Rafa acabou se distraindo naquela tarde. Focava no trabalho, mas a lembrança de Gizelly e de toda aquela confusão vinha a cada momento. Ronaldo ia e voltava na piscina para ver como andava as coisas. Falou com a professora algumas vezes, mas ela nem sequer tocou no assunto de Rafa e o secretário não queria ser invasivo ao ponto de perguntar diretamente. Centrada na aula, a professora era a mesma de sempre com seus alunos. Podia estar machucada, mas se estivesse, disfarçava bem.
- Eeeiiiii! - Falou Ronaldo sussurrando com suas caretas ao avistar Paulinho saindo do vestiário.
O rapaz já sabia do que se tratava. Primeiro olhou para a piscina, onde Gizelly os viu de longe e tirou a vista. Depois se aproximou do secretário.
- Abre logo essa boca e me conta o que a professora falou pra você! - Paulinho se fez de desentendido.
- Falar? Sobre o quê? Não tô sabendo de nada.
Por pouco Ronaldo não dá um piti com todos os trejeitos possíveis. Arregalou os olhos o encarando e Paulinho respondeu:
- O que a chefinha falou dela pra você?
Dessa vez Ronaldo recuou, levou a mão ao peito inclinando a cabeça e disse:
- Nada. Ela está em reunião e não falou nada.
- Pois é! Então nenhuma falou nada. - Retrucou Paulinho, saindo dando um sorrisinho e acenando para Gizelly do outro lado.
Quando voltou ao escritório, Ronaldo viu Rafa assinando uns documentos enquanto falava ao telefone. Ele sentou na frente de Rafa esperando ela terminar de falar.
- ...Ok. Será amanhã mesmo, pode agendar que estou livre. - Quando desligou, ela percebeu que pela cara de Ronaldo as coisas não estavam boas.
- O Paulinho está fingindo que não sabe de nada e nem que a professora falou alguma coisa pra ele, mas eu entendo, são amigos. Ele não vai abrir a boca.
Pela primeira vez Ronaldo percebeu Rafa realmente triste. Ela levou as mãos até a mesa, deu uma pausa e depois indagou:
- Você acha que tem jeito? Como vou consertar esse bando de coisas que eu falei?
O amigo deu um sorrisinho pegou em suas mãos e respondeu:
- Tá aí uma pessoa que nunca precisou correr atrás de ninguém, né "Kiridannn". Como você ainda consegue duvidar que é louca por essa mulher?
- Eu não duvido. É que eu não tenho jeito pra isso. Da última vez eu terminei com ela por causa de uma bobagem. Ela falou várias coisas, mas não doeu tanto.
- Acho que não doeu por que você estava descobrindo e você sabia mesmo indiretamente que ela poderia voltar, mas agora você foi longe demais. Se fosse o contrário, você querendo casar e ela não? Eu tenho certeza que deixaria as atrizes da globo no chinelo pela cena que ia fazer. Ai Rafa, a real, você não sabe perder. Nunca perdeu. Os boys terminavam com você, por que você estava pouco se fodendo pra eles, nem ligava, a fila andava e a história só se repetia, mas a professora bobinha, toda romântica, pegou você pela cabeça, pelo coração e pela xota também porque ninguém é de ferro!
Ela deu um sorrisinho com os olhos apertados, que concordavam com aquilo, mas depois suspirou.
- Se eu ver minha professora com outra acho que passo o dia rolando na cama e chorando!
Ronaldo sorriu, batendo nas mãos da amiga e disse:
- Pronto! Agora baixou a Maria do bairro? Só falta escorrer pela parede chorando com as duas mãos na cabeça, toda descabelada! Vocês são tão boas juntas, que até separadas são lindas! Deixa a poeira abaixar, espera uns dias, faz um jantar, chama ela pra conversar. Tenho certeza que pode dar certo!
Rafa levantou-se abraçou o amigo que lhe deu um beijo no rosto, depois se abraçaram de novo e ele disse:
- E ai dela se não quiser você de volta! Rodo a baiana dessa academia. Ninguém me conhece ainda!
As conversas de Ronaldo ao menos arrancavam algumas risadas de Rafaella. Continuaram trabalhando por mais algum tempo. Ela iria fechar naquela noite e Ronaldo saiu antes das nove. O som ambiente desligava automaticamente quando batiam onze horas. Ela estava terminando de organizar a reunião do dia seguinte, quando viu o horário. Como sempre, pegou suas coisas e saiu. Quando desceu as escadas, deu de cara com Gizelly apressada, saindo falando ao telefone.
- ...Uhum. Entendi... Certo...
Elas se olharam, mas Gizelly não diminuiu o passo, baixou a cabeça e continuou falando, enquanto Rafa a via se afastando. Gizelly cumprimentou o segurança na saída e sumiu. Sequer lhe desejou boa noite. Rafaella suspirou. Apertou o controle dos alarmes que estava em sua mão, mas precisava terminar seu trabalho. Andou pelos cômodos da academia, olhando tudo antes de travar. Falava com o segurança também que a viu e começou a acompanha-la. A luz do vestiário ainda estava acesa, ela imaginou que ainda havia alguém dentro, mas quando entrou junto com o segurança, não havia ninguém.
- Acho que a professora esqueceu acesa a luz. - Afirmou o homem olhando os boxes de banho e as laterais dos armários.
No canto da parede onde o ultimo armário era o de Gizelly, ela olhou a lixeira como sempre fazia. O pessoal da limpeza sempre recolhia o lixo antes de fechar e a única bolinha de papel que estava lá, indicava que foi jogada após a limpeza. Ela abriu a bolinha tentando desamassar ao ver que havia algo nele. Era uma folha de caderno pautado escrito a mão e ela conhecia aquela letra de tanto ver anotações na casa da professora.
"Minha Menina Moça!
Ela tem uma espécie de afeto que se disfarça nos pequenos detalhes.
Como quando as pontas dos dedos passeavam pelo meu rosto quando eu fingia estar dormindo e ela já estava acordada. Tinha tanto significado que me dava leves descargas de prazer.
Mas eu sempre me mexia antes, por que sabia que ela iria disfarçar e fingir que não estava me olhando. Injustamente ficaria brava e negaria me admirar.
Poderia dizer que foram meus beijos que a redimiram de ser uma mulher amarga que desaprendeu o que era o amor, mas isso foi meu primeiro pensamento.
A verdade é que ela ama além do que sabe, mesmo insistindo em não saber.
São coisas que acontecem. Compreendo. Não é fácil admitir.
Eu achei que tudo era parte da minha fantasia.
Mas os detalhes, ah, os detalhes. Sem planos para o futuro por que lhe causavam medo.
Mas ás vezes ela deixava escapar que me queria para sempre. Eu só não podia dizer que ela já era minha mesmo que não fosse ainda. Ou não fosse mais.
Ela não era ousada na culinária. Tenho certeza que nem sabe meu prato predileto. Mas os detalhes... Sua manha ao me pedir um abraço se encaixando no meu colo era muito melhor que saber a minha cor preferida.
Ela sabe que me tem e abusa disso.
Eu nunca a vi chorando por que ela não deixa. É forte. Parece um muro bem alto. onde os olhos não enxergam nada atrás.
Mas eu subiria numa escada mil vezes. Escalaria o muro inteiro.
Só para comprovar que atrás dele estava o maior campo de flores que meus olhos já viram.
Ah, os detalhes da minha moça... Ás vezes menina. Que é minha!"
Rafa prendeu os lábios ao terminar de ler. Era bonito, mas era triste. Estava riscado de caneta vermelha, muitas linhas indicando que ela estava com raiva de ter escrito aquilo. Tão amassado, que por pouco não rasga o papel ao tentar esticar o máximo possível.
- Tá tudo bem dona Rafaella? - Perguntou o segurança ao vê-la segurando o papel contra o peito.
- Tá... Tá sim. - Ela respondeu, tentando disfarçar.
Dobrou com cuidado para não rasgar, colocou no bolso e saiu. Rafa começou a imaginar com quem
Gizelly estava falando ao telefone naquele horário e com aquela pressa.
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The Teacher
FanfictionSinopse Gizelly G!P Gizelly Bicalho tem 29 anos é professora, nadadora e escritora, depois de morar 3 anos fora da Brasil, volta para sua cidade natal com a sua namorada, Hariany. Gizelly é amável, inteligente, gosta de artes e viagens. Ela sonha...
