Capítulo 74

123 12 22
                                        

Sanzu saiu da mercearia com um cigarro de menta pendurado no canto da boca, como se fosse uma extensão natural do seu mau humor. O calor de Manila era um inferno úmido e barulhento, uma sauna coletiva onde até o ar parecia ter má vontade com ele. A regata preta, completamente encharcada, tinha decidido se fundir à sua pele numa intimidade que ele não autorizou. Expirou a fumaça para o alto com força, um exercício inútil de paciência.

Mikey estava em casa. O Sano estava sempre em casa agora, feito um gato sarnento que ele não tinha pedido, mas que insistia em se esfregar no seu pé. E, falando em gato, Umi precisava comer. Por isso ele estava ali, no calor de um círculo infernal, comprando ração enquanto sua vida virava uma comédia romântica de quinta categoria.

Havia semanas que os dois se comportavam feito adolescentes idiotas. Trocavam beijos que prometiam tudo e entregavam quase nada, e agiam como freiras virgens em retiro espiritual. Tudo porque Sanzu, pasmem, estava inseguro. Ele, que já tinha feito atrocidades com gente que nem lembrava o nome, agora criou juízo justo na hora errada. E Mikey, o desgraçado, não ajudava. O olhar do homem era um convite explícito, um outdoor piscando "VAI LOGO CARALHO" 24 horas por dia. As emboscadas nos corredores tinham virado rotina. O Haruchiyo já nem se surpreendia mais quando entrava no banheiro e dava de cara com o outro encostado na pia, feito um vilão de novela mexicana.

Prendeu o saco de ração na garupa da moto com uma fúria silenciosa, dando nós triplos por pura ansiedade. Apoiou-se no poste ao lado, franzindo a testa para o sol que parecia ter birra pessoal com ele, e começou a divagar sobre a situação ridícula em que se meteu.

Mikey, o fodidíssimo Mikey, o cobiçando. E ele, Sanzu, virando a senhorita recatada em pessoa. Seus antigos parceiros de crime morreriam de vergonha. Ou de rir. Ou as duas coisas. Hirose teria lhe dado conselhos ou, no mínimo, julgado em silêncio.

Ele prometeu que iria devagar, sim, mas a verdade é que a paciência dele já tinha feito as malas e ido embora. Na sua cabeça, a cena já estava roteirizada: ele chegava em casa, encurralava aquele desgraçado na parede e finalmente...

Estava tão perdido na própria imaginação, num devaneio vingativo e pecaminoso, que não percebeu a ameaça até ela se materializar a sua frente.

— Perdeu, otário! Passa a moto!

Sanzu piscou. Levantou os olhos com uma preguiça monumental. O sujeito à sua frente parecia um espantalho depois de um temporal. Desengonçado, magricelo, com uma camisa enrolada na cara feito curativo de emergência. O tronco magro estava nu, exposto, e a bermuda larga parecia prestes a abandoná-lo. Uma arma, velha e enferrujada, tremia na sua mão enquanto tentava parecer intimidador.

— A moto. Já. — Repetiu, a voz abafada pelo pano.

O Haruchiyo deu uma longa tragada no cigarro, deixando a fumaça escapar devagar pelos lábios enquanto analisava a criatura. Olhou para a arma, para a cara coberta, para o peito suado do infeliz, e voltou a encará-lo com o tédio de quem olha para uma barata virada de patas pra cima. Revirou os olhos. Um movimento lento, dramático, que dizia tudo sem precisar de palavras.

Esse idiota não tem a menor ideia de quem está tentando roubar.

O homem, sentindo-se desrespeitado (com razão), deu um passo à frente, gesticulando com a arma. Foi o suficiente. Sanzu moveu a mão num reflexo tão rápido quanto o piscar de olhos. Torceu o pulso do infeliz, sentindo os ossos frágeis cederem sob a pressão. A arma caiu, ele a pegou no ar, e num movimento contínuo, plantou o punho fechado no meio da cara do ladrão. O impacto foi seco. O osso do nariz estalou feito um graveto. Como cortesia, ainda acertou um chute certeiro na canela do sujeito, só pra ele não esquecer da vergonha.

Egoístas Histórias para pegar e não largar. Descubra agora