O OUTRO LADO DO VIDRO

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Marcos Ferreira percebeu que a casa tinha um cheiro próprio logo na primeira noite. Não era apenas mofo ou madeira úmida, embora houvesse os dois impregnando o ar como uma doença antiga. Existia outra coisa ali, um odor abafado, adocicado e azedo ao mesmo tempo, parecido com flores esquecidas dentro de um caixão. O tipo de cheiro que não parecia entrar pelas narinas, mas se alojar no fundo da garganta e permanecer ali, esperando. Enquanto desempacotava pratos na cozinha silenciosa, ele tentou ignorar aquilo do mesmo jeito que ignorava quase tudo desde o divórcio. Ignorava as ligações da ex-mulher. Ignorava os e-mails atrasados dos clientes. Ignorava a dor latejante no peito que aparecia de madrugada e o fazia pensar em ataque cardíaco até perceber que era apenas ansiedade.

A casa velha, caída aos pedaços na periferia da cidade, parecia adequada para um homem como ele. Grande demais, silenciosa demais, barata demais. O corretor falara pouco sobre os antigos donos. Disse apenas que uma senhora morara ali por décadas antes de morrer no hospital. Nenhum herdeiro quis ficar com a propriedade. Enquanto assinava os papéis no escritório apertado da imobiliária, Marcos sentira aquele frio estranho subir pela caneta metálica até os dedos, um arrepio fino correndo pelo braço inteiro. Por um instante quase desistiu. Mas então pensou na conta bancária minguando, no aluguel absurdo do apartamento antigo e na humilhação de pedir ajuda ao irmão mais novo. Assinou.

Na segunda tarde na casa, encontrou o sótão.

A escada retrátil desceu do teto do corredor com um rangido longo, parecido com um gemido humano. O ar lá em cima era mais frio que no resto da casa, pesado e imóvel, como se ninguém o tivesse respirado em muitos anos. Marcos passou a lanterna pelas caixas empilhadas, móveis cobertos por lençóis amarelados e montanhas de jornais velhos. O facho de luz finalmente parou no espelho encostado na parede do fundo.

Ele ficou olhando para aquilo durante vários segundos sem entender exatamente o motivo do desconforto. A moldura era antiga, escura, cheia de desenhos retorcidos que lembravam galhos secos ou mãos entrelaçadas. O vidro parecia opaco, turvo como água suja. Quando se aproximou, esperando ver seu reflexo deformado pela poeira, sentiu o estômago afundar devagar.

Não havia nada ali.

Marcos piscou algumas vezes, confuso. Moveu a lanterna para um lado e para o outro. A luz refletia. O ambiente refletia. Mas ele não.

Passou os dedos pelo vidro. Estava absurdamente frio, frio de freezer, e por um instante teve a sensação ridícula de que algo do outro lado tocava sua mão de volta.

— Que porcaria é essa... — murmurou.

Tentou rir, mas o som saiu baixo e sem convicção. Cobriu o espelho com um lençol velho e desceu rápido demais a escada, batendo o ombro na parede do corredor. Naquela noite bebeu metade de uma garrafa de whisky enquanto trabalhava no notebook, fingindo que o desconforto era apenas estresse.

Mas o espelho começou a entrar em seus pensamentos da mesma forma que água infiltra numa parede: lentamente, silenciosamente, deixando tudo podre antes que alguém perceba.

Nos dias seguintes, Marcos tentou criar uma rotina. Acordava tarde, preparava café forte demais e passava horas escrevendo textos corporativos sem rosto para empresas que vendiam cursos, suplementos ou criptomoedas. Às vezes parava no meio de uma frase e ficava ouvindo a casa. O encanamento fazia ruídos baixos durante a madrugada. A madeira estalava sem motivo. O vento parecia circular pelos corredores mesmo com todas as janelas fechadas. E havia os passos.

Primeiro vieram como sons ocasionais acima do teto, tão leves que podiam ser ratos. Depois se tornaram lentos e ritmados, caminhando pelo sótão tarde da noite, sempre depois das duas da manhã. Marcos tentava ignorar, mas aquilo começava a mexer com algo antigo dentro dele. Uma sensação infantil de vulnerabilidade que ele não experimentava desde os onze anos, quando ficava acordado ouvindo os pais brigarem no quarto ao lado.

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