Marcos sempre achou que o silêncio da Serra dos Óculos tinha algo de errado, embora jamais tivesse conseguido explicar isso de um jeito que não soasse como superstição de gente do interior. Não era ausência de som, não exatamente. Havia vento entre as árvores, havia insetos, havia o estalo distante de galhos se partindo no calor do dia. Mas tudo isso parecia acontecer abaixo de uma camada invisível, como se o mundo estivesse abafado por um pano úmido e antigo, e aquilo começava a incomodá-lo mais conforme os anos passavam. Ele dizia a si mesmo que era cansaço, rotina, a repetição da vida no campo corroendo a cabeça de qualquer um que ficasse tempo demais sem ir embora, mas havia noites — como aquela — em que ele não conseguia mais se convencer disso.
Naquela tarde, quando voltou das plantações de café, o corpo dele doía de um jeito familiar, quase reconfortante, como se a dor fosse a única coisa honesta que restava. O sol tinha descido pesado atrás da serra, tingindo o céu de um laranja doente, e havia um cheiro estranho no ar, algo entre terra molhada e madeira apodrecendo. Ele notou isso antes mesmo de entrar em casa, e notou também que os cachorros do vizinho não latiam havia horas, o que era incomum o bastante para fazer sua atenção se prender por alguns segundos a mais do que o habitual. Mas ele entrou mesmo assim, porque a vida no campo ensinava uma coisa simples: se você começa a dar atenção demais ao que parece errado, não faz mais nada.
Isabel estava na janela quando ele entrou. Não virou de imediato, e isso também não era exatamente novo, mas havia uma rigidez diferente na forma como ela permanecia ali, como se estivesse esperando algo do lado de fora que não tinha coragem de encarar diretamente. Marcos largou o chapéu na mesa e passou a mão pelo rosto suado, sentindo a aspereza da barba por fazer. Por um instante, considerou ignorar aquilo, ir direto para o banho, jantar qualquer coisa e dormir sem conversa, como tantas vezes fazia. Mas o silêncio dela parecia pesado demais para ser ignorado.
— Você tá olhando o quê aí? — ele perguntou, sem muita força na voz, mais por hábito do que por curiosidade real.
Isabel demorou a responder. Quando finalmente virou o rosto, Marcos percebeu algo que o fez hesitar sem saber exatamente por quê: os olhos dela não estavam exatamente assustados. Estavam atentos demais, como os de alguém que já tinha visto o suficiente para não se surpreender mais, apenas confirmar. Ela piscou devagar, como se o mundo estivesse lento demais para acompanhá-la.
— A serra — ela disse, simples, como se isso explicasse tudo.
Marcos soltou um som curto pelo nariz, quase um riso que não chegou a nascer por completo.
— A serra tá lá faz tempo. Vai continuar lá amanhã também.
Ela não respondeu de imediato. Em vez disso, voltou o olhar para a janela, e Marcos seguiu a direção dos olhos dela por impulso, sem realmente querer. A luz do fim de tarde já estava quase morta, mas havia algo estranho no contorno da montanha, como se ela estivesse mais próxima do que deveria, maior do que lembrava, ocupando espaço demais no horizonte. Por um segundo que ele tentou esquecer logo depois, teve a impressão absurda de que a serra tinha se inclinado levemente na direção da casa.
— Eles estão vindo — Isabel disse, baixo.
Marcos franziu o cenho, sentindo a irritação habitual subir como defesa automática.
— Quem?
Ela hesitou. E essa hesitação, mais do que qualquer resposta, foi o que fez o estômago dele apertar de leve.
— O Murmúrio.
Ele teria rido se não tivesse percebido que a própria palavra parecia errada na boca dela, como se não pertencesse à língua que eles falavam no dia a dia. Marcos passou por ela e fechou a janela com mais força do que precisava, criando um som seco que preencheu a casa por um instante.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
