O estrondo fez o coração de Rindou parar por um segundo.
A porta do quarto foi arrancada das dobradiças com um chute brutal, a maçaneta voou longe, pedaços de madeira atingiram as paredes com estalos secos. Senju, que ajudava Ran a se levantar da cama, ergueu os olhos assustada, o corpo congelado pela súbita presença.
Ali, na moldura despedaçada da porta, estava Sanzu Haruchiyo.
Ele arfava como se tivesse corrido quilômetros, os cabelos molhados de suor grudando no rosto, os olhos arregalados, vermelhos, injetados de raiva, desespero e algo mais… algo que só Sanzu carregava na mente: loucura. A mão direita tremia, mas firme o bastante para apontar uma pistola diretamente à cabeça de Rindou Haitani.
— Ninguém. Diz. Nada. — Rosnou ele, a voz arranhada, ferida, o dedo no gatilho com uma tensão que fez Senju suprimir um grito.
Rindou levantou as mãos, devagar, o olhar preso àquele cano prateado como se fosse a foice da morte. Ran, as suas costas, esticou o braço tentando puxar o irmão mais novo para trás, numa tentativa inútil de protegê-lo.
— Irmão, calma... — Senju tentou intervir, aproximando-se, a voz vacilante.
— Cala a boca! — Berrou ele, cuspindo saliva ao falar. — Acabou. Mikey foi embora. Ele abandonou tudo. Me abandonou. E-Eu… — Um soluço o sufocou. — Eu procurei por ele pelo prédio inteiro, ele sumiu.
Um peso terrível caiu sobre eles, como se a ausência do Sano tivesse jogado sacos de areia em seus ombros. O som do sangue correndo nas veias de Rindou era mais alto do que tudo. Ran se mexeu, puxando o corpo para frente, mancando até o antigo colega.
— Sanzu… abaixa essa arma. Vamos conversar, cara.
Sanzu girou o braço e apontou a arma para ele.
— Mais um passo e eu explodo a sua cabeça! — Ele cuspia ódio. Mas os olhos… os olhos estavam molhados.
Senju aproveitou o momento de distração e deslizou por trás do irmão, escapando pelo corredor escuro da boate. Alguns subalternos da Bonten estavam aglomerados por ali, inquietos com toda a confusão. Ela pediu a eles que chamassem Kokonui imediatamente, ao passo que eles obedeceram - os olhos arregalados como pires ao escutar os berros do vice-presidente. Senju puxou o celular do bolso com dedos trêmulos e ligou para Wakasa.
— Vem me buscar por favor, o Sanzu, ele… — Arfou. — Ele tá me assustando.
Do outro lado, a voz de Wakasa, normalmente calma, explodiu em ordens rápidas. Ela correu para longe, o mais rápido que pôde, obedecendo as instruções dele para sair dali e ir encontrá-lo junto a Benkei. Enquanto isso, Sanzu encurralou os irmãos Haitani no quarto. A arma ainda estava apontada, mas sua mão tremia mais forte agora. Os olhos marejados não disfarçavam o estado alterado. Pupilas dilatadas, pele pálida, mandíbula tensa. A sinestesia da droga fazia seus sentidos ficarem mais sensíveis, por isso ele parecia um coelho assustado, embora raivoso.
— Você me prometeu. — A voz dele falhou. Por um instante, Rindou pensou que ele fosse o alvo da acusação, mas Sanzu estava olhando para um canto vazio do cômodo enquanto falava. Ele estava alucinando. — Disse que sempre estaria aqui. E agora... Mikey. Tudo isso foi porra nenhuma!
Ele realmente estava fora de si, conversando sozinho e gesticulando para alguém que não existia de verdade. Sanzu soluçou, e uma lágrima escorreu antes que ele pudesse impedir. Tentou limpar com o punho, mas já era tarde. A dor extravasava por cada poro. Não havia mais nada. Apenas ruínas. E o gosto ácido do abandono.
Um Mikey mais jovem o encarava, os cabelos loiros na altura dos ombros, os olhos tristes e a expressão cabisbaixa. Ele havia aparecido quando ficou óbvio para o Haruchiyo que não conseguiria encontrar Manjiro, após minutos ininterruptos correndo pela boate a sua procura. Sua mente tinha o costume de lhe pregar peças e, por alguma razão, a versão adolescente de Mikey era quem lhe atormentava agora. Sanzu desviou o olhar para os Haitani novamente e disse:
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Egoístas
FanfictionSanzu Haruchiyo não era alguém normal, ou pelo menos era o que as pessoas que o conheciam diziam sobre ele. Violento, impulsivo e vice-presidente da gangue mais poderosa do Japão, Sanzu era um monstro do submundo de Tóquio guiado pela coleira por Ma...
