Hirose respirou fundo, tentando estabilizar o próprio pulso. A testa latejava como se houvesse um coração pulsando logo abaixo da pele rasgada; um filete de sangue escorria pela sobrancelha, quente e lento. Ele aproximou a garrafa de cerveja gelada do ferimento, fechando os olhos quando o frio tocou a carne aberta. O suspiro que escapou não era apenas de alívio, mas de exaustão. Apoiado no balcão cromado do bar da boate, ele ignorou a zona caótica ao redor: copos quebrados, mesas viradas, manchas de sangue recentes no piso de luzes coloridas apagadas.
A confusão ainda reverberava em sua mente. Os homens que os haviam encurralado — ele, os Haitani e Angel — nos andares superiores respondiam a um tal de Haruki Shen, o novo líder da gangue que pertencera a Shuji Hanma. O submundo nunca deixava de surpreendê-lo; era imprevisível, cruel, volátil. Num dia você se imagina intocável, no outro é traído pelos que juraram lealdade e acaba como Hanma: morto, descartado, apagado sem cerimônia.
O corpo dele apareceu naquela mesma manhã, boiando no cais como um peixe morto. Os policiais o encontraram preso entre as pilastras úmidas, o rosto parcialmente inchado pela água salgada, a pele pálida e marcada por hematomas em tons arroxeados. O plástico que envolvia o torso ainda prendia algumas pedras, mal amarradas, e parte dele estava rasgado, revelando cortes profundos que não tinham sido feitos pelo mar. O cabelo, antes sempre penteado para trás, flutuava em mechas escuras e desgrenhadas; os olhos estavam semicerrados, como se ainda observassem o mundo com desprezo mesmo na morte. As gaivotas circulavam acima, rasgando o silêncio entre guinchos estridentes.
Ainda não tinham certeza de quem o havia assassinado, mas Ran tinha suas suspeitas a respeito de Manjiro Sano.
Hirose engoliu seco ao lembrar do relatório que lera. E então olhou o celular. Várias mensagens enviadas para Sanzu, dezenas de chamadas insistentes e inúteis. Ele sabia que era em vão. Mikey havia sumido com o Haruchiyo, e aquela certeza o corroía por dentro. A culpa se entranhava como veneno. Pensar na possibilidade de Mikey estar machucando Sanzu — ou pior, que talvez já o tivesse matado — fez sua respiração acelerar. O peito ardeu, apertado, quente, como se algo o esmagasse por dentro.
Ele nunca mais o veria.
Foi então que Angel surgiu, saindo do elevador. O rosto dele trazia um curativo torto preso na bochecha; a maquiagem que antes marcava bem seus olhos e boca estava toda borrada. O delineado escorrera até o queixo, o batom manchado ao redor dos lábios, e havia um brilho irregular na pele, consequência de suor, lágrimas e sangue que se misturaram durante a confusão. Ele atravessou o salão silencioso, ignorando cacos sob as botas, e pegou uma garrafa de conhaque do balcão. Virou um gole longo, direto da boca da garrafa, enquanto observava Hirose de cima a baixo — e era ignorado completamente.
— Não é culpa sua — Angel disse, a voz rouca, arrastada. — Você sabe disso. Todos sabem. Você foi coagido. Se não tivesse participado do plano… estaria morto agora.
Hirose levantou os olhos lentamente, como se a frase o tivesse atingido com violência contida.
— Espero que você e os Haitani estejam satisfeitos — respondeu, com um rancor frio que Angel sentiu como um soco seco.
Não esperou resposta. Pegou a garrafa de cerveja — sua improvisada bolsa de gelo — e saiu da boate. Angel suspirou e não tentou detê-lo, nada do que falasse apagaria aquelas últimas horas conturbadas, em vez disso analisou o ambiente e resmungou um xingamento.
Lá dentro, o estrago ainda era evidente. Alguns dos homens de Haruki haviam tomado o local como refém mais cedo, espalhando terror entre funcionários e clientes. Aparentemente, alguém havia sussurrado nos ouvidos deles de que seu antigo presidente estaria preso na Harbinz.
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Egoístas
FanfictionSanzu Haruchiyo não era alguém normal, ou pelo menos era o que as pessoas que o conheciam diziam sobre ele. Violento, impulsivo e vice-presidente da gangue mais poderosa do Japão, Sanzu era um monstro do submundo de Tóquio guiado pela coleira por Ma...
