A NEVE DE OUTEIRO

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O vento vinha do rio como um bicho cansado, quente e úmido, trazendo cheiro de lama, peixe podre e folhas esmagadas. Em Outeiro, naquela parte esquecida de Belém onde as ruas de barro pareciam sempre molhadas mesmo quando não chovia, dezembro tinha o costume de sufocar as pessoas. O calor entrava pelas frestas das casas, grudava nas paredes e fazia até os cachorros dormirem de boca aberta debaixo das varandas. Ainda assim, naquela noite, havia alguma coisa diferente no ar, algo difícil de nomear, mas impossível de ignorar. Não era exatamente frio, embora Jorge sentisse arrepios nos braços desde o fim da tarde. Era uma sensação errada, como se o mundo tivesse adoecido discretamente enquanto ninguém prestava atenção, e agora aquela doença estivesse se espalhando pelas árvores, pelas águas do rio e pelas paredes úmidas das casas.

Jorge estava sentado perto da janela da sala, observando as palmeiras se dobrarem lentamente sob o vento, quando viu a primeira coisa branca cair do céu. No começo achou que fosse cinza trazida de alguma queimada distante, mas o movimento era diferente. A pequena mancha branca desceu devagar demais, rodopiando diante do poste da rua antes de desaparecer no ar quente. Ele permaneceu olhando aquilo durante vários segundos, tentando convencer a si mesmo de que tinha imaginado. Fazia meses que pequenos lapsos começavam a surgir sem explicação: sombras rápidas no canto da visão, vozes confundidas com o som do ventilador, sonhos tão vívidos que continuavam grudados nele mesmo depois de acordar. Às vezes levantava no meio da madrugada com a certeza de que havia alguém observando sua cama no escuro. A mãe dizia que era nervoso, excesso de preocupação, mas Jorge conhecia aquele medo desde menino. Conhecia porque vira o pai afundar lentamente na mesma coisa antes de desaparecer vinte anos atrás.

Quando outro floco caiu diante da janela, Jorge se levantou devagar, sentindo um desconforto frio subir pelo peito apesar do calor sufocante da noite. Seu reflexo apareceu no vidro antes da rua: barba malfeita, olhos cansados, o rosto magro demais para um homem de trinta e quatro anos. Parecia mais velho, e isso o incomodava porque o fazia lembrar do pai. Atrás dele, Dona Lurdes continuava na cozinha mexendo a panela de tucupi enquanto o cheiro forte do caldo se misturava ao óleo da fritura e ao perfume doce demais do panetone barato comprado na feira. Ela cantarolava baixinho uma música natalina tocando no rádio, mas desafinava sem perceber, e Jorge sabia que ela fazia aquilo quando estava nervosa. Ele continuou olhando os pequenos flocos surgindo no escuro até que finalmente falou, sem conseguir tirar os olhos da rua.

— Mãe... você viu?

Dona Lurdes não respondeu imediatamente. Continuou cortando cebola com a concentração automática de quem passou a vida inteira tentando manter a casa funcionando apesar do cansaço e da falta de dinheiro. Só quando percebeu algo estranho na voz do filho é que largou a faca e caminhou até a sala limpando as mãos no vestido florido.

— Vi o quê, Jorge?

Ele apontou para a janela.

— A neve.

A palavra ficou suspensa entre os dois como uma blasfêmia. Durante alguns segundos Dona Lurdes não disse nada. O rádio chiou baixinho atrás dela enquanto o vento fazia as telhas rangerem. Então ela olhou pela janela e sentiu o estômago afundar lentamente. Não era muita coisa ainda, apenas alguns pontos brancos dispersos caindo do céu escuro antes de desaparecerem perto do chão quente, mas estavam realmente ali. Naquele instante uma lembrança antiga voltou inteira à sua cabeça, tão viva que quase conseguiu sentir novamente o cheiro da chuva daquela noite distante em que Nivaldo desapareceu. Também fazia calor. Também ventava daquele jeito estranho vindo do rio. O marido passara horas sentado na varanda olhando para a escuridão como se esperasse alguém. Quando ela perguntou o que havia de errado, ele respondeu sem tirar os olhos da rua: "Tem uma mulher me chamando lá fora." Dois dias depois ele sumiu sem deixar corpo, sem deixar roupa, sem deixar explicação. As pessoas da vila diziam que tinha fugido ou enlouquecido, mas Dona Lurdes nunca acreditou completamente em nenhuma dessas histórias, porque naquela última noite ela ouvira passos rodeando a casa enquanto Nivaldo permanecia sentado na varanda com o rosto vazio de alguém que já não pertencia mais ao próprio mundo.

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