Capítulo 67

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Os Haitani não tinham uma sala exclusiva, nem nada que lembrasse o luxo dos tempos em que a palavra “irmãos” ainda vinha acompanhada de “perigo” em sussurros respeitosos. Agora eram vigiados feito bichos de zoológico — os seguranças de Sanzu praticamente respiravam no cangote deles. O presidente da Bonten não confiava neles nem para trocar uma lâmpada sozinhos, e nos últimos meses as conversas entre os três podiam ser contadas nos dedos de uma mão — e ainda sobrava dedo.

A boate era o cativeiro dourado deles. Estavam proibidos de sair, então os quartos no andar executivo eram os únicos lugares onde tinham um mínimo de privacidade. E “mínimo” era generosidade — sempre havia dois brutamontes de terno plantados nas portas, trocando olhares com cara de tédio e mãos nas armas.

O quarto de Ran tinha o mesmo ar de decadência cara da boate: paredes cobertas por papel escuro, cheiro de cigarro impregnado em tudo, um sofá gasto que já tinha visto dias melhores e garrafas de uísque ocupando cada superfície possível. Ran estava debruçado na janela aberta, tragando devagar, soprando a fumaça para fora como se ela pudesse carregar junto o peso da merda em que estavam metidos. O vento da madrugada entrava, frio, misturado ao zumbido distante da cidade e ao grave abafado da música que vinha dos andares de baixo.

Rindou entrou em silêncio. Jogou o corpo na poltrona de couro, que gemeu como se também estivesse cansada daquela vida. Não disse nada — e nem precisava. O rosto dele já gritava mais do que qualquer palavra. Ali, escondido de todos os outros, ele não precisava sorrir para fingir estar bem. A verdade é que desde aquela traição desastrosa, o caçula parecia uma versão patética de si mesmo.

Ele havia tido mais um dia especialmente ruim.

Ran observou o irmão de relance, tragou mais uma vez e soltou, com a voz rouca e preguiçosa:

— Tá me olhando com essa cara de velório por quê?

Rindou desviou o olhar.

— Não é nada.

Ran bufou, girando o cigarro entre os dedos.

— Rindou, comigo você não precisa fazer pose. Se for pra desabar, desaba logo.

— Eu falei que não é nada. — o tom veio seco, mas tremido.

Ran deu uma risadinha sem humor, puxando outra tragada.

— Beleza. Então fica aí, remoendo teu “nada” até ele te engolir.

O silêncio se estendeu por alguns segundos, interrompido apenas pelo som do vento e do cigarro queimando. Rindou bufou, impaciente, o maxilar travado.

— Quer saber? Eu tô cansado, Ran. — Ele levantou o olhar, finalmente o encarando. — Cansado dessa vida, dessa merda toda. A gente ferrou tudo, mano.

Ran virou o rosto devagar, soprando a fumaça pelo nariz.

— “A gente”, é?

— É. A gente. — Rindou respondeu, a voz começando a subir. — Eu devia ter te parado quando você começou com essa ideia de merda, lá atrás. Roubo, gangue, poder… olha o que sobrou da gente.

— Então agora é minha culpa? — Ran ergueu uma sobrancelha, meio irônico, meio ferido. — Fui eu quem botou a arma na sua mão?

Foi você quem me ensinou a usar. — Rindou rebateu, firme, e por um segundo o ar parecia pesado demais para respirar, como se o oxigênio tivesse se convertido em um gás carbônico asfixiante.

Ran ficou quieto, o cigarro pendendo entre os dedos. O brilho laranja da brasa iluminava o rosto dele — olhos cansados, mas ainda perigosos.

— Eu só fiz o que precisava pra gente sobreviver — disse por fim, a voz baixa, quase um murmúrio. — Você acha que alguém ia dar uma chance pra dois moleques ferrados de Roppongi?

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