Capítulo 72

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Mikey rompeu a superfície quando se tornou impossível continuar prendendo o fôlego. O ar entrou em seus pulmões de uma vez, ardido e necessário, enquanto a água escorria por seu rosto e pescoço. O mar, naquela hora da manhã, ainda guardava o frio da noite — um frio limpo, que despertava a pele antes mesmo da mente. Ele boiou por alguns segundos, deixando o corpo se ajustar, sentindo o coração desacelerar e os pensamentos se reorganizarem.

Aquele tornou-se o seu horário favorito para nadar. Antes do mundo acordar de verdade. O oceano ainda não havia sido reclamado por ninguém. Ali, Mikey pensava melhor. Pensava sem precisar decidir nada. As memórias vinham e iam como ondas: Tóquio, o cheiro de asfalto molhado, rostos que já não existiam mais, violência que parecia pertencer a outra vida. No mar, tudo isso perdia contorno. A água o sustentava sem pedir explicações, sem cobrar quem ele havia sido. Por alguns minutos, ele podia apenas existir.

Da varanda do quarto, Sanzu o observava.

O sol da manhã refletia nas algemas presas em seus pulsos, fazendo-as brilhar de forma quase cruel. Eram um lembrete constante da sua condição, não um hóspede, não um convalescente, mas um animal perigoso mantido sob controle. Desde que permitiu que Manjiro cuidasse dele — limpasse seus ferimentos, controlasse sua abstinência, garantisse que continuasse respirando — Sanzu o tolerava. Apenas isso.

Tolerava.

O toque de Mikey ainda lhe causava reações contraditórias: arrepios de desejo que desciam pela espinha, misturados a uma náusea violenta, quase raivosa. Luxúria e ódio se confundiam a ponto de se tornarem indistinguíveis. Um mês limpo. Trinta dias sem drogas, e ainda assim sua mente parecia em carne viva. A abstinência o deixava agressivo, inquieto, faminto por qualquer coisa que anestesiasse o vazio.

Desde que o Sano lhe contou sobre a morte de Hirose, algo dentro dele não parava de se contorcer. Era como se tivesse um animal preso em seu estômago, arranhando por dentro, exigindo vingança. Ele queria sangue, queria respostas, queria fazer alguém pagar. Mas as semanas passaram, e ele sabia que Ran Haitani não deixava pontas soltas. O assassino provavelmente já estava morto — ou pior. Não havia mais nada a fazer. Nem ninguém por quem lutar.

Sanzu era um homem sem propósito. Cativo. Raivoso.

Mikey não confiava nele o suficiente para soltá-lo das algemas, nem para deixá-lo sair do quarto. E estava certo. Sanzu ainda fantasiava em matá-lo. Às vezes se imaginava empurrando-o escada abaixo, ouvindo o estalo seco do pescoço. Outras vezes, algo mais lento: uma faca escondida, a lâmina pressionada contra a garganta enquanto Manjiro ainda acreditava estar seguro. Pensamentos recorrentes, quase reconfortantes. Mas eram apenas pensamentos.

Porque, no fim, eram só os dois. E o Haruchiyo não queria ficar sozinho.

Ele acompanhou com os olhos quando Mikey saiu do mar. O Sano ergueu o olhar na direção da casa e lhe lançou um pequeno sorriso — tranquilo demais. Seu corpo magro e esguio brilhava sob o sol, a pele úmida refletindo luz. Ele parecia… bem. Saudável. Não mais tão pálido, não mais tão oco. Parecia alguém que havia encontrado exatamente o que queria.

Claro que havia conseguido. Uma vida sossegada, dinheiro suficiente para não se preocupar, um cachorro como companhia — ou melhor, Sanzu, preso e obediente, servindo como lembrança viva do passado que Mikey escolhera manter sob controle.

O Haruchiyo não sabia o que queria agora. Tudo lhe foi arrancado. Não havia terminado o Ensino Médio. Era um criminoso procurado. Seu único amigo estava morto. E o homem que amava era uma víbora cruel e lunática, capaz de oferecer cuidado com uma mão e machucá-lo com a outra.

Ainda assim, ele não conseguia imaginar uma vida diferente. Seu destino foi selado no instante em que conheceu Mikey. Como se qualquer outro caminho tivesse deixado de existir naquele momento.

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