A tarde pareceu eterna naquele dia, Rafa emendou um trabalho no outro, terminou a noite no buffet como de costume. Quando chegou em casa, Gizelly estava na cozinha e ela lhe viu passar apressada para o quarto, entrando no banheiro e fechando a porta.
Sentada na cama, Gizelly só podia ouvir a água do chuveiro caindo, e o silêncio. Rafa costumava cantar e falar pelos cotovelos enquanto tomava banho, contando as coisas que aconteciam durante o trabalho, mas naquele dia estava quieta. Gizelly abriu a porta depois de mais de uma hora, a vendo com as mãos espalmadas na parede, com a cabeça embaixo do chuveiro e a água descendo ralo a baixo. Pelo visto, ela já estava naquela posição há algum tempo.
- Eu não imaginava que seria assim!
Disse Gizelly, encostando-se á pia, cruzando os braços a vendo virar a cabeça discretamente para encara-la.
Rafa não respondeu. Continuou deixando a água levar qualquer coisa que fosse embora, e Gizelly continuou:
- Mas agora eu sei o quão verdadeira eram suas palavras quando dizia que não queria ser mãe. Não imaginava que agiria assim.
- A gente fala muita coisa ao longo da vida. Se a opinião muda, somos crucificadas. Se um homem diz que não quer ser pai, ok. Se uma mulher diz que não quer, parece que tem um tsunami virando ali a esquina. O problema é que não quero decidir nada. Não estava planejado. Não guardei parte do meu tempo agora pra isso. Não queria dividir minhas obrigações com... Com... Isso.
Ela falava baixo. Ao mesmo tempo falar a palavra "isso" além de transmitir impessoalidade, lhe trazia um sentimento de desprezo que não era o que queria sentir. Gizelly cruzou os braços novamente, a vendo desligar o chuveiro, abrindo o box, se cobrindo com a toalha que alcançou imediatamente. As duas se olharam por um instante. Especialmente Gizelly que a olhou dos pés a cabeça e sorriu. Entretanto, Rafa ficou séria. Encostou-se ao box, ficando há um metro e meio de distância da professora.
- Sou a favor que cada mulher faça o que quer do seu corpo. Longe de qualquer julgamento, cada um que se vire e resolva o que quer. Sei que tem toda essa história de religião, céu, inferno e por aí vai... Mas no meu...
- Você quer tirar ele? - Perguntou Gizelly a interrompendo.
Ela ficou quieta, mas balançou a cabeça para os lados e pontuou:
- Não.
Ouvir a palavra negativa fez a professora visivelmente aliviar a respiração.
- Não me vejo deitada numa cama de pernas abertas com alguém tirando ele de mim. Também não me vejo com uma barriga imensa, também não me vejo com ele no colo, também não me vejo sendo chamada de mãe por ninguém. Mas também não me via tendo essa conversa depois de tomar esse susto. O que eu via, era só mais um dia normal onde eu tinha que trabalhar e voltar pra casa. Só isso. Eu tô aqui de pé, olhando pra você, sabendo de uma gravidez que não planejei, e eu não consigo sentir absolutamente nada. Com certeza você tá pensando que eu deveria estar com os olhos brilhando, ou me achando egoísta e dramática porque para os outros parece tão simples, não sei, nunca parei pra perguntar como uma grávida se sente, nunca me interessei por isso.
A posição de Gizelly era a mesma. Ouvindo o que ela falava num tom baixo, sequer disse uma palavra, mas Rafa continuou:
- Minha ginecologista falou da camisinha. No mesmo dia eu deveria ter falado pra você, mas não falei. Esqueci. Levei tudo na brincadeira, embarquei em toda aquela loucura, tooodas as bobagens que a gente andava fazendo e agora... No meu corpo, no meu julgamento e na minha vontade, também na sua, não acho justo impedir ele de nascer. Não sei como vai ser. Eu pensei muito e não conseguia parar de pensar em todas as crianças do orfanato e em toda essa coisa que vivi, tudo que você viveu e agora eu não tô controlando nada. Eu não me vejo fazendo nenhuma dessas coisas que falei pra você, mas já me vi chorando, me imaginando criança, abandonada, sei lá. Mesmo depois de tanto tempo, pensando como alguém teve coragem de fazer isso comigo, e me sentindo culpada por não conseguir me sentir feliz por estar grávida. Por isso que nunca desejei nada disso. Mas você é...
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The Teacher
FanfictionSinopse Gizelly G!P Gizelly Bicalho tem 29 anos é professora, nadadora e escritora, depois de morar 3 anos fora da Brasil, volta para sua cidade natal com a sua namorada, Hariany. Gizelly é amável, inteligente, gosta de artes e viagens. Ela sonha...
