O verão de 1997 tinha um jeito pegajoso de se infiltrar em tudo, como se o ar tivesse ficado espesso demais para ser apenas ar. Para ele, aquelas noites de patrulha em Porto Alegre já tinham deixado de ser algo que se notava com clareza e tinham virado um tipo de continuação da vida doméstica mal resolvida, uma extensão cansada de quem passava o dia inteiro tentando não pensar no que não tinha dado certo. A viatura cheirava a plástico quente, suor antigo e café requentado, e o rádio chiava com uma frequência irregular que parecia sempre anunciar problemas pequenos demais para justificar a existência de alguém armado e cansado como ele.
O parceiro mastigava alguma coisa que já tinha perdido o gosto fazia tempo, provavelmente bolacha dura, dessas que ninguém compra por prazer, e bebia um achocolatado morno que parecia mais uma obrigação do que uma escolha. Não conversavam muito. Não havia muito a dizer sobre noites como aquela, em que a cidade parecia ter sido esvaziada de propósito, deixando só as ruas largas e escuras, como um cenário montado para convencer alguém de que nada realmente acontecia ali. Ele pensava nos filhos, três vozes pequenas e insistentes que ele tinha deixado em casa com promessas vagas de dias melhores, e esse pensamento vinha sempre com um peso físico, como se estivesse preso no peito.
Quando o rádio estalou mais forte do que o habitual, ele já sabia que alguma coisa ia mudar de direção, mesmo antes da voz do chefe se formar com clareza. A ocorrência era no bairro Vila Rica, um lugar que sempre vinha acompanhado de um tipo específico de silêncio nas conversas dentro da corporação, como se ninguém quisesse admitir que existia uma parte da cidade que parecia ter desistido de ser cidade. Era longe, isolado, e quase sempre envolvia relatos que terminavam do mesmo jeito: alguém em pânico, alguém dizendo ter visto algo, alguém que não sabia mais diferenciar medo de realidade.
— De novo psicose de madrugada — o parceiro murmurou, sem tirar os olhos da estrada enquanto colocava o resto da bolacha na boca.
Ele não respondeu de imediato. Já tinha visto esse tipo de coisa tempo suficiente para saber que o cansaço não era só físico, era uma espécie de desgaste da crença, como se cada chamada fosse mais um pequeno teste de fé em algo que nunca se confirmava completamente. Mas havia também outra coisa, algo mais discreto, mais íntimo, que ele não gostava de admitir: o alívio de sair da viatura, de fazer alguma coisa, mesmo que fosse errado, mesmo que fosse inútil, desde que fosse alguma coisa.
O caminho até Vila Rica foi se tornando cada vez mais irregular, ruas que iam perdendo iluminação, depois perdendo asfalto, depois perdendo até a sensação de que alguém se importava com elas. Subiram um morro íngreme onde as casas pareciam ter sido abandonadas no meio de uma frase, portas tortas, janelas abertas demais, mato crescendo como se tivesse pressa. O rádio ficou mais silencioso ali, como se até ele estivesse evitando aquele lugar.
A casa indicada, número 1022, ficava no fim de uma rua que parecia não terminar em lugar nenhum além dela mesma. Estava escuro demais para ser apenas falta de lâmpada; era uma escuridão que parecia ter peso, como se tivesse sido colocada ali e não simplesmente resultado da ausência de luz. A porta estava aberta, mas não havia movimento, nem som, nem aquela sensação mínima de presença humana que normalmente denunciava que alguém ainda estava tentando controlar a própria casa.
— Isso aqui não tá certo — o parceiro disse, mais baixo do que o habitual.
Ele desceu da viatura com a arma ainda no coldre, mas com a mão já perto dela, um gesto automático que vinha antes do pensamento. O ar parecia mais frio ali, apesar do calor da noite, e havia um cheiro leve de coisa metálica misturado com vegetação úmida. Começaram a circular a casa, verificando o perímetro, como faziam sempre, mas havia uma sensação crescente de que aquilo não era uma cena esperando para ser entendida, e sim uma cena já concluída sem testemunhas.
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SOMBRAS DA NOITE
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