Incêndio 🧯

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Amanda

Acordei com uma baita dor de cabeça e percebi que já era noite, meu estômago revirava de fome e me dei conta que eu não havia comido nada desde de quando cheguei. Resolvi tomar um banho rápido e descer para jantar, torcia para não ter o desprazer de me esbarrar com meu noivo, retirei minha roupa e fiquei chocada com o quanto eu estava magra, algumas cicatrizes enfeitavam meu tórax, eu queria me lembrar do acidente e de toda minha vida antes dele.

Deixei a água do chuveiro cair sobre os meus ombros e relaxei um pouco sentindo o calor me abraçar. Minha cabeça rodou quando fechei os olhos e tive um flash de memória, um homem me encarava, olhos azuis e pele bronzeada. Não conseguia desenhar seu rosto perfeitamente, muito menos me lembrava de seu nome. Eu precisava me lembrar, precisava sair daqui.

Saí do banho e vesti uma roupa qualquer, retirei a cômoda que mantinha a porta trancada e fui rumo à cozinha em silêncio.

Assim que desci as escadas encontrei meu maldito noivo e minha amiga de infância, seus corpos estavam grudados um ao outro, de onde eu estava fiquei com a impressão que se beijavam, assim que me viu, Margarida deu um salto assustada se afastando dos braços do Lucas.

— Oi Aman... Raquel. Como está? — ela perguntou animadamente.

— Bem. — respondi — Você ia me chamar de que? — perguntei.

— De nada meu amor. Margarida não anda bem da cabeça, até parece que foi ela que acordou do coma. — Lucas interrompeu antes que a moça pudesse responder. — está com fome? — perguntou

— Sim. Mas quero saber onde está meu pai. — perguntei.

— Infelizmente querida, seu pai teve que fazer uma viajem de negócios, ele disse para agilizarmos a papelada do casamento. Pediu que eu cuidasse de você enquanto ele estivesse fora. Não será nenhum sacrifício pra mim fazer isso. Estou louco pra passar alguns minutos a sós com você. — sussurrou ao meu ouvido.

— Creio que eu ainda não tenha me recuperado totalmente, o médico solicitou repouso absoluto. Ouso dizer que terá que esperar mais um pouco amor. — falei sarcasticamente.

— Espero o tempo que for necessário, mas nos casaremos o mais rápido possível. Não quero te perder de novo. — sorriu maliciosamente.

Caminhamos rumo a cozinha, percebi a troca de olhares dos dois, eu podia não ter memória mas não era burra. Eles provavelmente tinham um caso, era nítido, a loira olhava apaixonadamente para o homem ao meu lado. Seus olhos brilhavam como o meus deveriam brilhar na sua presença. Respirei fundo tentando colocar os pensamentos em ordem, sem motivo aparente, meu coração começou a bater descompassadamente. Os olhos azuis invadiram minha cabeça mais uma vez e eu fiquei absorta neles.

Eu precisava encontrar seu dono, ele com toda certeza era a chave dos meus problemas, estava entretida no meu prato quando um dos capangas do meu noivo adentrou a sala como se fugisse do demônio, pelo pouco que eu entendi, Lucas e meu pai comandavam um cartel, não sei bem o que isso queria dizer, mas no meu íntimo eu sabia que não era trabalho honesto.

— Patrão? — o homem falou desesperado.

— Como ousa interromper meu momento de paz ? — Lucas esbravejou.

Sua voz reverberou pelo meu corpo causando um calafrio desagradável.

— Houve um incêndio no presídio, não tenho muitas informações ainda. O lugar está um pandemônio, estava indo para o local executar o serviço que havia solicitado, e vi com esses próprios olhos o fogo consumir o lugar. Pelo pouco que sondei, o fogaréu se iniciou na cela do Ferraz, provavelmente o desgraçado está queimando no inferno.

Não sei porque, mas meus olhos se encheram de lágrimas ao ouvir aquele nome. "Ferraz" repetia em minha mente, eu nem o conhecia e já sofria por sua morte. Outro flash de memória tomou conta de mim, dessa vez a imagem era nítida. Um homem destinava o mais belo sorriso na minha direção.Tentei me concentrar para que o momento durasse uma eternidade, aquele rosto me confortava, mas fui interrompida pelo grito vitorioso do meu noivo:

— Tragam champanhe, hoje é a consolidação do meu império. — gritou — assim que eu acabar o jantar irei até o presídio, quero ter certeza que o desgraçado está morto. — esbravejou alegremente — você irá comigo meu amor, quero que compartilhe da minha felicidade.— disse direcionando seu olhar tenebroso na minha direção.

— Não me sinto bem, prefiro ficar em casa. — falei com a voz trêmula.

— Isso é uma ordem, está na hora de aprender quem realmente manda querida. — falou beijando meus lábios ferozmente.

Assim que finalizamos o jantar, saímos em disparada rumo ao presídio, meu coração doeu o trajeto inteiro. Eu não queria ver ninguém morto, muito menos esse tal de Ferraz, só de ouvir seu nome meu corpo estremecia, mas ou contrário do que ocorria com o Lucas o tremor era agradável. Por algum motivo, eu queria que esse homem estivesse vivo, mas assim que vi a situação do local minhas esperanças se esvaíram.

Alguns detentos tinham queimaduras de terceiro grau, outros se debatiam no chão esperando o socorro que nunca chegava, meu noivo sorria como se a cena fosse a mais bela de todas.

— Venha querida, quero ir ao centro do espetáculo. — ele disse me puxando pela mão.

Saí pisando em alguns cadáveres sem vida, senti meus olhos cheios de lágrimas enquanto caminhávamos rumo a cela onde tudo começou, uma forte dor de cabeça me consumiu quando eu vi o cômodo tomado por cinzas.

A fumaça fresca revelava que o incidente havia acontecido a poucas horas, não havia nenhum móvel e nenhum corpo.

— Pela situação deduzimos que o prisioneiro morreu carbonizado, seria impossível ele fugir. — uma voz masculina falou atrás de nós.

— O desgraçado morreu queimado no fogo do inferno, as chamas o consumiram vivo. Não tinha uma morte melhor pra ele. Agora sim posso descansar em paz. — meu noivo observou sorridente.

Eu continuei ali, entristecida com o coração padecendo, fechei os olhos e a imagem do mesmo homem dominou-me, nesse instante não contive as lágrimas e desabei a chorar em meio às cinzas.

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