O ÚLTIMO OXIGÊNIO DO CORCOVADO

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Júlio já não sabia exatamente há quanto tempo caminhava, porque o tempo havia deixado de ser algo confiável desde que o céu ficou daquele cinza permanente e pesado, como se o mundo tivesse sido coberto por um pano úmido que nunca secava. O visor do cilindro de oxigênio piscava com uma frieza quase debochada, marcando dez minutos restantes, e ele tentava não olhar para aquilo o tempo todo, como se ignorar pudesse estender o inevitável por mais alguns instantes. O corpo estava leve e pesado ao mesmo tempo, uma contradição constante de quem não se alimentava direito havia dias, talvez semanas, e carregava uma mochila que parecia cheia de pedras ao invés de latas enferrujadas e restos de esperança.

O armazém surgiu entre as ruínas como uma lembrança torta de um mundo que insistia em não morrer completamente. Júlio parou por alguns segundos antes de se aproximar, o peito apertado sob a máscara de gás, ouvindo apenas o som mecânico da própria respiração filtrada, como se estivesse preso dentro de um animal metálico. Ele conhecia aquele lugar. Não do presente, mas de uma vida anterior que agora parecia pertencer a outra pessoa, alguém mais novo, mais inteiro, que ainda tinha a ilusão de que o mundo podia ser consertado. Era ali que vinha com sua mãe, muito antes de tudo, quando ela ainda ria enquanto escolhia alimentos nas prateleiras e dizia para ele ficar atento aos sons da mata que já começava a engolir a cidade.

A memória veio sem pedir licença, como sempre acontecia quando o corpo estava cansado demais para defender a mente. Ele se viu pequeno, segurando uma sacola enquanto sua mãe se movia com uma segurança que parecia impossível naquele novo mundo, desviando de buracos no asfalto, apontando caminhos entre prédios rachados e árvores que cresciam onde não deveriam crescer. Ela sempre dizia que a cidade ainda lembrava dela, e que por isso nunca se perdia. Júlio acreditava nisso com uma fé infantil, uma fé que agora parecia cruel. Porque ela também se perdeu. Um dia saiu sozinha e não voltou, e ninguém nunca disse exatamente o que aconteceu, apenas o silêncio que veio depois, pesado demais para ser ignorado.

Ele olhou para o horizonte antes de entrar. O Cristo Redentor ainda estava lá, ou algo que o imitava, mas já não era o mesmo símbolo de antes. Agora havia algo estranho no topo do Corcovado, uma estrutura cinza, irregular, como se o próprio concreto tivesse adoecido com o tempo. Júlio sentiu aquele incômodo familiar crescer no fundo do estômago, uma pergunta antiga que ninguém mais fazia em voz alta. Onde estava Deus quando o mar subiu e engoliu cidades inteiras, quando Nova York afundou como se nunca tivesse existido, quando o pulso eletromagnético apagou qualquer ilusão de controle humano? Ele não tinha resposta, apenas a repetição das histórias que os mais velhos sobreviventes ainda insistiam em contar até desaparecerem também.

O interior do armazém era frio de uma forma que não vinha da temperatura, mas da ausência de tudo. Prateleiras tombadas, embalagens rasgadas, poeira grossa cobrindo o chão como cinza acumulada de um incêndio antigo. Júlio entrou devagar, cada passo calculado, o som dos próprios movimentos ampliado pela máscara. Ele sabia que não havia mais muito o que encontrar ali, mas a necessidade tinha deixado de ser racional fazia tempo. Era instinto agora, um reflexo de sobrevivência que não distinguia mais esperança de teimosia. Ele começou a vasculhar as prateleiras, pegando o que ainda parecia minimamente utilizável, mesmo que a validade fosse apenas uma piada escrita em letras pequenas nas embalagens enferrujadas pelo tempo.

Enquanto enchia a mochila, sentia os olhos arderem, não apenas pela poeira, mas por algo mais difícil de nomear. Talvez fosse a consciência de que cada objeto retirado dali era apenas mais um lembrete de que o mundo estava realmente acabando, lentamente, sem pressa, como se tivesse todo o tempo do universo para se desfazer. Em alguns momentos, ele parava por alguns segundos, segurando latas que não sabiam mais o que eram, e sentia vontade de chorar, não por tristeza direta, mas por uma exaustão profunda de continuar fazendo o mesmo gesto de sobrevivência sem nunca ver mudança alguma.

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