Capítulo 55

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Mikey estava trancado em seu escritório o dia inteiro, imerso em um mar de papéis, ligações intermináveis e decisões que pareciam nunca ter fim. Ele despachava equipes, coordenava o recebimento e a distribuição das cargas da gangue, e resolvia pendências com fornecedores que haviam ficado em suspenso durante sua ausência. Cada minuto era uma batalha contra o tempo, e ele sentia o peso de cada segundo perdido. A Bonten estava se reerguendo com maestria, mas o processo era lento, doloroso e exaustivo.

Ele havia passado tantos meses ausente que esquecera como tudo isso exigia de sua mente. Cada decisão, cada movimento, cada palavra tinha que ser calculada com precisão. E, mesmo com Angel e Kokonui trabalhando incansavelmente ao seu lado, Mikey sentia-se sobrecarregado. A normalidade ainda estava distante, e a ideia de relaxar parecia um sonho impossível.

Mas o que mais o consumia não era o trabalho. Era o silêncio.

O silêncio de Sanzu.

Nos últimos dias, Sanzu não lhe dirigiu uma única palavra. Ele estava distante, frio, como se o Sano fosse um estranho. Kokonui comentou que estava preocupado com o estado mental do Haruchiyo, e Mikey sabia que ele tinha razão. Sanzu estava se despedaçando, e ele não conseguia fazer nada para impedir, principalmente quando foi a causa motriz de toda aquela destruição. Antes, em meio a seus pensamentos perturbados, ele gostava disso, de ver Sanzu se contorcer como uma minhoca enrolada no anzol, mas agora… Ele só sentia dor e arrependimento.

Manjiro queria correr atrás dele para gritar tudo o que sentia, como prometera fazer na prisão. Queria dizer que Sanzu era importante, que ele não era mais seu brinquedo e nem apenas mais um membro da Bonten, que ele era... Algo mais. Algo que Mikey não conseguia nomear direito, mas que sabia ser real. Queria dizer que o amava.

Mas ele não tinha tempo. O trabalho o consumia, e Sanzu propositalmente o evitava, deixando-o de lado como se fosse um fardo. Isso estava estressando Mikey mais do que ele queria admitir. Ele se sentia preso em uma gaiola de suas próprias escolhas e responsabilidades, incapaz de alcançar a única pessoa que realmente importava.

Foi então que ele explodiu.

Com um movimento brusco, Mikey derrubou tudo o que havia sobre sua mesa. Papéis voaram, canetas rolaram pelo chão, e o som de objetos quebrando ecoou pelo escritório. Ele respirou fundo, as mãos tremendo, o peito subindo e descendo em ritmo acelerado. A raiva que ele tentou conter ao longo da semana finalmente transbordou, e ele não sabia mais o que fazer.

Kokonui entrou no escritório momentos depois, atraído pelo barulho. Ele olhou para a cena – a mesa vazia, os documentos espalhados, Mikey em pé, com os punhos cerrados e os olhos negros cheios de fúria – e não pareceu surpreso. Ele já esperava que algo assim acontecesse.

— Mikey, — Koko começou, mantendo a voz calma. — Você precisa parar um pouco, deixar o trabalho de lado e fazer algo para relaxar.

O Sano queria contestar, dizer que não podia parar, que a Bonten precisava dele, que as pendências não podiam esperar. Mas as palavras morreram em sua garganta. Ele estava irritado, exausto e, acima de tudo, perdido. Kokonui estava certo. Ele precisava de uma pausa, mesmo que fosse apenas por algumas horas.

— O trabalho pode esperar, — Koko insistiu, como se lesse seus pensamentos. — A Bonten não vai desmoronar se você tirar uma noite para cuidar de si mesmo.

Manjiro olhou para ele, os olhos ainda brilhando com a raiva que não conseguia dissipar. Mas, no fundo, ele sabia que Koko tinha razão. Ele não podia continuar assim, se corroendo por dentro enquanto tentava manter tudo sob rédeas curtas.

— Certo, — Ele finalmente murmurou, sua voz rouca e cansada. — Eu... Eu vou sair um pouco.

Kokonui acenou com a cabeça, um gesto de aprovação silenciosa. Ele não disse mais nada, apenas deixou Mikey sozinho no escritório, sabendo que o presidente precisava de um momento para se recompor.

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