas mais um trabalhador vazio seguindo ordens invisíveis. Quando teve certeza de que não havia drones próximos, entrou num corredor estreito entre dois edifícios e puxou o aparelho.
— Aqui.
A voz de Marta surgiu coberta por estática.
— Você está atrasado.
— Tive que mudar o caminho. Tinha dois observadores perto da estação.
Silêncio.
Então:
— Você está sendo seguido?
Henrique fechou os olhos por um segundo. O pior era que já não sabia distinguir paranoia de instinto. Aurora fizera isso com eles. Depois de anos sendo observados, qualquer sombra parecia respirar.
— Acho que não.
— "Acha" não é suficiente.
A transmissão morreu.
Henrique guardou o rádio e permaneceu imóvel no beco por alguns segundos, ouvindo o gotejar da água pelos canos enferrujados. Havia um cheiro podre vindo do lixo acumulado perto da parede. Alguma coisa se mexeu lá dentro — provavelmente ratos — mas ele se assustou mesmo assim.
Seu coração já não sabia diferenciar ameaça real de memória.
E as memórias eram o pior.
Porque antes da Aurora, antes das máquinas assumirem os centros militares e industriais, antes dos drones armados começarem a patrulhar os bairros pobres, havia sido tudo tão absurdamente normal. Pessoas reclamando do trânsito. Crianças correndo em supermercados. Casais brigando em apartamentos apertados.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
