Capítulo 65

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Hirose já deveria estar acostumado com aquilo. Tecnicamente, carnificina fazia parte da descrição de seu cargo — mas, honestamente, quem em sã consciência se acostuma a assistir alguém sendo reduzido a picadinho humano em tempo real? Ele até admirava Sanzu, de certo modo, mas o medo sempre falava mais alto. Para a própria sorte, o Haruchiyo gostava o suficiente dele para não transformá-lo em obra de arte gore. Ainda assim, Hirose sabia: bastava um passo em falso e viraria parte do cardápio.

Maldita fosse a vida.

Ele era um funcionário CLT da máfia, sem adicional de periculosidade, sem bônus psicológico, sem vale-terapia. Desde que trocou o balcão de bar pelo cargo “promovido” na Bonten — uma promoção que só louco aceitaria —, colecionava receitas médicas de remédios para dormir. E, ironicamente, quanto mais comprimidos, mais vívidos ficavam os pesadelos.

Mesmo assim, Sanzu ainda conseguia surpreendê-lo. O presidente parecia puxar cada tortura direto do Pinterest dos serial killers, sempre uma obra inédita, sempre algo para enfiar no inconsciente de quem assistisse. E, claro, o humor negro piorava quando o nome Manjiro Sano pairava pelo ambiente como uma maldição.

Seu “ex-namorado” tão assustador quanto.

Hirose engoliu em seco, tentando não encarar a sala. Os cantos eram seu refúgio, porque o centro era um espetáculo perturbador. Havia um corpo caído no chão com a garganta dilacerada, com pregos cravados na carne — lembrança cruel de que Sanzu havia feito o infeliz engolir cada um. Nos fundos, outro sujeito balançava de ponta-cabeça como carne de açougue, braços decepados, olhos arrancados, um retrato grotesco da palavra “inútil”. Mas o terceiro… esse ainda respirava. Estava sentado numa cadeira, preso firmemente para o abate, gemendo e choramingando, o corpo tremendo como vara verde.

Sanzu o encarava com um olhar morto, abissal, de dar arrepios. Aos pés do chefe, uma panela de ferro repousava, soltando fumaça e estalos perigosos: óleo fervente borbulhava, cuspindo pequenas bolhas, como se estivesse impaciente pelo que viria.

Hirose pigarreou, a voz engasgada no peito.

— Chefe…

Nada. Nem um piscar de olhos. Ele tentou de novo, agora mais alto.

— Chefe!

Sanzu ergueu levemente o queixo, sem perder a aura letal.

— O que foi? — A voz saiu baixa, arrastada, como quem estava irritado por ser interrompido.

Hirose coçou a nuca, desconfortável.

— As divisões que monitoram o Hanma… eles avisaram que os caminhões rumo a Kanto vão sair em algumas horas.

Um lado da boca de Sanzu se curvou num sorriso satisfeito. Não era bom sinal.

— Hm. Ótimo.

Hirose abriu a boca para continuar, mas o Haruchiyo foi mais rápido:

— Você vai liderar a operação. Leve a 1ª divisão.

— Tudo bem… — trocou o peso de uma perna para outra, inquieto. — Você irá nos acompanhar? Me lembro de ter dito que queria participar da…

— Eu não vou — afirmou, voltando a olhar para sua vítima. — Apenas me obedeça, Hirose. — Suspirou, parecendo mais cansado do que em qualquer outro momento de sua existência. — Eu preciso pensar…

— Certo, eu vou… — respondeu rápido demais, quase tropeçando nas palavras.

E então, sem aviso, Sanzu pegou a panela pelo cabo. O ferro tilintou, chiando contra o ar. Hirose parou de respirar. Em câmera lenta, viu o líquido fervente derramar sobre o homem amarrado.

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