Capítulo 64

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Com um cigarro frouxamente preso entre os lábios, Sanzu caminhava pelos corredores do andar administrativo da boate com a postura ereta e arrogante. A luz artificial, em tons arroxeados e azulados, refletia no mármore envernizado do chão, enquanto os quadros caros e as portas de vidro fumê davam ao ambiente um ar de sofisticação sombria. O cheiro da fumaça misturava-se ao perfume amargo de álcool derramado e ao resíduo metálico de armas recentemente polidas.

Atrás dele vinham Kokonui, Hirose e Angel, em passos rápidos e firmes, como satélites girando em torno de um sol instável. Os três discutiam em voz baixa, mas acelerada, sobre os avanços da Bonten no território nacional: números de aliados recém-conquistados, estatísticas de prejuízos impostos aos rivais, novas áreas dominadas e rotas de transporte seguras abertas à força. A guerra com as demais organizações do submundo já durava meses, deixando as ruas mais perigosas e as noites repletas de negócios sujos, traições e acertos de contas.

O Haruchiyo, porém, pouco se importava com os gráficos ou relatórios. O que realmente lhe interessava era manter os seus em segurança e garantir que os inimigos continuassem se enfraquecendo. Antony Pelltov, seu aliado russo, já lhe havia aberto portas valiosas: contatos internacionais que ampliavam a distribuição das mercadorias da gangue, fazendo com que o alcance de seus negócios se expandisse ainda mais para além das fronteiras do Japão.

Sob o peso da guerra e da responsabilidade, Sanzu se revelou um presidente eficiente, quase visionário. Mas o preço vinha estampado no corpo e na mente. Havia emagrecido de forma evidente, as maçãs do rosto saltavam mais do que antes e a pele perdeu o viço, marcada por olheiras roxas e profundas. O sono já não o encontrava com facilidade - quando fechava os olhos, os pesadelos o arrastavam de volta para noites de abandono e vazio. Restava a cocaína, consumida em linhas discretas, para mantê-lo acordado, focado, inquieto o bastante para não encarar de frente os próprios demônios.

O problema era o temperamento. Em alguns dias, Sanzu parecia controlado, estrategista, frio como gelo. Em outros, uma fagulha insignificante bastava para acender nele uma fúria incontrolável - e todos à sua volta aprendiam a manter os movimentos calculados, a respiração contida, como se estivessem sempre diante de uma usina nuclear prestes a colapsar. Ele podia esmagar a cabeça de alguém contra a mesa apenas por ter sido contrariado. Rindou havia sido seu alvo mais recente, após uma piada ser mal recebida, na verdade nenhuma piada era bem recebida atualmente.

E, por trás de toda essa máscara de eficiência e poder, a depressão o corroía silenciosamente. O vazio no peito crescia como um poço sem fundo, acompanhado de crises de apatia que o faziam perder o interesse até mesmo pelos prazeres que sempre buscara - festas, violência, drogas, sexo. O abandono que sofreu ecoava em sua mente como uma voz incessante, gerando paranoia: a sensação de que todos, em algum momento, iriam deixá-lo para trás. O cigarro no canto da boca, a postura confiante e a fala autoritária eram só véus. Por dentro, Sanzu sangrava, carregando um medo quase infantil de ser esquecido, e um ódio incontrolável de si mesmo por ainda sentir isso.

Por ainda sentir falta de Mikey.

Ran já os aguardava na porta do escritório, com o ombro apoiado no batente e o olhar distraído demais para passar despercebido. Apesar da expressão relaxada que sempre carregava, havia algo nele que denunciava inquietação - um leve apertar de maxilar, os dedos batendo contra a lateral da perna em um ritmo quase imperceptível, como se lembrasse do dor do tiro que recebeu de Sanzu e cujo ferimento o deixou permanentemente manco.

A gola branca do terno, porém, era o detalhe que não se podia ignorar. Ela estava manchada de sangue fresco, que ainda se infiltrava nos fios do tecido. Vestígio direto das horas que ele passou interrogando um dos traidores que ousaram se aliar a Hanma.

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