Ran Haitani encontrava um estranho conforto no sofrimento alheio, especialmente quando suas vítimas haviam conseguido despertar nele o mais profundo dos ódios. Diante de seus pés, no chão sujo do armazém, os homens que agonizavam já nem sequer imploravam mais por suas vidas miseráveis — haviam compreendido, tarde demais, que não havia piedade naquele olhar. O sangue escorria lentamente de seus corpos perfurados, formando poças escuras que encharcavam os sapatos sociais impecáveis de Ran, criando um contraste grotesco entre a violência bruta e a elegância fria com que ele a executava.
No canto do galpão, Angel observava em silêncio. Seus olhos, cuidadosamente delineados por maquiagem, estavam ligeiramente arregalados enquanto fixavam o semblante de Ran — aquela expressão distante e maligna que agora lhe era familiar, mas que ainda lhe causava arrepios. Não era a primeira vez que presenciava algo assim. Há semanas, desde que o Haitani havia eliminado os assassinos de seu irmão e destruído por completo Haruki Shen — o antigo líder da gangue que Hanma havia deixado para trás quando morreu — os corpos se acumulavam pelo submundo como folhas secas no outono.
Cada noite trazia um novo capítulo de carnificina, uma nova página escrita com sangue na jornada de vingança de Ran. Mas nada disso parecia verdadeiramente aplacar a fúria que ardia em seu peito. No fim das contas, todos aqueles cadáveres não passavam de números, e números não trariam Rindou de volta.
Rindou continuava morto, e essa era a verdade absoluta. Não importava que seu irmão tivesse matado todos os cúmplices — diretos e indiretos — de sua morte.
Quando tudo terminou, Ran e Angel retornaram ao sedan preto estacionado nas sombras, do lado de fora do armazém. Pelo vidro embaçado da janela, Angel observava a equipe de limpeza trabalhar, carregando os corpos como açougueiros que transportam carcaças para o açougue — frios, metódicos, profissionais. O banco de couro rangeu levemente quando Angel se acomodou, mantendo uma distância calculada de Ran.
Desde aquele dia fatídico em que precisou dar a notícia da morte de Rindou, algo havia mudado para sempre entre eles. Ran, em um rompante de desespero e fúria incontroláveis, havia enrolado as mãos em volta de seu pescoço e apertado até que as estrelas dançassem em sua visão e o ar se tornasse uma lembrança distante. Foi um momento, apenas um momento de descontrole, mas Angel conhecia bem os padrões da violência. Já havia vivido relacionamentos problemáticos demais para ignorar os sinais — aquilo poderia se repetir a qualquer instante, bastava que Ran encontrasse novamente o limite tênue entre a razão e a insanidade.
O Haitani estava diferente agora. A morte do irmão mais novo havia arrancado dele algo essencial, algo que talvez nunca mais retornasse. Os novos executivos da Bonten não faziam ideia do que ele era antes — um homem diplomático, paciente, que sabia sorrir nos momentos certos e conquistar aliados com palavras em vez de balas. Para eles, Ran era apenas aquela presença gelada, imóvel como um bloco de gelo no meio do oceano, sempre a um passo de despertar e congelar tudo ao redor com sua fúria silenciosa. Ninguém ousava provocá-lo. Ninguém tinha coragem de testar até onde ia o limite daquele homem que havia perdido a única pessoa que realmente amava.
Sem Rindou e sem Hirose, a gangue havia mergulhado em mais uma confusão. Deserções, traições, disputas internas — tudo aconteceu nos dias seguintes às mortes. Mas o caos durou pouco. Ran, o último remanescente da formação original, simplesmente reorganizou as peças no tabuleiro. Novas pessoas foram designadas aos postos vagos, novas alianças foram forjadas sobre as cinzas das antigas.
O crime organizado funcionava assim, afinal — as pessoas morriam, eram substituídas, e a engrenagem continuava girando, indiferente às histórias que ficavam para trás. Indiferente ao fato de que, para Ran, nenhuma substituição seria possível. Rindou era insubstituível. E essa era a única certeza que restava em meio a tantas mortes.
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Egoístas
FanfictionSanzu Haruchiyo não era alguém normal, ou pelo menos era o que as pessoas que o conheciam diziam sobre ele. Violento, impulsivo e vice-presidente da gangue mais poderosa do Japão, Sanzu era um monstro do submundo de Tóquio guiado pela coleira por Ma...
