Capítulo 47

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Ficar dois dias seguidos preso em uma cela apertada, remoendo seus próprios erros fazia até o mais desgraçado dos homens refletir.

Mikey passou seu período na solitária olhando continuamente para o teto e pensando em Sanzu, em tudo o que já tinha lhe causado. Foram muitos anos, e ele não havia percebido o quanto foi cruel e egoísta.

Quando ele havia se tornado um ser tão odiável? Ele não era assim antes.

Antes…

Relembrar sua infância com o Haruchiyo foi doloroso, pois ele se sentia muito mal ao se dar conta de como havia tratado aquele garoto que apenas queria ser seu amigo. Sanzu era extremamente sozinho naquela época, por isso aprontava na escola para chamar a atenção. Mas ninguém nunca ousou se aproximar dele mais do que o necessário, exceto Mikey.

Analisando isso a fundo, agora como adulto, Manjiro finalmente entendeu o por quê daquele menino o seguir para todos os lados, apegado a ele em uma estranha dependência emocional.

Mikey sempre havia sido tudo para Sanzu, enquanto que ele era indiferente a sua existência pela maior parte do tempo.

Durante toda a adolescência ele sentiu os olhos do Haruchiyo o observando de longe, o adorando e esperando que lhe desse permissão para se aproximar. Porém, Mikey nunca havia olhado para ele, perpetuamente preocupado com seus próprios problemas.

No entanto, ele sabia o que acontecia na casa de Sanzu - a forma como seu irmão o tratava -, e também notava como a sociedade o via. Sanzu era uma ameaça urbana, que não possuía mérito ou salvação. Todos o viam como um pária moral e descartável.

Se Mikey não o tivesse recrutado para sua nova gangue o que teria acontecido com ele?

Manjiro havia se tornado tão amargo ao longo dos anos, apenas uma sombra da grande luz que já tinha sido um dia. E ele arrastou todos para a escuridão, destratou seus companheiros, magoou Sanzu de tantas formas mesquinhas…

- Sano - chamou um policial, abrindo a porta da cela e encontrando o detento estirado no colchão. - Está na hora de sair.

Mikey suspirou, odiando tudo e a si mesmo.

Ele saiu da solitária, os ombros caídos e o olhar perdido. O guarda o conduziu com firmeza, o eco dos passos ressoando no corredor frio da prisão. Ao passar pelas janelas, ele viu a escuridão se espalhando lá fora, apenas alguns pontos de luz iluminando a noite que envolvia o mundo.

Quando o policial o prendeu de volta em sua cela, o som metálico da tranca ressoou pelo corredor. Ran, que estava sentado na cama, levantou os olhos e logo percebeu a nuvem de tristeza que pairava sobre Manjiro.

Mikey se encostou na parede, o olhar fundo e vago para o chão. Ele se sentia acorrentado pela culpa.

- Ei - o Haitani o chamou baixinho, esperando o guarda se afastar o suficiente. - O que aconteceu? Parece que sugaram sua alma na solitária.

O Sano não tinha forças nem para xingá-lo, mas sabia que não podia ficar quieto. Afinal, isso dizia respeito a empreitada deles para fugir dali. Quando Ran soltou mais uma provocação sobre a situação, Mikey sequer ouviu, mantendo o foco no que realmente importava.

Então ele contou sobre o Haruchiyo.

- Daqui a três dias, - ele narrou, com um tom calmo, - Sanzu vai criar uma distração. Algo grande o suficiente para que todos os seguranças se voltem para ele. Quando isso acontecer, temos que estar prontos pra agir rápido, o Utakya vai nos chamar para o escritório, de onde podemos sair.

Ran assentiu, mantendo uma expressão neutra. Ele alcançou o bolso do uniforme de presidiário e puxou o alicate que Manjiro havia pedido.

- A propósito, aqui está o alicate que você queria. Vai ser o suficiente pra cortar algumas grades ou arames sem chamar muita atenção.

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