Capítulo 57

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Os dias seguintes passaram como um borrão frenético. Mikey não sabia dizer com clareza tudo o que havia acontecido — as horas se dissolviam em névoas químicas, os contornos do mundo embaçados como um sonho febril. Suspeitava, em raros momentos de lucidez, que essa supressão da realidade era culpa das substâncias que Sanzu lhe enfiava goela abaixo com recorrência.

- É para você ficar bonzinho, - ele murmurava, acariciando seu rosto pálido antes de enfiar outro comprimido entre seus lábios secos. 

E Mikey obedecia. Porque obedecer era mais fácil do que lembrar. 

Ele se sentia uma boneca de pano, leve e maleável, os membros frágeis, seu espírito flutuando em algum lugar acima do próprio corpo. Essa era a condição para ter Sanzu de volta — depois de toda a briga, das facadas verbais trocadas na prisão, da lavagem de roupa suja que deixara cicatrizes invisíveis e de um pedido de perdão ainda questionável.

Agora, era Sanzu quem o tratava como seu brinquedo favorito, e Mikey? Ele era como um gato atropelado, cambaleando entre a euforia e o vazio, incapaz de distinguir o que era real. O teto não havia caído sobre suas cabeças. Essa era sua única certeza. Enquanto ele afundava naquele limbo tóxico, acreditava — ou precisava acreditar — que a gangue estava sendo bem gerenciada por Kokonui e Angel em sua ausência.

- Eles não precisam de você, - o Haruchiyo sussurrava em seu ouvido, os dentes raspando na pele como uma ameaça disfarçada de carinho. - Só eu preciso.

Às vezes, Sanzu saía. Dizia ter "coisas para resolver" e sumia por horas, deixando Manjiro sozinho no quarto, onde o silêncio era interrompido apenas pelo zumbido dos próprios neurônios gritando por socorro. Quando voltava, trazia mais drogas, mais risadas arrastadas, mais toques que doíam e ao mesmo tempo faziam Mikey arquear as costelas, faminto por qualquer migalha de afeto. 

O mais injusto era que ele parecia incrivelmente tolerante às substâncias. Enquanto o Sano mal conseguia focar os olhos sem ver o mundo derreter como cera, Sanzu permanecia funcional — ou pelo menos fingia bem. E quando ambos estavam no mesmo nível de loucura, vinha a pergunta. Sempre a mesma. 

- Você me ama?

Sanzu perguntava com uma voz que era metade criança, metade algo perverso. Os dedos dele se enrolavam no cabelo de Mikey, puxando até os olhos se encherem de lágrimas reflexivas. Manjiro sentia a resposta subir pela garganta — um "sim" automático, condicionado (talvez verdadeiro), porque dizer não doía mais do que qualquer coisa. Mas algo sempre o impedia. Um último fio de resistência, um eco de quem ele fora antes de se tornar isso, antes de se submeter por completo ao ponto de se tornar uma coisa quebrável.  

E Sanzu odiava isso. 

A frustração transformava-se em algo violento e doce, inebriante. Como agora, com Mikey de bruços na cama, o rosto enterrado no travesseiro enquanto Sanzu marcava seu corpo com mordidas e promessas sujas. Ele rosnava, as unhas cravando-se na carne como se quisesse arrancar a alma de Mikey e substituí-la por uma versão mais obediente. Era terrível. Era maravilhoso. Era a única coisa que o Sano conseguia sentir além da apatia.    

Mikey mal conseguia respirar. 

Seus gemidos eram fracos, roucos, engasgados pelo peso do próprio corpo e pelas algemas que o mantinham preso à cama. O metal cortava seus pulsos, deixando marcas vermelhas e úmidas de sangue. Tudo doía. Tudo ardia como brasa sob a pele. 

Ele estava sujo. Inteiramente sujo.

O suor grudava em seu corpo como uma segunda pele, misturado a outros fluidos — sangue, sêmen, saliva e lágrimas. Sua mente, afogada em químicos, mal processava informações, mas vagamente lembrava-se de Sanzu limpando-o com uma toalha úmida em algum momento, ou arrastando-o para o chuveiro, onde a água fria batia em seu corpo como uma punição divina. O Haruchiyo cuidava de seus ferimentos depois de infligí-los, como um carrasco que beija as marcas do chicote. 

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